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O olhar perplexo de um Poeta diante da Vida

João Carlos Figueiredo

Um escritor e uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: arte e foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte...

AGRO É POP, AGRO É TECH, AGRO É TUDO

Passados 11 anos desde a última pesquisa em 2006, o IBGE está realizando um novo Censo Agropecuário, que será divulgado a partir de julho de 2018. No entanto, o Censo de 2006 continua extremamente relevante por mostrar como o Brasil Rural está organizado entre pequenos, médios e grandes produtores, quem são os proprietários das terras, seus respectivos graus de escolaridade, os tipos de produtos cultivados (lavouras temporárias e permanentes, hortifrutícolas, criação de animais de corte e de produção de leite), bem como outras questões essenciais, que pretendemos elucidar no decorrer desta breve análise.

(O IBGE apresenta os resultados da segunda apuração do Censo Agropecuário 2006. (https://ww2.ibge.gov.br/home/estatistica/economia/agropecuaria/censoagro/2006_segunda_apuracao/default.shtm))


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O CAOS E A ORDEM

Dados comentados da pesquisa

Dos 5.175.636 de imóveis rurais existentes no Brasil, e considerados na pesquisa de 2006, totalizando 333.680.037 hectares, 3.946.411 de imóveis (76,25%) são próprios, totalizando 310.515.259 hectares (93,06%). Considerando-se o porte das propriedades rurais, destaca-se que 1.840.807 propriedades possuem menos de 5 (cinco) hectares, correspondendo a 35,57% de todos os imóveis rurais. A agricultura familiar (propriedades de até 500 hectares), corresponde a 4.818.881 de propriedades rurais (146.296.551 hectares), representando 87,32% de todos os produtores rurais do Brasil. Essas propriedades abastecem mais de 80% de todos os produtos da mesa dos brasileiros, como hortifrutícolas, feijão, arroz e mandioca, dentre outros.

Excluindo-se a agricultura familiar, restam 101.736 produtores de grande porte (propriedades acima de 500 hectares), representantes do agronegócio, com 1,97% dos estabelecimentos rurais brasileiros, ocupando 187.383.486 hectares, 56,16% de toda área agricultável do país. Grande parte da produção agrícola do Brasil é destinada à exportação, como a soja, o algodão, o milho, a carne bovina e suína, e as aves (galináceas).

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De acordo com dados fornecidos pelo site oficial do Serviço Florestal Brasileiro, órgão do MMA – Ministério do Meio Ambiente (http://www.florestal.gov.br/numeros-do-car), até 29 de maio de 2018 foram cadastrados 5,1 milhões de imóveis rurais, totalizando uma área de 448.319.254 de hectares inseridos na base de dados do sistema, confirmando que o agronegócio corresponde a 52,73% do território nacional. Os dados apresentados contrariam as informações apresentadas pelo pesquisador da Embrapa; há alguns anos, Evaristo de Miranda vem afirmando que mais da metade do território nacional é preservado, graças ao agronegócio. Essa afirmação é falsa, como demonstraremos a seguir.

Comparando-se os dados da FUNAI e do ICMBIO, temos, respectivamente, 116,900.565,36 hectares de terras indígenas e 75.016.301,91 hectares de unidades de conservação federais. Consideramos que menos de 20% dos latifúndios rurais cumprem a legislação sobre reserva legal e áreas de preservação permanente, principalmente na Amazônia, onde, mesmo de acordo com o novo Código Florestal Brasileiro, 80% das áreas dos imóveis localizados na Amazônia Legal deveriam ser mantidos preservados como floresta original. Essa afirmação é facilmente comprovável através de imagens de satélites.

2 (“Quase 65% do território de MT é conservado”, diz estudo da Embrapa – https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/25604479/quase-65-do-territorio-de-mt-e-conservado-diz-estudo-da-embrapa – “Estudo da Embrapa Monitoramento por Satélite aponta que 64,77% do território de Mato Grosso é constituído por áreas protegidas (unidades de conservação e terras indígenas) e preservadas. A área restante é ocupada por pastagens naturais (3,03%), pastagens plantadas (21,52%), agricultura (10,39%) e áreas urbanas (0,30%)”. O mapeamento foi apresentado pelo pesquisador e chefe-geral da Unidade, Evaristo de Miranda, durante o evento Aprosoja – Sustentabilidade, organizado pela Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado de Mato Grosso.)

3 (O STF e o Código Florestal (https://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,o-stf-e-o-codigo-florestal,70002191263) – avaliação do pesquisador ao voto do Ministro Luz Fux, do STF, em relação à inconstitucionalidade do “novo” Código Florestal Brasileiro, aprovado pelo Congresso, em 2012, com relatoria de Aldo Rebelo, do PCdoB, e assinado por Dilma Rousseff, em julho, durante o Congresso Mundial sobre Sustentabilidade e Meio Ambiente.)

É importante destacar que os estudos da Embrapa não consideram que pequenas áreas verdes e descontínuas não caracterizam áreas preservadas, pois não sustentam a biodiversidade. Analisar imagens de satélite, somando pequenas manchas de vegetação às áreas preservadas é uma forma desonesta de burlar e distorcer a verdade dos fatos. Para que uma área possa ser considerada de preservação ambiental é preciso analisar in loco sua biodiversidade, bem como os fatores que asseguram sua perenidade. Os estudos da Embrapa parecem ter sido contratados pelos agentes do agronegócio, pois visam ludibriar a opinião pública, fornecendo informações questionáveis sob o ponto de vista da biodiversidade do planeta.

Para os ecossistemas brasileiros é preciso tratar a biodiversidade como áreas contínuas, com nascentes, córregos, rios, vegetação primária, fauna e processos naturais que comprovem ciclos completos do Nitrogênio e do Carbono, compatíveis com o equilíbrio da Natureza. O desvirtuamento do Código Florestal Brasileiro, promovido pelo Congresso Nacional, e referendado pela presidente Dilma Rousseff, em julho de 2012, em plena realização da Conferência Mundial pela Biodiversidade, propiciou a aceleração da perda de biodiversidade em todos os biomas brasileiros, mas em especial nos biomas Cerrado e Amazônia, mais fortemente devastados a partir de então. Os números evidenciam isso. É importante destacar que a aprovação das mudanças no Código Florestal Brasileiro tinha por objetivo, além do exposto, o perdão das dívidas dos latifundiários por crimes ambientais praticados ao longo dos últimos 50 anos, causando perdas irreversíveis da biodiversidade, inclusive dentro de terras indígenas e unidades de conservação. Ao contrário do que afirmaram os defensores dessas mudanças na legislação, os crimes ambientais continuaram, e isso pode ser comprovado até mesmo pelo Cadastro Ambiental Rural, que mostra, inequivocamente, a presença de imóveis rurais dentro das unidades de conservação e terras indígenas!

Abaixo, o Infográfico do Serviço Florestal Brasileiro:

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4 (Observe-se que a área cadastrada é superior à área cadastrável, evidenciando a presença de imóveis rurais dentro de terras indígenas, de unidades de conservação, de reservas legais e de áreas de preservação permanente, além da ocupação de terras devolutas da União. A ocupação irracional do território brasileiro está sendo evidenciada pelos registros de imóveis no Cadastro Ambiental Rural. Isso é ainda mais evidente ao se constatar os números da região Norte: dos 93,7 milhões de hectares cadastráveis, constata-se 137,6 milhões de hectares já cadastrados!)

Para analisar os impactos do agronegócio sobre a preservação do Meio Ambiente, tabulamos as informações do Cadastro Ambiental Rural (http://www.car.gov.br/#/). Veja-se planilha contendo dados do CAR, referentes a março de 2018, totalizados por unidade da federação e comparados com informações de Terras Indígenas (site oficial da FUNAI) e das Unidades de Conservação Federais (site oficial do ICMBio).

Observe-se que as terras indígenas correspondem a 13, 75% do território nacional, porém nem todas encontram-se razoavelmente preservadas. Nas últimas quatro décadas, a devastação provocada pelo agronegócio (que arrenda, ilegalmente, áreas dentro de terras indígenas), pela extração ilegal de madeira (um dos principais agentes de degradação da amazônia), pela mineração e garimpo, pela proliferação irresponsável de assentamentos do INCRA, pelos grandes empreendimentos da Amazônia, principalmente rodovias e hidrelétricas, além de outros fatores subsidiários, como a explosão imobiliária que segue a trilha de empreendimentos e rodovias, todos esses fatores causaram (e continuam causando) a redução das áreas preservadas, principalmente nos estados de Roraima, Rondônia, Acre, Mato Grosso, Tocantins, Pará e Maranhão. Hoje, alguns grupos étnicos, como os povos Xavante, já não conseguem viver como seus antepassados em decorrência das mudanças climáticas, fortemente acentuadas por influência do agronegócio.

A ocupação ilegal de áreas internas às terras indígenas vêm causando, não apenas a degradação ambiental, mas também a redução de populações indígenas sem contato com a nossa civilização. Casos mais críticos são as populações da Amazônia, na sua fronteira ocidental (Vale do Javari, Acre e Alto Solimões), severamente ameaçadas de extinção devido ao constante assédio de madeireiros e garimpeiros nas fronteiras.

5 (Índios Isolados são populações que não têm contato com a sociedade envolvente e, graças a isso, preservam seu modo de vida tradicional, vivendo apenas da caça, da pesca e da coleta de castanhas, raízes, frutas, ervas e tubérculos. Existem dezenas de pequenos grupamentos em toda Amazônia Legal, sob sério risco de extinção.)

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Observe-se que os quatro primeiros estados brasileiros com maior área afetada pelo agronegócio representam 52,36% de todo território do Brasil, sendo que três deles encontram-se dentro da Amazônia Legal (Amazonas, Pará e Mato Grosso), e os dois primeiros (Amazonas e Pará) na Floresta Amazônica.

Ao se desdobrar tais números nos diferentes grupos de atividade econômica, constata-se que a produção de lavouras temporárias representa 31,68% da produção agrícola, enquanto a pecuária representa 51,91% (70,18% desta somente com a criação de gado bovino), e as lavouras permanentes representam apenas 12,35% da produção agrícola do país, o que comprova que as propostas de unidades agroflorestais ainda não foram incorporadas pelos produtores rurais. Vale destacar que a Embrapa chama de “florestas” as monoculturas plantadas de eucalipto, pinus e outras árvores não pertencentes à Flora nacional. Tais “florestas” não cumprem a finalidade de sustentação da biodiversidade, mas apenas de produção de madeira.

A predominância de proprietários rurais do sexo masculino é absoluta no Brasil: 87,38% dos ruralistas são homens. Outro dado alarmante é o grau de escolaridade dos proprietários rurais: 65% dos proprietários rurais têm ensino fundamental incompleto ou não sabem ler nem escrever. Apenas 4,85% dos proprietários rurais possuem nível técnico ou superior. Isso demonstra que o agronegócio não trouxe prosperidade ao campo, mas apenas riqueza aos grandes proprietários de terras. As pequenas propriedades rurais (sítios e fazendas) continuam vivendo com as mesmas dificuldades do início do século XX.

Cerca de 25% das propriedades rurais (em hectares) localizam-se em Minas Gerais e São Paulo, e dois terços das propriedades rurais (67%) estão concentradas em sete estados: MG, SP, RS, GO, BA, PR, MS. Esses números convalidam a evidência de que o agronegócio é o novo perfil da agropecuária brasileira, estando as maiores propriedades rurais localizadas no Amazonas, Pará e Mato Grosso, nenhum dos três relacionados na lista acima. Existem cerca de 255 mil produtores rurais sem área própria de plantio, cultivo ou criação, ou seja, trabalhadores rurais atuando como mão de obra agrícola em propriedades de outrem.

A maior parte (88,62%) dos proprietários rurais reside no campo ou no município de sua propriedade. Entre os que residem longe de seu imóvel rural, encontram-se 3,39% dos proprietários, o que corresponde a 13,50% de toda a área rural brasileira, ou seja, grandes proprietários rurais vivem longe do campo.

Cerca de um terço (31,57%) das propriedades rurais representam menos de um por cento (0,79%) da área total de imóveis rurais no Brasil. No entanto, 0,37% das propriedades rurais (acima de 2.500 hectares) correspondem a cerca de um terço (31,41%) da área total dos imóveis rurais. Eis, novamente, a evidência da concentração de riquezas produzidas pelo agronegócio, em detrimento da agricultura familiar.

A produção de lavouras temporárias representa 31,68% das atividades agrícolas, enquanto a pecuária corresponde a mais da metade (51,91%) da produção rural. Somente a criação de bovinos representa 79,18% da pecuária nacional, ocupando cerca de 190 milhões de hectares do território nacional (um boi por hectare). Apenas a criação de animais responde por quase 225 milhões de hectares do agronegócio, sendo que a criação de aves responde por 7,91% desse setor, com cerca de 13,056 milhões de toneladas em 2017.

6 (Fonte: Agência Brasil http://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2017-12/producao-de-carne-de-frango-e-de-porco-aumenta-em-2017-diz-abpa)

Vale destacar que são chamadas de commodities todos os produtos primários de exportação, ou seja, minérios, soja, milho, arroz, carne, cana-de-açúcar, petróleo, algodão, café, todos eles não processados pela indústria. As commodities têm um setor específico nas bolsas de valores, pois seus preços variam conforme o mercado internacional. Essa é mais uma evidência de que o agronegócio tem por objetivo, a exportação de seus produtos, e não o mercado interno, desmentindo as propagandas que afirmam que os produtos do agronegócio abastecem a mesa dos brasileiros. Quem alimenta o Brasil é a agricultura familiar.

Impactos do Agronegócio sobre a Economia, a Sociedade e o Meio Ambiente

Economia

Desde que o país optou por sobrevalorizar o agronegócio como atividade predominante na formação do Produto Interno Bruto, a Indústria foi relegada a segundo plano, perdendo, gradualmente, sua importância na Economia brasileira. O favorecimento ao campo se refletiu na concessão de créditos subsidiados, afetando também o equilíbrio das contas públicas, e impactando nos resultados de outros setores da Economia. Dada sua nova importância, o Congresso passou a ser comandado por uma bancada de deputados e senadores, cuja alcunha “Ruralista” não se restringia a defender os interesses do Agronegócio, mas também a combater quaisquer ações cujos ocupantes julgassem ir contra tais interesses. Isso incluía as populações indígenas, fortemente combatidas e afrontadas em seus direitos fundamentais, em favor de novas concessões aos donos do poder. Também o Meio Ambiente passou a ser relegado a segundo plano, sempre que os ruralistas julgassem prejudicar seus interesses. A prova disso ocorreu em julho de 2012, quando o Código Florestal Brasileiro, um dos mais avançados do mundo, foi descaracterizado para permitir que os latifúndios avançassem contra a Amazônia e o Cerrado, reduzindo as áreas de preservação permanente, as reservas legais e outros conceitos fundamentais para a conservação ambiental. Os empréstimos subsidiados, concedidos aos fazendeiros, com juros muito abaixo de qualquer empréstimo que outros empresários poderiam reivindicar, mesmo assim, não eram honrados pelos tomadores e, para favorecer ainda mais tais interesses, o Congresso criou o REFIS – Programa Especial de Regularização Tributária, teoricamente, destinados às pequenas e médias empresas, mas que favoreceram mesmo os grandes produtores rurais, em detrimento da população.

Sociedade

Os programas destinados a melhorar a qualidade de vida da população rural brasileira, como o Bolsa Família, o Crédito Rural a pequenos agricultores familiares, a Eletrificação Rural, bem como outros benefícios criados pelo governo FHC e aperfeiçoados pelos governos petistas, foram gradualmente descartados para favorecer ao agronegócio. O Brasil passou a viver em função do PIB Rural, por assim dizer. Enquanto o país aprofundava na crise político-institucional, o agronegócio prosperava, para os grandes produtores. Esse processo, que se retroalimentava, aprofundava os desníveis já gravíssimos entre as classes sociais, concentrando nas classes abastadas, em detrimento da população menos favorecida. A sociedade foi induzida a acreditar que o agronegócio era a salvação do país diante da crise mundial. Para os ruralistas, tudo era permitido, agravando conflitos sociais e sucateando os demais setores da Economia nacional. A própria Rede Globo, todo-poderosa e receptora dos favorecimentos institucionais, criou e moveu sua própria campanha publicitária, induzindo o povo a acreditar que ‘AGRO É POP, AGRO É TECH, AGRO É TUDO’! Há meses, essa campanha milionária, supostamente sem patrocinadores, vem sendo veiculada na televisão, incluindo no agronegócio toda a produção familiar, que nunca teve tais subsídios que somente os poderosos, “amigos da Rede Globo”, poderiam ter. Hoje, a sociedade, pobre, inculta, subalterna e humilhada, acredita plenamente que, sem o agronegócio, o Brasil entraria na pior recessão de sua história. E nem percebem que já estamos em recessão desde 2014…

MEIO AMBIENTE

O ciclo de produção do agronegócio tornou exigente ao extremo este setor da Economia, demandando cada vez mais territórios a serem dedicados à produção rural. Esse fato inequívoco favoreceu os desmatamentos, passando a exploração de madeira a se tornar um elemento preliminar e indispensável à expansão do agronegócio. Dessa forma, poder-se-ia afirmar que “o agronegócio” não devasta o meio ambiente; são as madeireiras que o fazem! Na verdade, esses são os elos de uma mesma cadeia produtiva: primeiro se extrai madeira nobre para exportação e consumo interno ilegal; em seguida, derruba-se o remanescente florestal e coloca-se fogo na madeira; finalmente, vem a soja, o gado, o algodão, o milho, a cana-de-açúcar… e assim se acaba com a floresta e se implanta novas frentes do agronegócio.

CONCLUSÕES

A Economia de um país compreende uma diversidade de modos de produção, que devem estar equilibradas com a disponibilidade de recursos naturais, para assegurar a perenidade da Nação para nossos descendentes. Veja-se o exemplo dos países produtores de petróleo, e compare-se com nossa situação. O petróleo, como fonte de energia tem seus dias contados, pois trata-se de um recurso finito, não renovável. Como sobreviverão os países do Oriente Médio quando suas reservas se esgotarem, ou quando os derivados de petróleo forem substituídos por fontes alternativas, de mais baixo impacto sobre a produção de carbono?

O Brasil tem o privilégio de possuir a maior floresta contínua na região equatorial. Floresta riquíssima em biodiversidade, sendo a maior reserva do mundo em água potável, que se recicla continuamente, graças ao processo de renovação alimentado pela evaporação do Oceano Atlântico, a evapotranspiração da floresta e o degelo dos Andes, além da migração aérea de imensas quantidades de areia do deserto do Sahara, que repõem o equivalente de solo arrastado pelas águas do gigantesco rio Amazonas, o maior do mundo! Temos outro privilégio: o de contar com uma das maiores savanas do mundo, o Cerrado, com uma vegetação riquíssima e diversificada, adaptada às rigorosas condições climáticas, e que também contém uma das maiores reservas de fontes subterrâneas do aquífero Guarani e outras menores, que também abastecem as principais bacias hidrográficas brasileiras, como a Amazônica, o Pantanal e o rio Paraguai, o rio São Francisco e o Rio Paraná, além de inúmeros rios que deságuam no Oceano Atlântico.

No entanto, enquanto o mundo se prepara para a carestia inevitável, que decorrerá do aquecimento global, o Brasil desperdiça e esbanja suas reservas naturais, vendendo minérios para o mundo, vendendo grãos para o mundo, vendendo carnes para o mundo, e devastando nossas maiores riquezas naturais. Estamos, por assim dizer, eliminando nossas possibilidades quase infinitas de prosperar em favor de uma minoria de aristocratas do agronegócio, composta de uma minoria social que dominou não apenas a produção agropecuária do país, mas também a política e o restante da sociedade, refém de sua força de dominação e de seu poder econômico.

A redução drástica da imensa Floresta Amazônica terá impactos irreversíveis no clima da América do Sul, savanizando um território de mais de seis milhões de quilômetros quadrados, que extrapola nossos limites territoriais, desertificando o Cerrado e os Pampas, e reduzindo à míngua nossas reservas de água potável, tornando impossível a sobrevivência de nossos 200 milhões de habitantes! A água será, certamente, o maior tesouro da humanidade, muito mais importante do que foi o petróleo e os minérios em eras passadas. A população mundial triplicou em menos de um século, e caminha célere para atingir dez bilhões de seres humanos. Alguns dirão que a ciência encontrará a solução para a escassez de água e de alimentos. Outros sonham com astronaves que migrarão as elites terrestres para outros planetas do Universo. Mas não escaparemos do destino que estamos preparando para nossos filhos…

O mais incrível é que existem outras alternativas! Não precisamos ser o “celeiro do mundo”, nem abastecer a população com duzentos e vinte milhões de cabeças de gado! Não precisamos acabar com nossas reservas de minérios, de água e de biodiversidade para termos uma nação forte, poderosa e feliz… Se os árabes e judeus conseguem sobreviver nos desertos, dessalinizando a água do mar, por que, com tanta riqueza natural não podemos ser a mais poderosa nação deste planeta? Para que devastar tanta riqueza?

Parece que o povo brasileiro, inculto e fraco, não percebe que uma minoria está escravizando a população e enriquecendo-se com a miséria de mais de quarenta milhões de seres humanos… sim, está em nossas mãos reverter esse resultado medonho que herdarão nossos descendentes. Mas a ignorância é a origem dos sistemas totalitários. E a Aristocracia é uma das formas de domínio e poder, uma tirania sem violência perceptível, pois se esconde nas próprias formas da democracia. Esses poderosos manipulam intelectuais, manipulam políticos inescrupulosos, manipulam a ciência e a tecnologia em proveito próprio, e renegam a Nação e o destino de nosso povo… colocam a população contra suas minorias, como os povos indígenas e quilombolas, atribuindo a eles a carestia de que somos vítimas, enquanto esbanjam sua riqueza, dominando, inclusive, os meios de comunicação! Estamos cegos diante do óbvio!

Existe, sim, uma alternativa… existem, na verdade, muitas alternativas que implicam, necessariamente, na retomada dos destinos da Nação pelo povo. Não é assim que está escrito na Constituição da República do Brasil? “Todo poder emana do Povo, e em nome dele será exercido”! Mas não é verdade. Todo poder está nas mãos de minorias: o Agronegócio, a Rede Globo, as grandes Empreiteiras, as Mineradoras multinacionais, as Madeireiras, a Política podre, os Evangélicos… nosso país foi dominado pelas minorias, que vendem os sonhos aos seus dominados: queremos ter o último modelo de automóvel, de celular, de tênis, de computador, de câmera fotográfica, de relógio… mesmo que nenhum desses bens de consumo sejam imprescindíveis para conquistarmos a maior riqueza da vida: sermos felizes! Olhamos para nossos filhos e queremos colocá-los na escola mais rica, levá-los para a Disneylândia, dar-lhes roupas de griffe, frequentarem os clubes de grã-finos, ensinar-lhes inglês, mesmo que não dominem seu próprio idioma, pois falar inglês é um “must” para o mundo inteiro! Queremos tirar férias viajando para o exterior, mesmo conhecendo muito pouco de nosso próprio país! Queremos comprar eletrônicos japoneses, mesmo que nossa indústria possa evoluir e competir com aqueles, como fizeram a China e a Coreia! Esse é o chamado “complexo de vira-latas”! Sim, somos vira-latas, mas eles são os melhores cães do mundo, muito mais amigos do que os Hotweilers, os Dobermans e PitBulls! Temos vergonha de nossa raça mestiça, com mais de 300 etnias riquíssimas, com suas culturas, seus folclores, suas crenças, suas línguas… e, no entanto, aceitamos que os latifundiários e os políticos discriminem negros, mulatos, mestiços, indígenas…

Afinal, por que somos tão ignorantes e escravos dessas minorias pseudo-aristocráticas, pseudo-intelectuais, pseudo-religiosas? Por que nos submetemos, voluntariamente, à exploração e à humilhação desses senhores feudais do agronegócio, aceitando, estupidamente, a afirmação da REDE GLOBO, de que “AGRO É POP, AGRO É TECH, AGRO É TUDO”? Existe afirmação mais cretina, indecente e mentirosa? Não podemos continuar sendo enganados pelos Bolsonaros da vida, pelos Renas, Sarneys, Temers, Jucás, enquanto nosso povo passa fome, e nós engolimos seco, devorando carne da FRIBOI (ou serão free-boys?).

Ainda é tempo de salvar os rios, as florestas e seus habitantes, os povos indígenas, os quilombolas, os nossos mestiços e a Nação brasileira. Mas, para isso, “é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana”, como dizia Ivan Lins! Precisamos da autoafirmação de nossa nacionalidade e de nosso caráter! Precisamos aprender a escolher o Certo, o Justo, o Ético, o Digno, o Caminho do Bem e da Igualdade. Enquanto admitirmos que os poderosos são melhores, que os políticos corruptos são inevitáveis, que a opção pelo agronegócio e pelo estigma de “celeiro do mundo” é o destino da Nação, não haverá possibilidade de mudar nosso destino, e nossos descendentes estarão condenados a viver na miséria, subjugados pela escória desse país! Nós não precisamos produzir 10 bilhões de galinhas para o mundo, nem manter um boi para cada hectare de nossa terra, enquanto milhões de seres humanos não têm uma residência digna, nem acesso à educação para seus filhos, nem mesmo saneamento básico, e muito menos comida saudável na sua mesa! Por que alimentar o mundo, se não alimentamos sequer nossas crianças?

Existem alternativas muito além do agronegócio. Ernst Grötsch demonstrou isso quando chegou ao Brasil e comprou 600 hectares de terra arrasada e transformou-a em uma floresta produtiva e rica em biodiversidade, em menos de dez anos! A Permacultura demonstrou isso, construindo casas de barro e fazendo a compostagem das próprias fezes para transformar a agricultura familiar em algo simples, fácil e barato! Os povos indígenas demostraram isso ao viver mais de dez mil anos sem interferência dos brancos invasores, antes de serem massacrados pelos colonizadores! Os escravos negros da África demonstraram isso ao sobreviverem a seus algozes, apesar de toda crueldade a que foram submetidos, preservando sua raça, sua cultura, sua língua, seus cânticos, suas religiões fantásticas e suas tradições milenares…

Por que não podemos fazer o mesmo, libertando-nos de nossos opressores, irmãos de nosso sangue, mas inimigos de nossos filhos e do futuro dessa Nação “abençoada por Deus e bonita por Natureza”?


João Carlos Figueiredo

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