artefacto artefoto

O olhar perplexo de um Poeta diante da Vida

João Carlos Figueiredo

Um escritor e uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: arte e foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte...

Meu Velho Chico: um rio pede ajuda

Terminou recentemente uma das mais espetaculares produções de novelas da televisão brasileira: "Velho Chico"! Um elenco admirável, cenários magníficos, vestuário impecável, locação incomparável... tudo neste trabalho é superlativo! Foram três meses de êxtase para quem admira um trabalho dessa natureza!


Velho Chico2.jpg

Terminou recentemente uma das mais espetaculares produções de novelas da televisão brasileira: "Velho Chico"! Um elenco admirável, cenários magníficos, vestuário impecável, locação incomparável... tudo neste trabalho é superlativo! Foram três meses de êxtase para quem admira um trabalho dessa natureza! Mas não é apenas o êxito da obra-prima de Benedito Ruy Barbosa, Edmara Barbosa e Bruno Luperi que eu quero enaltecer...

O Rio São Francisco é a mais antiga descoberta que os portugueses fizeram ao ocupar o Brasil no início do século XVI. Encontrado em 1501, logo após a invasão da esquadra de Cabral, foi batizado com o nome do santo católico que amava os animais e a natureza. Ainda não sabiam que a Bacia do São Francisco era a única grande bacia totalmente inserida no território brasileiro.

Sua descoberta deu início ao processo colonizatório: partindo da foz, entre os atuais estados de Alagoas e Sergipe, tinha, naquela época, uma largura de quase 16 quilômetros. Hoje está reduzido a pouco mais de três quilômetros. Sua vazão foi estimada, para a época, em mais de 10.000 metros cúbicos de água por segundo, mas hoje se limita a pouco mais de 1.000 m3/s.

O rio era extraordinário! Em sua extensão de 2.700 km suas margens eram cobertas de densas matas, habitadas por indígenas, onças pintadas, suçuaranas, panteras negras, diversos tipos de macacos, centenas de espécies de aves, peixes, pequenos mamíferos... uma biodiversidade que se adaptou aos vários biomas em que ocorriam seus afluentes: caatinga, cerrado, mata atlântica... no descobrimento, como no resto do Brasil, a Natureza estava intacta! Apenas animais selvagens e indígenas viviam de suas riquezas, sem devastá-las, em um processo consorciado que pouco a pouco foi sendo destruído pela irresponsabilidade dos homens brancos, europeus que apenas queriam usufruir dos territórios conquistados.

Pois bem, é nesse ambiente, já devastado pela civilização, que a novela se insere. Resquícios do coronelismo colonial, oligarquias explorando as terras cada vez mais empobrecidas, uma população mantida pobre e sem cultura, por conveniência dos que mantinham o poder às custas da miséria... o drama se desenvolve na região de Piranhas e Canindé de São Francisco, logo depois da barragem de Xingó, que aprisionou as águas do Velho Chico nos paredões do extraordinário canyon!

Nos primeiros capítulos o autor desenvolve sua trama, exibindo as origens das oligarquias e apresentando os protagonistas desse enredo incomparável. De um lado, a família Sá Ribeiro, protagonizada por Tarcísio Meira, Rodrigo Santoro e Antônio Fagundes. De outro, a família dos Anjos, cujos principais protagonistas foram Chico Dias, Renato Goes e Domingos Montagner. Um conflito de interesses separando as famílias por crimes praticados pelos coronéis Saruê, através de seus jagunços.

Porém, além da trama baseada em estruturas dramáticas já bastante exploradas em outras obras literárias, de lutas de classes entre coronéis e seus jagunços e o povo oprimido e massacrado pelo poder, o que diferencia esse trabalho é o cuidado de retratar um sertão repleto de lendas, mitos, tradições populares, ritmos caboclos e histórias contadas pelos antigos. Destacam-se nesse imaginário o Nêgo D'Água, personagem lendária além do bem e do mal, e a Gaiola dos Encantados, protagonizada pelo vapor Benjamin Guimarães que, certamente, jamais poderia estar na região dos canyons. Esta, foi trazida dos Estados Unidos, do Mississipi, para fazer o transporte de pessoas e cargas entre Pirapora, em Minas Gerais,e Juazeiro, na Bahia, sendo hoje a única embarcação desse tipo em atividade.

A religiosidade do caboclo sertanejo é evidenciada nos símbolos cristãos das igrejas e das casas, ricas ou pobres, ornamentadas por imagens dos santos católicos, bem como pelas falas das personagens e das festividades populares, muito comuns nessa região. O sincretismo religioso está presente nas tradições indígenas e caboclas, que muitas vezes determinam a sequência dos acontecimentos, como no caso da cura imprevisível de Santo dos Anjos, mortalmente atingido por tiros e salvo por indígenas. A cobra que ornamenta o interior da mansão dos Sá Ribeiro, também um símbolo popular, representa a ascensão e a queda do poder dessa família.

Uma importante disputa intelectual que se dá entre os fazendeiros e os agricultores familiares é o tipo de tecnologia evolutiva empregada nas lavouras, partindo da exploração predatória da natureza, a introdução da irrigação artificial e, finalmente, a Agricultura Sintrópica de Ernst Götsch. Essa disputa tecnológica propicia um dos debates mais interessantes, associados à situação calamitosa em que o Velho Chico se encontra, mostrando que a mudança de conceitos nada teve com as ideologias, mas sim com os interesses dos poderosos em manter sua estrutura de dominação através da ignorância popular.

Se, no enredo, as emoções se dão pelo relacionamento proibido entre Maria Teresa e Santo dos Anjos, os demais atores tornam-se personagens insubstituíveis pela sua competência e pelo arrebatamento que causam nos espectadores. Nem a morte de dois atores, Umberto Magnani (Padre Romão) e Domingos Montagner (Santo dos Anjos) foi capaz de prejudicar o desenvolvimento do enredo.

Não querendo me estender na apresentação desse excelente trabalho, resta-me parabenizar os diretores da novela pela coragem em trazer esse trabalho tão oportuno à realidade nacional, e os excelentes atores, que nos enriqueceram com a construção de seus personagens. Quero destacar o trabalho inesquecível de Selma Egrei, cuja personagem "Encarnação" ficará para sempre em nossas memórias! A mim, pareceu-me rever Mariquinhas, a matriarca de nossa família materna, cuja força de expressão nos encantou por quase um século!

Mas, como em todas as brilhantes obras da #Globo, impossível não destacar o inconveniente paradoxo em patrocinar essa novela épica, defendendo uma agricultura e uma pecuária exemplares e sustentáveis, enquanto também patrocinava propagandas cretinas nos intervalos, afirmando estupidamente que "o #AGROnegócio é POP, é TECH, é TUDO!" Quem te vê...

__________________________________________________

A situação do semiárido nordestino e dos conflitos fundiários nessa região é tratada em meu livro "Meu Velho Chico - um rio pede ajuda", que será lançado em dezembro. Em minha história real, percorro os 2.700 km do rio em canoa canadense, a remo, solitário, desde a nascente, no sul de Minas Gerais, até a foz, na divisa de Alagoas e Sergipe, para compreender as questões fundiárias, étnicas e ambientais, enquanto realizo a maior aventura de minha vida: 99 dias remando no Velho Chico! Detalhes da campanha no site:

https://www.kickante.com.br/campanhas/producao-do-livro-meu-velho-chico


João Carlos Figueiredo

Um escritor e uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: arte e foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte....
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //João Carlos Figueiredo