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O olhar perplexo de um Poeta diante da Vida

João Carlos Figueiredo

Um escritor e uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: arte e foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte...

Personagens do Velho Chico (Minas Gerais)

Em uma série de artigos ilustrados com fotos das regiões visitadas pretendo retratar as figuras típicas desse nosso maior complexo hídrico, a bacia do São Francisco, completamente inserido no território brasileiro, mostrando sua diversidade étnica, seus costumes, folclores e profissões ligados à existência e saúde do rio.


Bar à beira do rio próximo ao Samburá

Depois de uma sequência de corredeiras por onde o rio desce a serra, finalmente encontra seu primeiro grande afluente, o Samburá, suas águas se turvam e surgem os pescadores. O Bar do Beto é o ponto de encontro desses personagens, amadores e profissionais que fazem da pesca seu modo de vida e de lazer. Esse é o trecho compreendido entre a Serra da Canastra e Pirapora, conhecido como o Alto São Francisco, a despeito de suas diversidades geográficas, topográficas e antrópicas.

Persona Três Marias.JPG

Norberto é um pescador aposentado que sabe tudo do Velho Chico na região de Três Marias, como a tragédia causada pelo transbordamento de uma lagoa de retensão de resíduos industriais da Votorantim Metais, em 2004, que causou a mortandade de milhares de peixes e impediu os pescadores de trabalhar durante meses. A lagoa ainda existe e foi construída na margem direita do rio, próxima à ponte da BR-040.

Norberto ajudou-me a atravessar as corredeiras Grande e Criminosa, assim chamada porque há muitos anos morreram em suas águas alguns lenhadores que extraíam madeira para os vapores que trafegavam pelo rio. Dizem que eles estavam embriagados e "montavam" as toras que desciam o rio até Pirapora, porto onde atracavam os vapores. Hoje só existe o Benjamin Guimarães, vapor a lenha que faz a rota turística de Pirapora a Januária, consumindo cerca de 100 metros cúbicos de madeira em cada viagem.

Crianças de Pedras de Maria da Cruz.JPG

A destruição da mata ciliar favoreceu o assoreamento do rio. No passado, havia cerca de 1.300 quilômetros navegáveis desde Pirapora, em Minas Gerais, até a barragem de Sobradinho. Esse trecho é conhecido como o Médio São Francisco e não é homogêneo, seja pelos povos que lá habitam, seja pelas características ambientais, onde predomina o cerrado mineiro e a caatinga baiana. Na foto, essas crianças de Pedras de Maria da Cruz, pequena cidade próxima a Januária, norte de Minas, evidenciam a situação atual do rio, cujo assoreamento é tão grave que, no meio do rio, permite-se deitar e brincar como se em um pequenino córrego estivessem!

Comércio nas ruas de São Francisco MG.JPG

Nas pequenas cidades do Alto São Francisco, em Minas Gerais, o comércio é a principal atividade econômica e são comuns cenas como essa, na cidade de São Francisco, com os estabelecimentos comerciais invadindo as calçadas e forçando os pedestres a caminhar por entre os produtos estocados por todo lado. Em algumas cidades, como Ibiaí e São Romão, não se percebe a pujança do povo, conformado com a economia estagnada e decadente. Em outras, como São Francisco, a bela catedral nos recebe nas margens do rio e nos conduz a um povo hospitaleiro e gentil.

Professores de Itacarambi.JPG

Itacarambi é o portal do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, um dos mais importantes acervos espeleológicos do Brasil, repleto de inscrições rupestres e belíssimas cavernas ornamentadas de espeleotemas. Na foto, professores da rede pública assistem a uma palestra que proferi sobre preservação ambiental e o papel do Ensino Fundamental na formação da consciência ecológica das novas gerações. É curioso como essas populações ao longo do rio desconhecem a situação que os antecede e o que vem depois, eliminando seu comprometimento com a preservação ambiental e a conservação do rio que lhes dá o sustento e a vida.

O Dono do Rio em Manga de Minas Gerais.JPG

Acampado em uma pequena ilha no meio do rio, próxima a São Romão, acordei com uns dizeres escritos na areia diante de minha barraca: "Tem Dono!" (referindo-se à ilha). Levantei-me e me deparei com esse típico caboclo, de cócoras, esperando por mim. Expliquei-lhe minhas intenções e pedi-lhe que posasse para uma foto, o que abriu-lhe um sorriso e nossos caminhos! Ele contou-me sua história de muito trabalho e adversidades; o produto do que ele plantava na ilha, melancia, milho e abóbora, era usado como alimento para seu gado, umas poucas cabeças produtoras de leite. Assim é a vida no rio...

Solidão em Ibiaí.JPG

À margem do rio, em Ibiaí, MG, encontrei essa senhora, triste, cabisbaixa, sentada em um banco de madeira; sua tristeza era tamanha que eu me comovi com sua história. Quando perdeu seu marido, pescador, anos atrás, passou a cuidar dos dois filhos que, pouco a pouco, se afastaram do caminho do bem e passaram a gastar todas as economias da mãe, deixando-a na miséria. Ela, que tinha até uma casinha simples onde morava, perdeu tudo e agora vive da caridade dos moradores da cidade. Sua imagem é a expressão da solidão e desencanto...

Carro de Boi em São Romão.jpg

Personagem típica das pequenas localidades do interior paulista e mineiro, o carro de boi lentamente desaparece de nosso folclore e do cotidiano sertanejo. Essa cena foi capturada em São Romão, Minas Gerais e me trouxe à lembrança meus tempos de criança em uma pequena cidade do interior paulista: Dracena, divisa com Mato Grosso e próximo ao rio Paraná. Boas recordações...

No próximo post daremos continuidade à apresentação das "Personagens do Velho Chico", percorrendo o oeste baiano, com seus conflitos fundiários e sua religiosidade.


João Carlos Figueiredo

Um escritor e uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: arte e foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte....
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