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O olhar perplexo de um Poeta diante da Vida

João Carlos Figueiredo

Um escritor e uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: arte e foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte...

Personagens do Velho Chico (Oeste Baiano)

Não se pode compreender o Velho Chico sem conhecer suas comunidades ribeirinhas; e as comunidades quilombolas destacam-se entre as mais representativas da cultura social e da realidade política do rio mais importante do Brasil, seja pela sua população de 20 milhões de habitantes, seja pelas contradições que encerra em seu longo percurso até o mar...


Assembleia no Acampamento 17 de Abril na Bahia.JPG

Ao penetrar na Bahia, o rio São Francisco passa a abastecer comunidades quilombolas, vítimas dos conflitos fundiários protagonizados por latifundiários que não se conformam com a restituição de terras aos seus verdadeiros donos, e usurpadas por grileiros patrocinados pelo poder econômico desde o período do Império, quando as sesmarias eram distribuídas para protegidos da aristocracia real.

Na lona preta, em companhia dos acampados.JPG

O Acampamento 17 de Abril existe há quase dez anos, aguardando a regularização de suas terras pelo INCRA, o que parece nunca acontecer. Lutando pelos direitos dessa gente sofrida, o líder Afonso foi assassinado há cinco anos por capangas de fazendeiros que não querem perder as terras que sequer utilizam. Tive o privilégio de conviver com essa gente, dormir sob a lona preta e conhecer seus dramas e seus sonhos.

Comunidade de Tomé Nunes na Igreja Evangélica.JPG

A Comunidade Quilombola de Tomé Nunes fica próxima à cidade baiana de Malhada, e seus habitantes vivem com sérias dificuldades, asfixiados que foram durante anos pelos latifundiários. Hoje são protegidos pelos voluntários da Comissão Pastoral da Terra (CPT), que os orientam a defender seus direitos de existir, de trabalhar em suas terras, educar seus filhos e ter suas próprias convicções religiosas.

Meus amigos da Comunidade QUilombola de Piranhas na Bahia.JPG

Cena de minha despedida da Comunidade Quilombola de Piranhas, sudoeste da Bahia. Essa gente simples e generosa me recebeu em suas casas, mesmo sem me conhecer; deram-me alimentação e me acolheram com todo seu carinho. Enquanto eu estava com eles pude conhecer um pouco de seu drama: uma grande fazenda cerca suas terras e dificulta seu acesso à lagoa e ao rio que lhes dá o sustento; não satisfeitos, derrubam suas cercas para que seus animais "invadam" a fazenda, capturando-os e exigindo dinheiro para seu resgate! Maltratam esses pobres animais, entram em suas terras, fartam-se nos bares do quilombo, seduzem suas filhas e riem-se de suas desgraças! Isso, à revelia da Lei, que não atende aos pobres!

Paratinga - meninos caçando pombas.JPG

Paratinga, cidade histórica do oeste baiano, pequena e acolhedora, foi um hiato em minha expedição, onde recuperei minhas forças para prosseguir viagem, depois de uma ameaça de capangas de fazendeiros que não queriam minha presença nas comunidades quilombolas do Velho Chico. Esses garotos de estilingue mostram seu troféu de caça, duas pombas que irão para a caçarola do almoço... pitoresco!

Caixeiros Viajantes na pousada em Paratinga na Bahia.JPG

Em Paratinga me hospedei em uma pousada simples, um casarão do início do século XX, cujas telhas deixavam passar a luminosidade das estrelas, e também as gotas de água da chuva! Durante uma noite fui acordado pela chuva que caía sobre minha cama e pelo barulho de pessoas na sala. Eu me levantei em tempo de presenciar uma cena grotesca: eles queimavam uma aranha caranguejeira ("um caranguejo", segundo diziam...) que se refugiara na casa em busca de abrigo. Na foto acima, caixeiros-viajantes jogam cartas na sala e contam "causos" do "nêgo d´água", um ser meio-peixe, meio-gente, que se divertia em afundar as canoas dos pescadores.

Boa Vista do Pixaim - palestra à população.JPG

Boa Vista do Pixaim, última comunidade quilombola que visitei no oeste baiano, pouco antes de chegar a Barra. Esse povo hospitaleiro me recebeu com carinho, como todos os demais; pessoas simples e generosas, transformaram meus objetivos, conquistaram meu carinho e ganharam, para sempre, minha gratidão e solidariedade! Gente boa, honesta e decente, com quem gostaria de me reencontrar um dia... obrigado, meus irmãos!

Moradora da Comunidade de Torrinha na Bahia.JPG

Torrinha é uma comunidade próxima à cidade de Barra, noroeste da Bahia. A maior parte de suas casas é assim, de sapé (barro sobre armação de galhos), moradia predileta do vetor da doença de Chagas, o "barbeiro". Fui, como sempre, recebido com carinho por esse povo gentil e trabalhador, que luta por melhores condições de vida para suas famílias. As antigas mansões dos "senhores de engenho" ainda ocultam em suas ruínas algumas peças de gosto duvidoso e um afresco de uma paisagem bucólica da fazenda, que reproduzo abaixo:

afresco em Torrinhas.JPG

Cena típica dos povos ribeirinhos, as lavadeiras do Velho Chico se tornaram folclore, cada vez mais raras na paisagem do rio. Essa cena foi capturada na cidade de Barra, Bahia, cidade de tradições aristocráticas e de casarões coloniais de grande importância para o acervo arquitetônico do rio São Francisco.

Barra - lavadeira no rio.JPG

Em Xique-Xique, na entrada do gigantesco lago de Sobradinho, cujo volume de águas é mais de 10 vezes o volume da baía da Guanabara, existe uma movimentada feira de produtos artesanais, produção da lavoura e muita cachaça, que abastece extenso território, levado pelas "gaiolas", de Januária, em Minas Gerais, a Juazeiro, que fica depois da barragem de Sobradinho.

A feira de Xique-Xique na Bahia.JPG

Tive o privilégio de conviver com os passageiros dessa gaiolas, indo até Pilão Arcado, já dentro do lago de Sobradinho, dormindo em redes sobre a carga, compartilhando o alimento com essa gente simples, conhecendo fatos curiosos de sua vida...

(Foto 141) A vida no barco em Xique-Xique.JPG

No próximo post apresentarei a última parte dessa série, com personagens do submédio e baixo São Francisco, desde Petrolina, PE e Juazeiro, BA até Piaçabuçu, AL na foz do rio São Francisco. São cenários que conservarei para sempre em minha memória, como lições de vida e de solidariedade do verdadeiro e legítimo povo que edificou nossa Nação.


João Carlos Figueiredo

Um escritor e uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: arte e foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte....
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