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O olhar perplexo de um Poeta diante da Vida

João Carlos Figueiredo

Um escritor e uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: arte e foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte...

Analisando as relações familiares

O caminho da felicidade está na harmonia familiar e na compreensão e superação das diferenças. Não é possível encontrar o casal perfeito, mas sempre se pode compreender o outro, colocar-se em seu lugar e admitir que somos todos seres imperfeitos e incapazes de acertar sempre em todas as nossas escolhas. Muitos se perguntarão: "E por que a flor de maracujá?"... ela representa a sensualidade, as paixões e atrações sexuais, mas também a beleza e a harmonia!


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Há algo de errado em nossas vidas quando nosso corpo somatiza reações de autodefesa para ocultar o fato de que somos impotentes para enfrentar a realidade. Exemplo disso são mulheres que aceitam a violência doméstica apenas para sobreviver ao fato de que não podem enfrentar a força física de seus maridos. Normalmente, essas mulheres chegam até a agredir seus próprios filhos, reproduzindo a prepotência que as humilha e as torna subservientes a um troglodita e à monocultura intelectual da pessoa com quem vivem.

Se nossos corpos apresentam dores inexplicáveis até pela medicina, é porque está nos alertando para algum distúrbio familiar ou no trabalho. Não somos mais capazes de lidar com esta situação, mas, inconscientemente, não admitimos nos acomodar à realidade. Agredir os filhos, alienar-se do mundo através de jogos de computador ou uso frenético de redes sociais, tornando-nos dependentes do celular, como se fosse imperativo responder imediatamente a cada mensagem recebida é uma evidência de que estamos encurralados em nossa própria vida.

O que fazer nessa situação? Muitas vezes, não é possível reagir contra essa realidade, seja afastando-se da fonte geradora de problemas, seja denunciando a violência que tomou conta do próprio lar. Existe o medo, neste caso, de que a violência se torne ainda maior e cause reações definitivas, ameaçando a própria existência dos membros da família. Embora compreensível, essa reação não resolve o problema. Apenas o agrava, corroborando o status quo.

Enfrentar a situação significa romper com a realidade, buscando uma nova maneira de viver. Isso dói porque quebra paradigmas e nos afasta da zona de conforto. Falso conforto, diga-se de passagem, pois é essa mesma sensação de conforto que nos aprisiona à realidade. Fato é que apegar-se a uma situação em que o indivíduo se anula apenas para preservar um relacionamento perverso, daninho e aniquilador da própria personalidade é fechar os olhos para o mundo ao seu redor.

Muitas vezes, esse relacionamento perverso esconde violências que os olhos veem, mas que a mente as oculta para não provocar a ruptura que salvará sua vida e de seus entes queridos. Por exemplo, o pai que faz ameaças veladas ao filho diante da própria mãe, e com o seu consentimento. Essas ameaças podem não ser óbvias. A presença de um adulto diante do filho já pode ser suficiente para ser considerada uma ameaça, se a criança enxerga no pai um elemento ameaçador, seja pelo seu tamanho e força, seja pelas palavras que profere, criando uma situação de impasse ao filho, que não sabe reagir à ameaça.

Ilustrando: uma criança ainda muito pequena, que acaba de aprender a falar, está irritada com alguma coisa que a incomoda, mas não sabe expressá-la em palavras e, por isso, faz birra, repete frases desconexas ou apenas diz “não” irrefletidamente, tentando demonstrar seu desconforto. O pai se aproxima da criança de pé, mostrando a diferença de tamanho, de força e de poder que existe entre ele e o filho, e pronuncia frases provocantes que estimulam a criança a reagir com sua “birra”, ao invés de tentar afastá-la da situação incômoda e do círculo vicioso “birra e admoestação”.

Essa é uma situação perigosa porque, ao mesmo tempo em que não soluciona o problema e não elimina a birra, ainda reafirma o poder avassalador do pai diante da impotência do filho. Geralmente, a mãe põe fim a essa situação, socorrendo a criança e acabando com a birra, mas não com o problema. Ela apenas insinuou à criança que, diante da ameaça do pai, existe uma mãe condescendente que a retira desse impasse. E também insinuou ao pai inconsequente que ela estará pronta a quebrar sua autoridade sempre que ele ameaçar seu filho. E está estabelecido o círculo vicioso do poder.

A conduta racional seria parar de estimular negativamente a criança, distraindo-a e levando-a a se esquecer das ameaças. Em seguida, contornar a situação, estimulando-a a reagir de forma positiva e conciliadora, abrindo caminho para que a criança aprenda a se expressar adequadamente diante daquele tipo de problema e de situação. Esse é um comportamento inteligente, positivo e saudável, mas depende do entendimento entre os pais de que nenhum irá submeter a criança à sua autoridade, mesmo quando diante de uma situação irracional e irritante.

A responsabilidade pela educação dos filhos não é exclusividade da mãe, e isso precisa ficar bem claro a ambos, pai e mãe, e também aos filhos, que devem enxergar em ambos essa disponibilidade ao diálogo franco e gentil. Quando a diferença intelectual entre os pais é muito grande, a tendência é que o menos qualificado culturalmente submeta seus filhos ao poder da autoridade, sempre que se veja diante de uma situação de inferioridade. É comum haver esse desnível intelectual, mas é muito difícil lidar com esse problema pela parte inferiorizada.

Por isso, casamentos e uniões entre pessoas de diferentes níveis intelectuais tendem a não se perpetuarem. Se ambos não se sentirem iguais na relação, a tendência é que o menos preparado tente impor seus pontos de vista através da força física e não do poder de argumentação, onde o mais fraco se sente ameaçado. Diante desse impasse, geralmente surgem as desavenças e as discussões irracionais diante dos filhos, não apenas quebrando a harmonia familiar, mas descredenciando os pais como moderadores de conflitos. A tendência natural é o menos qualificado tentar impor suas decisões, por mais irracionais que sejam, para garantir sua autoridade.

A reação das crianças diante desse impasse é de mostrarem-se frágeis e indefesas, com regressões a estágios mentais já superados, fazendo-se parecer mais novas, imitando a fala dos bebês, ou revoltando-se através da recusa de alimentos, birras e até mesmo demonstrando, inconscientemente, incontinências urinárias ou intestinais. Nesse estágio dos problemas, certamente o casal terá perdido a capacidade de reagir com tranquilidade e controlar a situação. Reações agressivas, violentas e irracionais por parte dos pais apenas reafirmam e consolidam tais comportamentos, tornando esse processo repetitivo e devastador para a formação da personalidade da criança.

Lamentavelmente, porém, a escolha de parceiros conjugais está mais para o comportamento animal, da seleção baseada nos atributos físicos, do que na inteligência e cultura alcançados pela espécie humana. Isso ocorre porque essas escolhas se dão na fase mais instável da juventude, onde os hormônios sexuais falam mais alto do que a inteligência, a cultura e a racionalidade. É por isso que os casamentos baseados nas escolhas por afinidades intelectuais e sociais costumam dar mais certo do que aqueles determinados pela paixão, provocada pela atração física e sexual entre os parceiros.

E as vítimas dessas escolhas serão os filhos e o próprio casal que, passado o encantamento e a beleza da juventude, não mais tolerará tais diferenças culturais, intelectuais e sociais. O conflito estará estabelecido e vigorará até o fim do casamento ou o término da existência de um deles. É evidente que o reflexo dessas escolhas mal sucedidas se dará em toda a sociedade, propagando-se em comportamentos inadequados nas relações sociais e no trabalho. O fracasso profissional é consequência também desses problemas familiares, pois o indivíduo tende a reproduzir entre seus colegas de profissão o mesmo comportamento e as mesmas reações que tem no convívio familiar.

Concluindo, deveríamos ter mais cuidado em nossas escolhas desde o início de nossa vida consciente, deixando as decisões mais importantes, como a escolha de parceiros, para uma fase mais madura dos relacionamentos, e evitando erros que se propagarão por toda nossa existência, contaminando filhos e a própria sociedade. E, como pais, deveríamos cultivar a paz e a harmonia, mais do que as vaidades e os prazeres frívolos e efêmeros. Esse é o caminho da felicidade e da realização pessoal e familiar. Todos deveríamos saber disso...


João Carlos Figueiredo

Um escritor e uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: arte e foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte....
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