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O olhar perplexo de um Poeta diante da Vida

João Carlos Figueiredo

Um escritor e uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: arte e foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte...

Alienação e governança ideológica

O diálogo impossível entre as forças retrógradas do fanatismo religioso e preconceituoso da extrema direita, e a civilização brasileira, tripudiada e enganada pelos falsos profetas do apocalipse. Autoritarismo, preconceitos e fanatismo serão as palavras de ordem desse novo período militar, onde quase uma dezena de generais estarão em ministérios, secretarias e, provavelmente, no segundo escalão de governo.

Na foto, a represa de Balbina, construída pelos militares durante a ditadura de 1964, e que causou o quase extermínio de uma das mais belas civilizações indígenas da Floresta Amazônica: os Waimiri-Atroari. Esses indígenas foram cruelmente assassinados a tiros, aos milhares, como alvos de um jogo sádico, pelos soldados responsáveis pela construção da hidrelétrica e da Rodovia BR-174 que liga Manaus/AM a Boa Vista/RR.


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Vivemos tempos estranhos, já dizia um ministro do Supremo Tribunal Federal, do alto de sua arrogância e coberto por sua toga negra e misteriosa... talvez quisesse apenas justificar suas decisões contraditórias. Mas, na essência, a frase faz sentido, embora com outras conotações menos comprometidas.

É possível supor que a palavra “estranho” seja consoante à alienação, uma vez que omite a reflexão acerca da responsabilidade do ser humano pelo que ocorre em terras brasileiras nesse momento crucial da vida democrática.

É estranho, por exemplo, que um fanático religioso tenha vencido as eleições com os votos das camadas supostamente mais “esclarecidas” da sociedade, quais sejam, pessoas de nível superior e com salários acima da média nacional.

É estranho que a candidata dos ambientalistas tenha sido massacrada com seus míseros 1% dos eleitores, depois de duas campanhas em que demonstrou a força dos intelectuais de esquerda em 2010 e 2014, tendo sido derrotada pela máquina de mentiras do partido dos trabalhadores. É estranho observar que, mesmo com a vitória iminente dessa figura exótica, as forças políticas menos radicais não tenham sido capazes de se unir para evitar o desastre maior.

Também é estranho saber que a religião passou a ter mais importância do que assuntos cruciais da sociedade, como educação, saúde e preservação da natureza, embora o Brasil seja, por tradição, um país religioso, seja qual for o significado dessa afirmação.

Porém, é sobre outro aspecto que pretendo refletir nesse momento de transição para uma nova administração menos liberal do que afirma, mais radical do que parece. Trata-se da “alienação cultural”, um fenômeno que se contrapõe à evolução da humanidade nos dias atuais. Nunca, na história dessa humanidade, o mundo teve tamanha facilidade de acesso às informações, e, no entanto, uma tendência fascista começa a ser determinante, justamente nas camadas mais jovens das sociedades ocidentais.

Aqui, esse fascismo adquiriu aspectos bizarros, tendo como protagonistas os evangélicos, fragmentados entre dezenas, senão centenas de “igrejas” e cultos disseminados por toda parte. Sem entrar no mérito da religião "de per se", mas, nessa ampla gama de “templos e profetas”, o enriquecimento ilícito predomina à pregação do evangelho.

A alienação seria a palavra para apropriar o domínio popular desse processo de ocupação da sociedade pelos assim autodenominados “bispos e pastores” dessa igreja. Com um exemplar “surrado” da Bíblia nas mãos, um alto-falante voltado para o público não “catequizado” e uma retórica sofrível, esses arautos do “Senhor” vociferam ameaças de segregação ao “fogo do inferno” àqueles que tripudiarem de suas palavras insanas e irracionais.

Mas não é apenas a religião que conduz à alienação. Não se trata de preconceito contra os evangélicos. Trata-se de um projeto de poder, uma estratégia de dominação da mente dos indivíduos, uma substituição de valores sociais e, sobretudo, ideológicos.

A junção de religião e militarização é tenebrosa, assustadora, muito mais perigosa do que a própria ditadura militar que permaneceu no poder por mais de vinte anos. Trata-se de uma transformação radical do pensamento contemporâneo.

O militar é treinado, doutrinado para enxergar, nos seres humanos, apenas duas categorias de pessoas: os “amigos” e os “inimigos”, aliados e oponentes, colaboradores e adversários. Para eles não existe uma gradação, um espectro de colorações ideológicas diversificado, com toda sua riqueza de pensamento.

O militar é treinado para a guerra, para comandar, para mandar e se fazer obedecer. É uma obsessão, uma “missão”, como eles próprios denominam seu trabalho e seu mister. Por isso, eles, os militares, são tão rígidos e inflexíveis. Não há espaço para divergências, argumentos e debates. Apenas existem ordens e o cumprimento delas, que não podem ser contestadas, por mais absurdas que pareçam.

Sabemos como é uma sociedade militarizada. Temos exemplos reais, como a Coreia do Norte, a Rússia e a China, sem nos esquecer que os Estados Unidos veneram as armas, e têm muito desse sentimento na sua formação histórica, razão pela qual provocaram e executaram quase todas as guerras regionais nos últimos setenta anos de história, sem falar de sua participação determinante na 2a. Guerra Mundial.

Pois bem, delineado o cenário atual, falemos da “governança ideológica”. O ministério formado pelo capitão, exonerado por indisciplina, consiste, basicamente, de quase uma dezena de militares e alguns radicais de extrema direita, aceitos pelos seus correligionários evangélicos das mais variadas tendências e “formação”.

Alguns temas estão sendo destacados pelos próximos ocupantes do Planalto Central, como a “escola sem partido”, a subserviência aos interesses norte-americanos, o pseudo-liberalismo econômico da “escola de Chicago”, o “intransigente” combate à corrupção, comandado pelo “intrépido” juiz Moro, o combate ferrenho às ideologias de esquerda e o atrelamento ainda maior (se isso fosse possível) aos interesses econômicos do agronegócio.

Portanto, a tal “governança ideológica” será o tema dominante nos próximos quatro anos. E, com ela, a alienação do povo brasileiro. Aqueles que não se identificarem com esse novo paradigma sofrerão suas terríveis consequências.

Por último, mas não menos importante, há que se considerar os impactos desse desgoverno para as futuras gerações. O que será de um país devastado pelo agronegócio, corrompido pelo fanatismo religioso, subvertido pelos que apoiaram incondicionalmente esse fascista?


João Carlos Figueiredo

Um escritor e uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: arte e foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte....
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