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O olhar perplexo de um Poeta diante da Vida

João Carlos Figueiredo

Um escritor e uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: arte e foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte...

MANIFESTO INDIGENISTA


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Aos povos originários da Nação Brasileira é atribuída a denominação imprópria de “indígenas”, tal como ficaram conhecidos pelos invasores portugueses. Desde então, esse nome genérico vem estimulando o preconceito e a segregação desses povos, justificando o espólio territorial e cultural a que vêm sendo submetidos. Estima-se, em uma avaliação conservadora, que havia cerca de cinco milhões de seres humanos quando os portugueses aqui aportaram. Mesmo tomando por base essa referência histórica, esses povos foram submetidos a um dos mais cruéis genocídios de que se tem notícia, exterminando-se mais de 80% de sua população nesses 500 anos de Brasil.

Nos primeiros séculos de ocupação, os portugueses tentaram – e muitas vezes conseguiram – fazer dos “indígenas” sua mão de obra escrava, seja para retirar madeira de lei e exportá-la para a Europa, seja para a produção de cana-de-açúcar e seus derivados, também destinados à exportação. No entanto, os povos aborígenes reagiram fortemente a essa tentativa de dominação, sendo vítimas, não apenas dos governantes, mas também da igreja, através de seus missionários, que se aliaram a esse processo perverso de subjugação, destruindo o fundamento de seu universo cosmogônico: suas tradições, suas lendas, seu modo de vida e até mesmo sua língua.

Nos anos que se seguiram, esse processo de extermínio prosseguiu, sempre desprezando a cultura tradicional desses povos, tratados como seres irracionais, como os animais selvagens, desprovidos de alma e de espírito, praticantes de rituais satânicos e tidos como ignorantes pelos invasores. Suas terras, que não reconheciam fronteiras, foram, aos poucos, sendo loteadas entre os privilegiados, primeiro da Colônia, depois do Império e, finalmente, da República, criando-se leis que justificassem a exploração e o esbulho de seus territórios e de suas riquezas culturais.

No início do século passado, já reduzidos a 20% de sua população original, e muitos também desprovidos de sua língua e de seus costumes, passaram a ser “tutelados” pelo Estado Brasileiro, sob a justificativa de serem incapazes de cuidar de si mesmos diante de uma “civilização milenar” trazida dos países europeus, o “centro do mundo”, segundo sua concepção. Mesmo depois de 500 anos de extermínio sistemático e cruel, ainda persistem em “nosso território” cerca de um milhão de indivíduos, diferenciados por quase 200 línguas de cinco troncos linguísticos, cerca de 300 etnias, e confinados em 600 terras indígenas. Muitas leis foram elaboradas para definir sua presença e seus direitos como “cidadãos brasileiros”, embora não tivessem representação na estrutura de poder de nosso país.

A primeira instituição indigenista foi o Serviço de Proteção ao Índio, cujo propósito não era outro senão o de incorporar o indígena à força de trabalho da Nação emergente. O SPI existiu por 50 anos e atuou com extremo rigor em seu intuito de servir ao poder central, em detrimento dos Povos Indígenas. Foi extinto em 1967, em pleno estado ditatorial militar, e substituído pela Fundação Nacional do Índio, ainda existente, embora cada vez mais pressionada pelo agronegócio, pela mineração, pelos grandes empreendimentos na Amazônia, e pela famigerada Bancada Ruralista que, representando menos de 2% da população brasileira, comanda os destinos de nossa Nação.

Agora, diante de tantas ignomínias e humilhações, querem acabar com a FUNAI; se não for pelo extermínio definitivo, será pelo sufocamento de suas ações em defesa das populações indígenas. Fala-se, pelos corredores do Congresso, em confiná-la no INCRA, que cuida dos assentamentos da Reforma Agrária e dos Quilombolas, mas não entende nada de povos indígenas. Outra parte seria colocada no Ministério da Casa Civil, que nada tem a ver com questões civilizatórias, a despeito de seu nome. Diz-se ainda que a FUNAI será exterminada pela extinção das verbas orçamentárias que a sustentam. Talvez seja tudo verdade, tudo parte de um mesmo plano sórdido e cruel…

Fato é que já não temos mais esperanças de preservar essa imensa cultura que herdamos dos povos indígenas, seja qual for a sua etnia, suas crenças, seus modos de vida, sua língua e sua face… Resta-nos protestar veementemente contra a sua extinção! Lutar para que a Organização das Nações Unidas, as ONG´s internacionais, os Tribunais de Justiça internacionais, todos eles percebam a sordidez do plano que se engendra nos porões do Congresso e do Palácio do Planalto, assim como se conspirava nos porões da ditadura contra aqueles que se rebelavam em nome da Liberdade!

Talvez seja tarde demais para reverter essa trama maquiavélica!… Talvez “eles”, os inimigos do Povo, já tenham acionado o botão que fará explodir sobre nós a bomba de nêutrons que a todos exterminará, juntamente às populações tradicionais de Pindorama… Provavelmente, mesmo que se consiga postergar as iniciativas perversas dos “palacianos”, tenhamos pouco tempo para nos organizar para a luta em defesa desses povos oprimidos, humilhados e em processo de extermínio.

Provavelmente, será o agronegócio, a mineração, a exploração indiscriminada de nossos recursos naturais que irão nos matar a todos, independentemente de nossas origens étnicas, de nossos falares diferentes, de nossa aparência física, de nossas culturas e tradições. Um belo dia acordaremos e perceberemos que se conseguiu, finalmente, acabar com as florestas, os rios e a incrível diversidade biológica de nosso paraíso ameaçado. Neste caso, a ganância, a arrogância e a crueldade dos dominadores terá vencido… mas nada mais lhes restará senão uma terra arrasada, imprestável…

Que seja assim, portanto. Que o Destino se cumpra, enquanto milhões de seres humanos se escondem em seus próprios mundinhos eletrônicos, seus brinquedinhos PET, seu microcosmo intelectual… a ninguém restará absolutamente nada! Alguns até apostarão na descoberta de novos mundos a serem ocupados e devastados pelas mesmas “qualidades” dos seres humanos! Mas nada fará mudar os rumos de nossa nau errante, que caminha célere para sua própria extinção!...


João Carlos Figueiredo

Um escritor e uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: arte e foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte....
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