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O olhar perplexo de um Poeta diante da Vida

João Carlos Figueiredo

Um escritor e uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: arte e foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte...

A GRANDE FARSA DA DEMOCRACIA


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Cresci acreditando ser o Brasil um país jovem e, por isso, imaturo e incapaz de resolver seus problemas sozinho. Todas as nossas culpas poderiam ser atribuídas a Portugal, Holanda, Inglaterra e França, países que se aproveitaram de uma nação em formação para espoliar suas riquezas e realizar a mais covarde e dramática experiência de escravidão dos tempos modernos. Quando o processo escravagista já não mais atendia aos interesses coloniais e imperialistas do Velho Mundo, o Brasil foi compelido a soltar os escravos e proclamar a "Lei ÁUREA"! Salve Princesa Isabel! A demagogia já imperava na Colônia!

Durante os 388 anos de escravidão, enquanto milhões de negros eram cruelmente torturados, e trabalhavam até a exaustão, e suas mulheres eram estupradas covardemente, as populações nativas eram dizimadas através das formas mais perversas: transmissão intencional de doenças contagiosas, assassinatos coletivos, contaminação de alimentos e da água com veneno, expulsão dos indígenas de seus territórios e confinamento em terras pobres de caça e de vegetação, levando-os à miséria extrema, explosão de dinamite nas aldeias e até mesmo a indução ao suicídio coletivo.

Tudo isso ocorreu de forma descarada, sem subterfúgios, sem titubeio ou vergonha, sob a alegação de que "índios não teriam alma, assim como os negros"! E assim, sucederam-se os séculos, sem que a sociedade branca, a elite da escória portuguesa, se sentisse responsável pelos assassinatos que levaram mais de dez milhões de seres humanos (negros e índios) à morte mais cruel! Nenhuma voz se levantou em sua defesa! Nenhum sentimento humanitário questionou essa crueldade inominável!

Mas o pior de tudo é que até hoje, as populações indígenas são tratadas como seres inferiores, preguiçosos, sujos, sem determinação e vontade para o trabalho, seres que estariam ainda vivendo na era da pedra lascada, não fossem os portugueses e brasileiros que lhes tiraram a pureza, a virgindade, a simplicidade e o amor pela Natureza, cobrindo seus corpos e sua nudez profana com o manto de sua religião secular! Há quem diga (e são milhões) que "existe muita terra para pouco índio" em "nosso" país! Porém poucos se dão ao trabalho de perceber que aqui não haveria tanta riqueza natural se não fossem eles, os indígenas!

Esquecem-se que eles foram milhões, que falavam duas centenas de línguas e pertenciam a três centenas de etnias, tinham suas próprias crenças e costumes, e aprenderam a cuidar de si mesmos em um território hostil e selvagem! Esquecem-se que nossa própria cultura está impregnada pela cultura deles, nas palavras, nos hábitos, nos alimentos, nos folguedos infantis, nos cânticos e danças ritualísticas, nos medicamentos criados a partir do aprendizado de suas poções medicinais! Esquecem-se que há mais de dez mil anos eles já estavam aqui, e que os soldados de Cabral e de Colombo, e suas religiões preconceituosas é que destruíram sua milenar civilização, construindo igrejas com as pedras dos magníficos templos saqueados em nome de uma crença imoral e profana!

Pois foi essa herança maldita que deformou o caráter dos americanos pós-colombianos e pós-cabralianos! Foi o esbulho das riquíssimas terras dos ameríndios que enriqueceu aos invasores! Foi o processo mercantilista, que os indígenas desconheciam, que moldou a falta de caráter de brasileiros e demais invasores em sua gana de enriquecer com a miséria desse povo!

Hoje passamos por mais uma crise, talvez a pior de nossa história, de falta de caráter, de ausência de valores éticos e morais, em que cada um quer o bem de si mesmo em detrimento da coletividade! Não existe povo mais coletivista do que os indígenas! Eles nunca tiveram posses, nunca construíram riquezas, nunca mataram por ambição de poder! Nossa sociedade, que se afirma "democrática", não é capaz sequer de um ato de dignidade e generosidade para com esse povo que preservou a Natureza por sete milênios, apenas para que a "nossa civilização" destruísse tudo em nome da fama, da riqueza e do poder!

Nossa democracia é uma grande farsa, constituída de uma "elite" de safados que se apropriaram de tudo que havia de bom nessa terra, e implantou um povo mesquinho, medíocre e irrelevante para o futuro da Humanidade. Se o mundo, hoje, está violento e covarde, se terroristas matam pessoas inocentes para atingir os governantes em nome de outra religião, se a escassez de alimentos e de água começa a provocar a maior migração de que se tem notícia na história desse mundo, é porque nossos valores culturais foram enterrados na podridão de nosso passado de maldades, ódio e ambição!

Se políticos desavergonhados, acobertados por magistrados corruptos, e atrelados a governantes inescrupulosos e igualmente corruptos roubam e desdenham de nossa cara em plena luz do dia, e o povo (pobre povo!) já não reage mais, é porque nosso futuro está selado, definido, inexoravelmente perdido para a devassidão que domina esse mundo abominável de nossos dias!


João Carlos Figueiredo

Um escritor e uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: arte e foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte....
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