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O olhar perplexo de um Poeta diante da Vida

João Carlos Figueiredo

Um escritor e uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: arte e foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte...

O Mundo que eu vi

Minha trajetória de vida nesses 66 anos de História que tive a oportunidade de conhecer, conviver, interagir e influenciar. Período sem Grandes Guerras Mundiais mas com miríades de conflitos regionais, mudanças de costumes, transformações tecnológicas gigantescas e novas formas de pensamento, de organização social e de poder.


Dracena 1950.jpg

Nasci em 1950, numa pequena cidade do interior paulista, mas nada conheço dessa Lençóis Paulista, onde permaneci por poucos meses. Passei boa parte de minha infância em Dracena, cidade com tradições trazidas da imigração japonesa que, naquela época, trabalhava na agricultura do algodão e do amendoim, e onde também viviam pouco mais de 10.000 habitantes. A vida era simples, desprovida do luxo das grandes cidades, pois Dracena não tinha sequer energia elétrica, água encanada, rede de esgoto ou qualquer outra benfeitoria hoje essencial para a vida em sociedade. Apesar disso, éramos felizes e tínhamos amigos de verdade, como agora não mais acontece em nossa agitada vida, conectada por celulares "indispensáveis".

O Brasil era um país essencialmente agrícola, com mais de 60% de sua população vivendo no campo e dele tirando seu sustento; agricultura familiar, pois ainda não se conheciam os grandes latifúndios predatórios. Toda propriedade agrícola tinha a casa da família do fazendeiro e as casas dos seus colonos, geralmente ex-escravos que continuaram trabalhando para seus patrões depois da abolição. As culturas eram diversificadas, sempre havendo algumas cabeças de gado, o pomar, a horta e a lavoura propriamente dita, igualmente variada. Não se praticava a monocultura, que só veio a surgir depois dos anos 1970, paralelamente ao advento das multinacionais, em decorrência da maior concentração de riquezas nas mãos de poucos como nunca antes na história da humanidade. O conforto se resumia a ter sempre fartura de comida na mesa e harmonia na família. Sem energia elétrica, era usual o fogão a lenha, a moenda de cana e a torrefação de café, as cisternas nas casas e as reuniões domésticas entre famílias de companheiros de trabalho e vizinhos.

O mundo ainda se recuperava da tragédia da Segunda Guerra, curando suas feridas e restaurando as relações internacionais, já com a separação nítida entre o Capitalismo ocidental, capitaneado pelos Estados Unidos, e o Socialismo da União Soviética e seus "satélites", como a China, a Iugoslávia e a Checoslováquia. As divergências ideológicas entre as duas maiores nações do mundo estimularam a corrida espacial, o desenvolvimento nuclear para fins militares e a disputa pelo domínio de países pela ideologia, o que veio a se chamar de "Guerra Fria", cuja ação se denominava "Teoria do Dominó", através da qual se aliciavam os parceiros dessa disputa para aumentar a zona de influência de cada parte no conflito não declarado. Nações ""não alinhadas" com uma ou outra dessas correntes ideológicas eram pressionadas a se posicionar na corrida armamentista que dominava o cenário mundial dos anos 1950 e 1960.

Minha infância se desenrolava com "folguedos" infantis: empinar pipas, jogar pião, brincar de pique, andar de bicicleta, jogar bolinha de gude, colecionar tampinhas, atirar em passarinhos com estilingues feitos de forquilhas, e com a ajuda dos pais. Curiosamente, não havia maldade nessas brincadeiras, nem noções de preservação ambiental ou coisa que o valha. Assim como era normal matar passarinhos, era natural o "bulying" (palavra que não existia) entre as crianças, espécie de iniciação ao mundo dos adultos. Cada qual tinha que resolver os seus conflitos à sua maneira, sem interferência dos pais.

O Brasil era um país essencialmente católico. As poucas igrejas protestantes eram irrelevantes para a formação espiritual da sociedade. A missa aos domingos era uma tradição e uma obrigação social a que todos éramos induzidos a participar, com seus rituais em latim e suas vestimentas medievais. Ser ateu era uma heresia intolerável, assim como não ser batizado, não fazer a Primeira Comunhão, não se casar na Igreja e não pagar o dízimo. Religião era ensinada nas paróquias e nas escolas. Rezava-se às refeições, nas missas e antes de dormir. As festas religiosas eram mais importantes que os feriados nacionais.

Meus avós maternos moravam conosco. Meu avô tinha sido um grande fazendeiro, prefeito de Pedregulho e filho de um senhor de escravos, assim como grande parte de nossos parentes, tendo até um tal de Coronel Galdino, dono de muitas terras e influente personalidade na cidade em que vivia. Essa herança aristocrática influenciou nossa formação familiar, mas não a nossa personalidade, pois jamais nos identificamos com as atitudes prepotentes e arrogantes de nossos antepassados. Isso também porque, quando os conhecemos, sua riqueza havia desaparecido, desperdiçada em festanças e campanhas eleitorais.

Fomos embora de Dracena quando o trem chegava para se instalar naquela região, juntamente com outras benfeitorias naturais do progresso: água encanada, energia elétrica, rádio e asfalto... Mudamos para Batatais, onde nem deixamos nossos rastros, ficando lá apenas seis meses, seguindo depois para Ribeirão Preto, onde passei quase toda minha juventude. Para nós, caipiras do interior, Ribeirão Preto era uma cidade muito grande! Lá completei o Ensino Primário (primeiro grau menor, ou os quatro primeiros anos do ensino fundamental de hoje) e fiz o Ginásio (os quatro últimos anos do ensino fundamental) e o Colégio (ensino médio), que era desmembrado em Clássico (Humanas), Científico (Exatas e Biológicas) e Escola Normal (Magistério ou formação de professores primários).

Nesse longo período de cerca de dez anos tomei contato com a política e a ideologia marxista, minha formação essencial e humanística, embora minha educação fosse direcionada para as Ciências Exatas. Nesse período, o mundo conheceu a Guerra do Vietnam, com toda crueldade e irracionalidade da Guerra Fria. Norte-americanos combatiam em um país que nada tinha a ver com seu mundo, apenas para impedir que o socialismo se expandisse pelas terras da antiga Indochina, no extremo oriente. Essa guerra custou centenas de milhares de mortes de inocentes, com o uso de armas químicas e biológicas, chacinas de aldeias, guerra de drogas entorpecentes e uma revolta de estudantes que mudaria o mundo contemporâneo.

Foi na França que os conflitos começaram, com a liderança de Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir, pregando o Existencialismo e o Pacifismo. Mas, nos Estados Unidos. o conflito era, essencialmente, contra a guerra. Muitos queimavam seu certificado de alistamento militar e se recusavam a lutar "pela sua Pátria" em terras estranhas! Muitos dos que lutaram morreram nos campos de guerra, enquanto os que voltaram se tornaram viciados em drogas e, alguns, em franco-atiradores, provocando os primeiros atos de terror dentro do território norte-americano. O Vietnam foi o "laboratório de guerra" dos EUA. Lá se desenvolveram armamentos terríveis, como bombas de Napalm (que provocavam incêndio com materiais plásticos que se grudavam na pele das pessoas), bombas de gases tóxicos, aviões "invisíveis" aos radares e tanques de guerra à prova de qualquer terreno. Nesse conflito, os Vietcongs lutavam fazendo armadilhas primitivas com lanças, praticando ataques suicidas e cavando túneis imensos em todo seu território. Os Estados Unidos saíram vergonhosamente do Vietnam, e viabilizaram as bases do terrorismo moderno.

Foi também nesse período que toda América Latina conheceu as ditaduras militares mais cruéis, graças ao apoio dos norte-americanos aos golpes contra a Democracia praticados no continente. No Brasil, a ditadura durou 21 anos e sufocou toda uma geração, dizimando suas lideranças e plantando o fiasco econômico dos anos 1980 (a "Década Perdida") e implantando a corrupção vergonhosa de nossos dias. Mas foi na Argentina, Chile e Uruguai que as ditaduras foram mais cruéis e desumanas, deixando milhares de cadáveres na memória desses povos. O ditador chileno Pinochet marcou a transição do governo socialista de Salvador Allende para a pior ditadura de que se tem notícia em todo o continente americano. Todas as ditaduras e golpes militares tiveram as mãos sujas de sangue dos serviços de espionagem dos EUA.

Mas uma revolução socialista conseguiu sobreviver a todo poderio dos Estados Unidos, criando o modelo das revoluções socialistas do Ocidente: a Revolução Cubana de Fidel Castro, que derrubou o governo corrupto de Fulgêncio Batista e construiu um país igualitário e comunista. Essa revolução, no entanto, não foi pacífica, e todos os oponentes ao regime foram executados sumariamente, fuzilados no "Paredón", manchando uma promessa que encantou o mundo através da figura romântica de Ernesto "Che" Guevara. O mundo estava em chamas nessa disputa entre capitalistas e comunistas, que durou cerca de 30 anos: de 1948 (Guerras da Coreia e do Vietnam, ainda colônia francesa) a 1989, com a queda do Muro de Berlim.

No Brasil, os generais promoveram a mais terrível "limpeza" ideológica de que se tem notícia, torturando e assassinando estudantes e operários, até mesmo sem razões relevantes. Não havia julgamentos e as prisões arbitrárias se davam dentro das universidades públicas, nas ruas, nos teatros e até nas casas, à noite e de dia, sem mandado judicial. As pessoas desapareciam para sempre nos porões da ditadura, ou simplesmente reapareciam mutiladas e emudecidas, caladas para sempre. Coronéis e generais comandavam a chacina, amparados por poderes ilimitados do terror militar.

Graças a esse regime de barbárie, eu nunca terminei uma faculdade, embora tenha frequentado vários cursos superiores: Escola Politécnica da USP, Estudos Orientas da USP, Administração de Empresas, História, Gestão em Logística, Ciências Sociais, Ecologia... até perdi a conta dos cursos que fiz... a insegurança de estar do lado oposto ao terror e ver meus companheiros serem sequestrados, torturados e mortos me levou a desistir de cada nova tentativa que fazia. No entanto, foi justamente essa diversidade de estudos incompletos que formaram o meu caráter, minha ideologia e minha cultura. Percebi o mundo sob várias óticas, sob diferentes visões do conhecimento humano, o que moldou também a minha carreira profissional.

De Ribeirão Preto, onde fui preso pela primeira vez, ainda estudante secundarista, minha família se mudou para São Paulo, onde participei ativamente das lutas políticas contra o regime militar, onde cursei essa diversidade de escolas superiores e onde permaneci por 18 anos do início de minha carreira profissional. Curiosamente, meu caminho não foi nas Ciências Humanas, como era de se esperar, mas nas Ciências Exatas, na incipiente área da Computação Eletrônica, como era conhecida, então, a Informática. Trabalhei como Operador de Computadores, Programador e Analista de Sistemas até 1996. Foi nesse período que me casei com minha primeira namorada, com que vivo até hoje, apesar dos percalços de todo casamento.

Em 1996, um convite profissional me levou para Recife, como Diretor de Informática. Foi também o início de uma curta experiência política como Presidente de uma Sociedade de Usuários de Informática e Telecomunicações, através da qual conheci grandes personalidades políticas brasileiras, como Roberto Freire, Roberto Magalhães, Marco Maciel, Jarbas Vasconcelos, Miguel Arraes, Dom Hélder Câmara, Dom Evaristo Arns, Luíza Erundina, Arlindo Chinaglia, Antônio Palocci... Vi o PT nascer e se transformar no principal partido político das esquerdas e dos intelectuais brasileiros, uma promessa de revolução ideológica, pacífica e ética do Brasil, em contraposição à ditadura militar e ao capitalismo selvagem.

Infelizmente, todos sabemos o fim dessa história... mas nesse período conturbado o mundo também se transformou... primeiro, pelo fim do comunismo tal qual foi concebido por Marx; depois, pela revolução tecnológica, que introduziu a computação em todo tipo de equipamento eletrônico que existia; e finalmente, pelo processo de globalização da Economia, que trouxe consigo a mais terrível concentração de renda do planeta, criando guetos de terror e de miséria absoluta, e causando as maiores catástrofes ambientais de que se tem conhecimento na História da Humanidade. Esse é o momento atual, que todos conhecemos e cujas consequências tememos por não saber até onde nos levará.

Mas nada direi dessa contemporaneidade, que já foi tema de outros artigos meus; porém, vale a pena citar a tragédia atual dos imigrantes, vítimas do terrorismo internacional, retratos fiéis de nosso tempo, e fruto do desenvolvimento desses cinquenta anos anteriores que eu vivi... Vale, também, lembrar que as ditaduras passadas fomentaram o comportamento desesperado dos oprimidos, primeiro como hippies e drogados alienados, depois como terroristas cruéis e desumanos, que matam pobres inocentes para punir os verdadeiros culpados. Essa história ainda está sendo construída, e interpretá-la agora seria uma temeridade, pois não temos o necessário distanciamento histórico para julgar adequadamente o momento contemporâneo. Que meu julgamento esteja equivocado, e que a Humanidade ainda tenha tempo de se redimir de seus "pecados"...


João Carlos Figueiredo

Um escritor e uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: arte e foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte....
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