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O olhar perplexo de um Poeta diante da Vida

João Carlos Figueiredo

Um escritor e uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: arte e foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte...

Indigenismo e Nacionalidade

Quem assistiu à abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro deve ter se encantado com a beleza e plasticidade dos efeitos especiais da formação do Povo Brasileiro, embora em pinceladas malfeitas e em equívocos inexplicáveis. A ocupação do território brasileiro não se deu de maneira tão pacífica e suas consequências sequer foram citadas naquela visão onírica dos idealizadores do evento. O fato é que o processo civilizatório tem sido violento, cruel e injusto para os povos nativos em qualquer região do mundo.


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À parte os interesses publicitários de um evento esportivo, a imagem que vendemos ao mundo foi de um país que respeita a biodiversidade e as populações originárias que ainda habitam nosso território. As imagens mostram, por exemplo, uma transformação natural das florestas para campos cultivados, em um mosaico colorido e fantástico, que a realidade não conhece. Porém, em uma observação mais criteriosa mostraria uma verdade inconveniente aos olhos do mundo...

Temos mais de 250 etnias nas terras brasileiras, falando quase 200 idiomas e dialetos originários de quatro troncos linguísticos (além do "Português do Brasil"). Cerca de 900.000 seres humanos habitam terras que eram deles quando o Brasil foi invadido pelas tropas portuguesas, e a população indígena no continente americano era de quase 70 milhões de habitantes. Só no Brasil, calcula-se em dez milhões de seres humanos, dos quais mais de 90% foram dizimados pelos invasores, da forma mais cruel e desumana. Diziam os jesuítas que "o índio não tem alma; são apenas animais em estágio primitivo de evolução"!

Foram quatrocentos anos de dominação antes que uma instituição fosse criada para estudar e proteger os povos indígenas remanescentes. O Serviço de Proteção ao Índio foi criado com o objetivo real de viabilizar a ocupação do interior do Brasil e instalar linhas de comunicação, via telégrafo e, posteriormente, estradas, para permitir que o governo expandisse suas fronteiras até os limites das terras conquistadas. Não era, portanto, um conceito altruísta de preservação de culturas, mas de busca de mão de obra barata, quase escrava, para as ambições dos governantes, ávidos de levar o "desenvolvimento" para dentro da Amazônia.

Essa ocupação desleal ocorreu por cem anos, alternando militares e políticos no comando da instituição "indigenista", sempre com o propósito de evitar conflitos e preservar os interesses da república em formação e crescimento. O "Indigenismo" de então seguia os princípios da Antropologia Eurocêntrica, que considerava "evoluídos" os povos "brancos" que saíam da Europa desde o século XVI para "colonizar" o mundo novo que se descortinava no continente da América.

O conceito de "Indigenismo" evoluiu em função dos contatos diretos com as populações indígenas. Inicialmente, esses antropólogos precursores observavam aqueles seres humanos com a curiosidade de um pesquisador, olhando seus espécimes através da lente de um microscópio, sem interagir com eles de forma direta e efetiva. Durante décadas foi assim que os "índios" foram vistos: como objetos da curiosidade arrogante da cultura ocidental europeia. Eram meras cobaias.

Na direção do SPI estavam o Marechal Rondon, outros militares intervencionistas e um etnólogo insaciável, Darci Ribeiro, que veio a participar ativamente do processo de aldeamento iniciado pelos jesuítas, salesianos e claretianos, cujo único interesse era expandir o poder da Igreja Católica para dentro das comunidades indígenas, extremamente vulneráveis aos argumentos da fé cristã. Darci Ribeiro observava e escrevia como um cientista, mas agia como um político.

O Indigenismo evoluiu às custas da ocupação dos territórios indígenas remanescentes da invasão portuguesa, sem, contudo, cumprir sua missão de proteger a identidade dos povos indígenas, cujos costumes e tradições eram cada vez mais subvertidos por conceitos da civilização ocidental, à qual não pertenciam. Suas lendas eram substituídas pelas crenças das religiões. Seu modo de vida e de produção assimilava práticas capitalistas, fazendo desaparecer a figura e a importância dos tuchauas, pajés e caciques, líderes naturais desses povos.

Mesmo absorvendo parte expressiva do conhecimento tradicional indígena, as populações invasoras não os reconhecia como povos autônomos e autossuficientes. Novos meios de produção foram introduzidos, seu modo de vida foi contaminado pelos hábitos ocidentais, e suas línguas foram corrompidas por dialetos construídos pelos jesuítas, como o "Nheengatú", espécie de "esperanto" indígena, montado pela seleção de palavras das línguas Tupi e Guarani.

A presença de evangélicos, católicos e protestantes, foram uma constante dos quinhentos anos de dominação. Mesmo dominados, esses povos nunca tiveram efetivo domínio de seus territórios, constantemente invadidos e explorados por madeireiros, mineradores, fazendeiros, grileiros de terras e do próprio governo brasileiro através de obras faraônicas construídas no entorno dessas terras, assim como os assentamentos do INCRA, sempre estabelecidos nas imediações de estradas que cortaram a Amazônia desde o início dos governos ditatoriais militares. Uma imensa rede de exploradores inescrupulosos nunca deixou de atormentar as populações indígenas, corrompendo-as pelos vícios das bebidas e das drogas, pela religião, pelos costumes nefastos, pelas novas tecnologias.

O Indigenismo, como práxis da Antropologia e da Etnologia, não foi capaz de proteger esses povos. Pelo contrário, acabou por "legalizar" as piores práticas desses exploradores inescrupulosos protegidos pelas "leis dos brancos". O Brasil possui extensa legislação indigenista, desde artigos da própria Constituição Federal, a decretos e portarias, e adesão a acordos internacionais, todos eles visando a integridade desses povos. Nenhum deles, porém, tem sido respeitado, e a situação dos indígenas é cada vez mais precária e ameaçadora, tanto do ponto de vista humano como antropológico, ou seja, pelo reconhecimento e proteção de sua identidade étnica, autônoma e indissolúvel.

A Instituição Federal que sucedeu ao SPI foi a FUNAI, Fundação Nacional do Índio, subordinada antes ao Ministério da Agricultura, e posteriormente ao Ministério da Justiça. Por esse órgão público passaram políticos sem formação indigenista, militares interessados nas questões logísticas territoriais, e pouquíssimos indigenistas verdadeiros, geralmente comprometidos com partidos políticos. Hoje, o Movimento Indígena, formado por associações indígenas, tem reivindicado cargos na administração federal, principalmente as coordenações regionais e a própria presidência da instituição.

O Indigenismo passa pela sua pior fase, sem o reconhecimento efetivo de suas atribuições como Ciência e sem participação efetiva nas decisões do órgão indigenista. O processo de modernização e reestruturação da FUNAI foi falho e incompleto, fragilizando suas relações com a comunidade indígena e expondo as feridas dessa sociedade, maculada por quinhentos anos de terror e exploração desumana. Os antigos sertanistas, desde os irmãos Vilas Boas a Apoena Meireles, aos poucos envelheceram, se aposentaram e morreram sem serem substituídos em tempo de salvar a instituição e formar novos indigenistas.

Hoje, a instituição sofre os efeitos de sua perda de identidade, do enfraquecimento de suas atribuições e da perseguição implacável de políticos inescrupulosos, latifundiários, madeireiras, mineradoras, posseiros assassinos, e grandes empreendimentos construídos nas imediações de povos não "civilizados" e vulneráveis aos efeitos dessa ocupação desigual e desumana. Sem esse apoio indispensável, os povos indígenas estão cada vez mais marginalizados em nossa sociedade, não sendo reconhecidos, na prática, como parte integrante e indispensável da nacionalidade brasileira, mas sendo exigidos como intrusos e contrários ao pleno desenvolvimento da Nação Brasileira...


João Carlos Figueiredo

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