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O olhar perplexo de um Poeta diante da Vida

João Carlos Figueiredo

Um escritor e uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: arte e foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte...

Exploração de Cavernas

Pode parecer incrível, mas em pleno século XXI temos conhecimento de que exploramos menos da metade das cavernas supostamente existentes na Natureza. Provavelmente, jamais conheceremos muitas delas porque foram ou serão destruídas pela ação do homem: atividades de mineração, empreendimentos imobiliários, desabamento decorrente da “morte” da caverna, muitas vezes provocada pela extinção ou desvio de um rio que a esculpiu durante milênios. Muitas cavernas ainda são desconhecidas devido às dificuldades de acesso, como ocorre na região da Amazônia. Atualmente, temos no Brasil cerca de 5.800 cavernas catalogadas, sendo metade delas localizadas na região sudeste.


Apiaí 030.jpg As regiões norte, nordeste e centro-oeste possuem, cada uma, cerca de 1.000 cavernas identificadas, enquanto a região sul possui cerca de 350 cavernas.

Algumas cavernas já foram o único abrigo que um grupo humano conheceu em tempos imemoriais da nossa História. Outras já foram completamente descaracterizadas, transformadas em santuários, iluminadas artificialmente, pavimentadas por obras de engenharia em seu interior. Exemplos de cavernas que sofreram transformações para visitação pública são o Santuário de Bom Jesus da Lapa, na Bahia, e a Gruta de Maquiné na cidade de Cordisburgo, em Minas Gerais.

Algumas são o abrigo de animais, sendo várias as formas de uso dessas cavidades naturais: alguns as utilizam apenas para se esconder, se reproduzir e dormir, como os morcegos, saindo para o meio externo para caçar ou coletar alimentos. Mas existem animais que se adaptaram às condições severas de uma caverna, como a ausência total de luz e a escassez de alimentos. Esses são conhecidos como troglóbios, que sofreram mutações para suportar essas condições: geralmente são pequenos, cegos, albinos, e se movimentam muito pouco, para economizar energia. Sua população é contada em dezenas e compreende peixes (bagres cegos), aracnídeos (opiliões), crustáceos (escorpiões) e outros insetos, como grilos, besouros, baratas e anelídeos.

Não pretendo me aprofundar na análise do ambiente das cavernas, mas é importante destacar que existem três tipos característicos de rochas que dão origem às cavernas: carbonatos, arenitos e quartzitos, embora se encontrem cavernas de granito, cavernas causadas pela erupção de vulcões, cavernas temporárias de gelo e cavernas submarinas em formações de corais. Chapada Diamantina Torrinha 1287.jpg A exploração de cavernas exige conhecimentos, habilidades, técnicas e equipamentos adequados a lidar com suas condições extremas. O explorador de cavernas é conhecido como espeleólogo, seja ele um pesquisador, um aventureiro ou apenas um amante desses ambientes naturais. O estudo de cavernas é um universo multidisciplinar que compreende o trabalho de biólogos, geólogos, cartógrafos, químicos, arqueólogos, historiadores, geógrafos e hidrólogos.

Quem se aventura em uma caverna deve ter habilidades específicas, como o conhecimento de técnicas verticais, indispensável quando se exploram abismos e cavernas profundas, além do uso de roupas apropriadas às condições desse ambiente (umidade excessiva, grande variação de temperatura com o meio externo, rochas abrasivas, salões alagados, etc.), e de equipamentos técnicos (capacete, lanternas, carbureto, cordas técnicas, canivete, botas, mosquetões, etc.).

Nunca se deve entrar em uma caverna sozinho ou sem um guia experiente, pois o interior de uma caverna costuma ser um labirinto de salões interligados por pequenas passagens, difíceis de se memorizar. Avisar alguém que permanecerá do lado de fora, informando a estimativa de tempo que se pretende permanecer na caverna é também uma boa prática. Além disso, é fundamental que se conheçam as condições climáticas da época do ano em que se visita uma caverna, para evitar surpresas e tragédias provocadas pelo aumento repentino do volume de águas dos rios.

Dizemos que uma caverna está “viva” quando as causas que geraram sua formação continuam ativas, transformando-a e preservando-a: a existência de um rio subterrâneo, o gotejamento de calcário do teto (responsável pela “ornamentação” da caverna, conhecida como espeleotema), a proteção da mata em seu entorno, a ausência de atividade humana predatória, como a mineração.

Os espeleólogos são os responsáveis pelo estudo e mapeamento das cavernas, pela elaboração dos planos de manejo e pela catalogação das cavernas no CECAV (Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas) e na SBE (Sociedade Brasileira de Espeleologia). Geralmente, os espeleólogos atuam através de grupos de interesse, como o Grupo Pierre Martin de Espeleologia – GPME, a União Paulista de Espeleologia – UPE, o Grupo Bambuí de Pesquisas Espeleológicas, o Espeleo-Grupo de Brasília – EGB e a Sociedade Excursionista Espeleológica – SEE. Esses grupos realizam expedições técnicas e também com propósitos turísticos, gerando a produção científica relacionada com essas atividades, que são um misto de aventura e de investigação. A SBE realiza congressos anuais para divulgação desses trabalhos, assim como a REDESPELEO. [Diamantina] Gruta da Lapa Doce 0269.jpg Existem vários parques nacionais (PARNA), estaduais e áreas de proteção ambiental (APA) no Brasil, com formações cársticas (propícias à existência de cavernas), como o PETAR (Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira), Cavernas do Peruaçu, Chapada Diamantina e o Parque Estadual da Serra do Aracá. Assim como todas as atividades realizadas em parques de preservação ambiental, a exploração de cavernas exige a elaboração de planos de manejo, nos quais são analisadas as condições ambientais onde as cavernas estão localizadas (vias de acesso, restrições físicas nas entradas e no percurso, tipo de caverna, composição das rochas, declividade no interior da caverna, necessidade de uso de equipamentos técnicos, grau de dificuldade para locomoção pela caverna, riqueza espeleológica, fragilidade dos ornamentos, etc).

O plano de manejo deverá definir a capacidade de uso da caverna para fins turísticos, atribuindo restrições de acesso aos ambientes de maior vulnerabilidade e valor espeleológico, estabelecendo regras de funcionamento do parque e a necessidade de funcionários para controlar as atividades turísticas nas cavernas e no seu entorno, e definindo as intervenções necessárias na área de preservação para assegurar que o patrimônio espeleológico não seja danificado ou mesmo destruído, e também para que os visitantes se locomovam em segurança no parque.

Entrar em uma caverna pela primeira vez é uma experiência inesquecível! A grandiosidade e a beleza de seus salões, o silêncio e a escuridão eterna que reinam em seu interior, a sensação de estar a muitos metros de profundidade, abaixo de toneladas de rochas, dão ao homem sua verdadeira dimensão neste Universo. Ficar sentado por alguns instantes no meio de um salão, em silêncio e na escuridão, ouvindo o gotejar constante do calcário que dará origem às estalactites e estalagmites, é o caminho para se encontrar a paz que, na superfície, dificilmente alcançamos.

As 10 maiores cavernas do Brasil, em extensão são

(fonte: http://www.cavernas.org.br/cnc/Home/Index )

BA / Boa Vista 107.000 m

BA / Barriguda 33.000 m

BA / Padre 16.400 m

BA / Boqueirão 15.170 m

GO / Angélica 14.100 m

BA / Água Clara 13.880 m

GO / São Mateus III 10.828 m

GO / São Vicente I 10.130 m

GO / Tarimba 10.040 m

BA / Doce II 9.700 m

Existem operadoras de ecoturismo especializadas em exploração de cavernas. Quem pretende visitar alguns desses locais deverá certificar-se de que a operadora está qualificada para realizar essas atividades, respeitando as determinações do CECAV, e que seus equipamentos obedecem a normas internacionais de segurança e são vistoriados com a regularidade exigida. Um equipamento sem manutenção ou fora do prazo de validade poderá até causar sua morte.

Recomendo a leitura de livros especializados e a consulta às organizações normatizadoras de atividades em caverna (CECAV e SBE), além dos grupos de espeleologia, antes de se aventurar em uma expedição a um ambiente desconhecido. Essa recomendação vale para todos os esportes de aventura (“esportes radicais”). Realizadas por profissionais experientes, e obedecidas as normas de conduta e de segurança, essas atividades são emocionantes e enriquecedoras para todos os seus apreciadores. A seguir, alguns links relacionados com a Espeleologia no Brasil:

GPME: http://www.gpme.org.br/

Grupo Bambuí: http://www.bambui.org.br/default.asp

UPE: http://www.upecave.com.br/

CECAV: http://www.icmbio.gov.br/cecav/index.php?id_menu=228

Instituto do Carste: http://www.institutodocarste.org.br/

SBE: http://www.sbe.com.br/default.asp

REDESPELEO: http://www.redespeleo.org.br/


João Carlos Figueiredo

Um escritor e uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: arte e foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte....
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