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O olhar perplexo de um Poeta diante da Vida

João Carlos Figueiredo

Um escritor e uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: arte e foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte...

O RITO E A REALIDADE

Há um ano vivemos uma tragicomédia bufa que nos paralisa e nos dá a impressão (falsa) de que vivemos em uma Democracia, onde todas as instituições "funcionam perfeitamente". Mas a verdade é que a Nação se arrasta em um drama de instabilidade sem precedentes. O que deu errado no Brasil da Fantasia?


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Quando as aparências importam mais do que a solução dos problemas, algo está errado. Quando o que ocorre nos bastidores nada tem a ver com a cena que se desenrola no palco, teremos, então, uma farsa. Quando os atores pronunciam suas falas de modo a torná-las incompreensíveis à plateia, que se mantém calada e estupefata, temos um golpe! Lembremo-nos de que, na encenação que se processa na imortal tragédia "HAMLET", de Shakespeare, o objetivo não era relatar a verdade ao povo, mas denunciar um assassinato aos próprios criminosos...

Em 2002, quando elegemos LULA presidente, o PT já tinha montado seus cenários e os crimes já aconteciam por detrás das cortinas do palco, sob os olhares estupefatos, mas crédulos, do povo brasileiro. Não foram eles que começaram: a farsa já se desenrolava há séculos, desde a invasão portuguesa às terras de Pindorama. Mas só então as feições do crime se tornaram sombrias e ameaçadoras. Com o Mensalão, o país mergulhou na escuridão... e escolheram apenas um bode expiatório para pagar pelos mandantes: o publicitário Marcos Valério aceitou a "nobre missão" de se responsabilizar pela complexa trama que se desenrolava sob nossos olhos, sem ser percebida. Foi condenado a 40 anos de prisão, mas permaneceu calado.

Nos 12 anos que se seguiram, ainda que os fatos viessem à tona e se mostrassem públicos, o maior assalto de que se tem notícia no cenário político permaneceu impune, assombrando a Nação espoliada. Bilhões de reais sangravam os cofres públicos às vistas de milhares de bandidos assentados em cargos federais, sob a orquestração de uma plêiade de partidos políticos imorais. A representação prosseguiu mesmo depois da condenação de dezenas de políticos, empresários e instituições públicas no Mensalão.

Mas esse não era o enredo principal. Era apenas um desdobramento "infantil", se assim podemos dizer, da verdadeira tragédia nacional. Também não foi o Petrolão, pois o assalto era muito mais amplo, abrangente e sórdido. Praticamente toda classe política estava envolvida nos crimes que se processavam nos mais elevados escalões do poder nacional. Finalmente, com a reeleição de Dilma Rousseff, até pela estupidez dessa prosaica figura política, a verdadeira farsa começou a se mostrar ao nosso povo perplexo, pela ação da Polícia Federal, apoiada e orientada pelo Ministério Público e embasada pela Justiça Federal.

Finalmente, as peças enfileiradas do dominó começavam a desabar, uma após a outra, desvendando a parte visível do iceberg de corrupção que enlameara o país. Estava sendo montado o quebra-cabeças, afinal. Porém, outras armadilhas estavam preparadas, desta vez sob o negro manto dos ministros do Supremo Tribunal Federal, travestidos na "legalidade burocrática" de seus atos soberanos: o RITO PROCESSUAL! Não pensem vocês que será tão fácil punir os criminosos, a despeito das inúmeras prisões e condenações de notórios bandidos da política e das empreiteiras que se enriqueceram com o assalto aos bens públicos!

Há um ano somos conduzidos por um labirinto de artifícios jurídicos que visam, não assegurar o "legítimo direito de ampla defesa" dos criminosos, mas apenas lançar uma densa cortina de fumaça através da qual pretendem fugir os criminosos. Por enquanto, Lula e seus comparsas têm se preservado quase ilesos, fugindo da prisão e escondendo-se atrás da falsa imagem populista construída durante seus oito anos de poder. Por enquanto, Dilma é apenas a gerentona incompetente, que nos levou à pior crise política e econômica de nossa história de bandidagem explícita. Por enquanto, somos apenas coadjuvantes.

Parece que o Rito é mais importante do que o destino da população, aterrorizada pelo desemprego e pelas ações titubeantes de um governo provisório, inseguro e desprovido de credibilidade, por ter sido eleito nas mesmas eleições que escolheram o PT. Por enquanto, os políticos, mesmo diante da tragédia nacional, se mantêm coesos às suas práticas centenárias de primeiro cuidar de seus interesses pessoais, enquanto a Nação sucumbe aos desmandos e à caótica situação institucional. Todos percebem o óbvio, mas ele não permite que ações efetivas salvem o Brasil. É preciso cumprir o Rito, por mais absurdo que pareça.

Mesmo personagens grotescas e secundárias, como Eduardo Cunha, se aproveitam dessa bagunça institucional para conquistar seu "momento de glória": um borra-botas conduziu, "com maestria", cerca de 500 parlamentares, driblando sua inevitável cassação, e o crime que lhe era imputado sequer chegava aos pés das verdadeiras motivações inenarráveis que o tornaram presidente da Câmara Federal. Um indivíduo desprezível manteve, por um ano, sob rédeas curtas, atrelado a si, todos os deputados federais do Brasil!

O Rito Processual de Dilma e do PT é lento, enfadonho e revoltante, pois todos sabemos o resultado final; mas, por determinação da Suprema Corte, cada passo terá que ser seguido, ainda que o preço a ser pago seja insuportável para o povo ignorante, que é o verdadeiro responsável pela existência dessa máfia de corruptos, ladrões, assassinos e membros da mesma quadrilha que nos mantém escravizados a seus interesses mesquinhos. Nada podemos fazer, pois demos, a nossos "representantes", plenos poderes.

Entre o Rito e a Realidade encontra-se o abismo que nos separa da solução da crise. Certamente, não teremos poder para saltar esse abismo, pois seriam necessárias décadas de boa e honesta gestão para que um novo país surgisse dessa tragédia que jamais terá fim... Seria preciso educar, de novo e adequadamente, esse povo, para podermos ter uma oportunidade de sobreviver. Mas quem educará o povo?


João Carlos Figueiredo

Um escritor e uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: arte e foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte....
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