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O olhar perplexo de um Poeta diante da Vida

João Carlos Figueiredo

Um escritor e uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: arte e foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte...

Modelo de Desenvolvimento e Sustentabilidade

O caminho para o Desenvolvimento efetivamente Sustentável é longo, difícil e oneroso, mas é a única solução para a sobrevivência da espécie humana neste planeta. E implica, fundamentalmente, em uma mudança ainda mais difícil e sutil: a da mentalidade de um povo que se acostumou com as armadilhas de um processo colonialista, escravagista, extrativista e estúpido. Sem mudar mentalidades, sem transformar políticas públicas norteadoras de um futuro desejável, jamais sobreviveremos ao século XXI.


Tripé da Sustentabilidade

Presenciamos um dos piores momentos de nossa História, graças à incompetência do PT e seus aliados na condução das Políticas Públicas e à avassaladora corrupção que, no entanto, não pode ser desvinculada dos demais partidos políticos. Desde a redemocratização do país, depois de 21 anos de ditadura militar, nenhum governo foi capaz de conduzir o Brasil para a prosperidade. Porém, outra questão fundamental está inserida neste contexto, que afeta os resultados medíocres de nossa Economia, independentemente de quem está no poder: o Modelo de Desenvolvimento adotado desde o Período Colonial.

Quando falamos em Sustentabilidade estamos nos referindo ao tripé estabelecido nas grandes conferências internacionais sobre Mudanças Climáticas, havidas no Brasil nos anos 1992 e 2012, no Rio de Janeiro. Esse modelo é suportado por três grandes vertentes determinantes das Políticas Públicas de qualquer país do mundo "civilizado", e compreende a Economia, o Meio Ambiente e a Sociedade.

Olhando para o Brasil percebemos que nossa Política Econômica foi construída em função da sua extensão territorial, desde que o Tratado de Tordesilhas foi abandonado e assumimos nossas dimensões atuais, de mais de oito milhões de quilômetros quadrados, dos quais cerca de 50% constituem o bioma Amazônico, a maior floresta tropical do planeta. Na época da chegada dos portugueses em terras ameríndias, a Mata Atlântica abrangia uma área equivalente a 1.315.460 km2 e estendia-se originalmente ao longo de 17 Estados. Hoje, restam 8,5 % de remanescentes florestais acima de 100 hectares do que existia originalmente. Somados todos os fragmentos de floresta nativa acima de 3 hectares, temos atualmente 12,5% (fonte: SOS Mata Atlântica).

Essa enorme área de terras férteis e de fácil acesso (quando falamos apenas da região litorânea), moldou as soluções colonialistas, destinando ao Brasil a missão de servir às potências marítimas de então, particularmente Portugal, mas também França e Holanda, que por mais de um século tentaram abocanhar e incorporar às suas colônias parte expressiva desse território, seja no Nordeste, seja no Sudeste. Daí seguiram-se os Ciclos da Cana de Açúcar, do Café, do Cacau, da Borracha, da Soja e do Gado, em diferentes períodos históricos, cada um com diferentes impactos socioambientais na formação da Nação brasileira. O Brasil se tornara o "Celeiro do Mundo", expressão cunhada no Estado Novo de Getúlio Vargas. Todas essas fases históricas privilegiaram o latifúndio, em detrimento do lavrador, do pequeno agricultor, o verdadeiro "Homem do Campo". As monoculturas ocuparam o país de norte a sul, devastando tudo o que encontraram pelo caminho.

Mas isso não foi tudo. A Mineração e a Extração de Madeira seguiram como subsidiárias desse modelo econômico, caracterizando, definitivamente, o Brasil como o "País das Commodities", e valorizando a ocupação territorial e a geração de riquezas em um modelo centralizador e elitista, traduzido pelas grandes fortunas e oligarquias políticas que dominam a Política e os conglomerados econômicos atuais. Essa opção extrativista se expandiu com a descoberta do Petróleo, também no período ditatorial de Vargas.

O que há de errado com essa opção pelo modo de produção agrícola e de extração mineral? Os erros começam com a necessidade de mão-de-obra, inicialmente de indígenas "pacificados" e aldeados, e depois trouxe ao Brasil Colonial milhões de escravos negros da África, substituídos após o "fim da escravidão" por imigrantes europeus e asiáticos que, em suas atividades, pouco se diferenciaram dos escravos, exceto pelo fato de que a discriminação e a exploração da mão de obra escrava foram mais curtas em duração temporal e menores em violência contra o ser humano.

Com a expansão das fronteiras agrícolas, e com a carência de alimentos no mundo industrializado, o Brasil cresceu desmatando e destruindo o Meio Ambiente, ao mesmo tempo em que enriquecia as elites, e sua população empobrecida crescia em ritmo acelerado. Essa população agrícola dispersou-se pelo interior do Brasil, chacinando os povos indígenas originários, com a conivência dos sucessivos governos colonialistas e republicanos, reduzindo essas populações, de milhões de seres humanos a milhares de oprimidos, condenados a viver nas periferias da sociedade capitalista que aqui se formava.

A expansão territorial das áreas cultiváveis, além de dizimar populações e devastar florestas, exigiu a construção de rodovias e ferrovias que, em seu curso, conduziram o país a estabelecer assentamentos rurais às suas margens, acelerando o processo de destruição da Natureza. Mas a produção agrícola não foi o único caminho trilhado pelas ações governamentais. A indústria cresceu na esteira dos produtos primários, exigindo cada vez mais energia elétrica para o funcionamento das fábricas. A única opção energética adotada foi a construção de grandes usinas hidrelétricas que, por sua vez, aumentaram os impactos ambientais, particularmente na Amazônia, cada vez mais ameaçada pela antropização.

Refazendo a pergunta: o que há de errado nessa opção por commodities? É fácil perceber seus efeitos perversos ao longo dos últimos séculos, observando o que aconteceu com os países altamente industrializados em comparação ao Brasil Colonial e Rural. Enquanto aqueles produziam complexas cadeias produtivas, exigindo crescente ocupação de mão de obra qualificada, a agricultura caminhou para o Agronegócio, que, apesar de trazer lucros crescentes para o país, concentrava essa riqueza nas mãos de poucos, utilizando escassa mão de obra, substituída pela mecanização agrícola. Enquanto os países industrializados utilizavam matérias primas oriundas dos países extrativistas, e sua cadeia produtiva se baseava no conceito marxista da "mais valia", o Brasil e outros países "colonizados" pelos europeus e explorados pelos processos extrativistas, seguia apenas como provedor de insumos no mundo das multinacionais. As nações industrializadas geravam produtos de alto valor agregado, enquanto o Brasil se contentava com a produção de grãos e minérios, de baixíssimo valor comercial se comparado aos eletroeletrônicos. Hoje, na composição do PIB brasileiro, o agronegócio representa cerca de 23%, enquanto a indústria detém cerca de 9% do PIB em 2015, com tendências de redução.

Hoje, quando se debate as opções mundiais pelo uso intensivo de recursos naturais, e se constata a exaustão do planeta face ao consumismo excessivo, questiona-se, justamente, o modo pelo qual esses recursos foram extraídos, à custa do empobrecimento acelerado das áreas mais nobres da Terra, esgotando rapidamente as fontes naturais de água potável, empobrecendo a biodiversidade e ameaçando, de forma preocupante, a capacidade de sobrevivência da Humanidade diante das perspectivas assustadoras de extinção da espécie humana. Embora esse seja o cenário mundial, o Brasil se destaca pelas perdas da biodiversidade, causada, principalmente, pela opção perversa de seu modelo econômico extrativista.

Enquanto países industrializados cresceram a taxas de dois dígitos durante as décadas de implantação de sua infraestrutura de fábricas e de sistemas de escoamento da produção, o Brasil nunca se aproximou desses índices, criando uma dependência perversa perante esses países líderes do desenvolvimento mundial. Resta-nos um processo devastador, atrelado às oligarquias dominantes, que não apenas alicerçaram nossa evolução temporal, como também criaram as condições para que a corrupção e a exploração de mão de obra dominassem nossa sociedade e nos levassem à situação caótica atual.

A despeito do desfecho possível dessa crise política, econômica e social, nosso futuro é nebuloso e incerto, pois mudá-lo significaria desmontar as estruturas criadas e redirecionar recursos para um modelo efetivamente sustentável. Mas importaria, principalmente, em mudar a mentalidade cretina do Agronegócio como única saída possível para o Brasil. O Agronegócio é a nossa tragédia histórica e não a nossa salvação. A Amazônia é a riqueza que deveria ser conservada, e não destruída para dar lugar à agricultura e à pecuária. A posse de enormes reservas de água potável é o passaporte para o futuro em um mundo densamente povoado. O petróleo deveria ser tratado como uma fonte suja e finita de energia. A construção de grandes usinas hidrelétricas da Amazônia significam um erro estratégico e uma solução equivocada. A extração de madeira deveria ser tratada como crime ambiental hediondo. A mineração deveria ser restrita às necessidades de consumo interno e não como fonte de receita de nosso comércio internacional subalterno aos interesses internacionais. O esgotamento das fontes hídricas deveria ser tratado como crime hediondo, seja quando latifundiários extinguem nascentes ou eliminam a mata de galeria dos cursos d'água, seja quando as reservas de água potável são contaminadas por esgotos domésticos, por resíduos químicos dos agrotóxicos ou por resíduos industriais de fábricas mal planejadas. Desmatamento e crescimento populacional ZERO deveriam ser as metas prioritárias, não apenas do Brasil, mas do resto do mundo.

Enfim, o caminho para o Desenvolvimento efetivamente Sustentável é longo, difícil e oneroso, mas é a única solução para a sobrevivência da espécie humana neste planeta. E implica, fundamentalmente, em uma mudança ainda mais difícil e sutil: a da mentalidade de um povo que se acostumou com as armadilhas de um processo colonialista, escravagista, extrativista e estúpido. Sem mudar mentalidades, sem transformar políticas públicas norteadoras de um futuro desejável, jamais sobreviveremos ao século XXI.


João Carlos Figueiredo

Um escritor e uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: arte e foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte....
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