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O olhar perplexo de um Poeta diante da Vida

João Carlos Figueiredo

Um escritor e uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: arte e foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte...

Obscurantismo Medieval e Estado Laico

As primeiras manifestações ideológicas do "novo governo", materializadas nas nomeações para os Ministérios, apontam para um radicalismo extremo e fascista, que privilegia religiões retrógradas e pensamento medieval, declaradamente preconceituoso, machista, militarista e subdesenvolvido. Conquistas democráticas são ameaçadas por falsos filósofos do absurdo, que pretendem trocar os polos do extremismo de esquerda pela ultradireita conservadora.


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A decisão por instalar suas casamatas e canhões nos ministérios da Educação e das Relações Exteriores, através de escolhas irresponsáveis demonstram a incapacidade de enfrentar as forças reacionárias que levaram esse troglodita ao poder. Confundindo "valores familiares" com evangelização e criacionismo, o futuro governante tropeça na incoerência de sua ignorância intelectual, ameaçando desconstruir valores verdadeiros, como Democracia, Liberdade de Pensamento e de Expressão, Livre Arbítrio e Respeito pelas Minorias, para colocar habitantes dos porões do inferno ideológico em seu lugar.

O "novo" ministro da Educação não é um educador, muito menos isento de preconceitos. É um neófito despreparado para conduzir o país rumo ao futuro, pois mesmo antes de assumir já manifestou sua aderência incondicional às "teses" esdrúxulas do futuro inquilino do Planalto Central. Reformas exaustivamente debatidas nos fóruns competentes, como o Conselho Federal da Educação, estão ameaçadas de virar lixo inorgânico nos primeiros meses de gestão.

Ainda que se pretenda dar um crédito de confiança para esse mentecapto, fica muito difícil diante das escolhas descabidas. Trocar o professor Mozart Neves, ex-reitor da Universidade Federal de Pernambuco, ex-secretário da Educação do governo pernambucano e diretor do Instituto Ayrton Senna, uma referência em questões educacionais, por Ricardo Vélez Rodríguez, o colombiano vinculado à Escola de Comando e Estado-maior do Exército, favorável ao projeto Escola sem Partido e ideologicamente contrário ao “modelo atual de educação”, é tripudiar da inteligência nacional!

Quando as tais "Bancadas BBB" (da Bala, do Boi e da Bíblia) passam a determinar a um político fraco e despreparado os critérios que devem nortear suas ações, é porque o futuro do Brasil está definitivamente ameaçado. A histeria coletiva que conduziu esse irresponsável ao poder obscureceu também a mente dos brasileiros, que marcharam com seus slogans nazifascistas para as urnas e para o desastre intelectual que nos reservam os anos vindouros. Se ocorreu a surpresa da concentração de votos nesse energúmeno em estados mais desenvolvidos, do Sul e do Sudeste, entre os mais escolarizados e os mais ricos, cumpre avaliar o significado dessas eleições. Quais interesses estariam contemplados nessas castas sociais?

É evidente que, justamente esse segmento minoritário da sociedade manipulou a ignorância do povo, levando à discussão os projetos de dizimar as populações indígenas e quilombolas, devastar o Meio Ambiente e conceder apoio incondicional aos já poderosos setores do Agronegócio, da Mineração, das Madeireiras e das Empreiteiras de grandes obras da Amazônia, como estradas, empreendimentos imobiliários e gigantescas hidrelétricas. O que não está evidente para essas oligarquias dominantes é que, a prosseguir nesse plano maquiavélico, em menos de 50 anos o agronegócio estará desmantelado pela falta de água! O Brasil detém cerca de 12% de toda água do planeta, mas tanto os aquíferos subterrâneos como as águas de superfície das principais bacias hidrográficas brasileiras dependem do ciclo hidrológico da Amazônia. Com a devastação acelerada desse bioma toda essa água ameaça desaparecer, tornando o sul, o sudeste e o centro-oeste, áreas secas e impróprias à produção agrícola. E é justamente nessas regiões que se concentra o agronegócio.

Um governo responsável deveria considerar a origem de nossas riquezas e preservá-las para futuras gerações. Pode até parecer um "grande negócio" consumir toda essa riqueza em curto espaço de tempo, alimentando o caixa do governo e dando a impressão que a dívida pública está sendo paga. Porém, essa decisão é equivocada e levará o país, inevitavelmente, para a miséria. Não havendo mais a diversidade ecológica, não apenas a agricultura e a pecuária perecerão, mas todo sistema econômico ruirá, desprovido de nossas fontes primordiais de riqueza.

Paralelamente a esses aspectos de mais longo prazo, outra questão grave deverá ser avaliada: a privatização de nossas empresas estatais. Vender a Petrobras Distribuidora pode parecer um bom negócio, mas sem uma empresa estatal para regular os preços, estaremos à mercê das multinacionais e das pequenas distribuidoras de derivados de petróleo, cuja qualidade dos produtos é hoje sofrível e "batizada". O mesmo aconteceu com o sistema de telecomunicações na época de FHC. Se, por um lado, os telefones fixos ficaram quase de graça, a telefonia celular ficou nas mãos de grandes empresas internacionais, com um custo proibitivo.

Vale destacar que cada privatização deveria ser analisada por consultorias competentes para não incidir em erros como o da venda da VALE do Rio Doce. Na ocasião, foi vendida por pouco mais de 3 bilhões de reais. Porém, hoje, o lucro líquido dessa companhia (que devasta a Natureza e já causou grandes desastres ecológicos como o de Mariana) ultrapassa os 17 bilhões de reais, quase seis vezes o valor de venda! Somente suas reservas minerais, hoje, estão orçadas em 100 bilhões de reais! Hoje esta empresa tem um valor de mercado de 300 bilhões de reais! (dados do site da empresa: http://www.vale.com/brasil/PT/aboutvale/news/Paginas/vale-atinge-maior-valor-mercado-ultimos-sete-anos.aspx) Privatização de empresas não pode ser um mote de campanha política, principalmente de um neófito que chama seu ministro da economia de "Posto Ipiranga"! É necessário ter responsabilidade!

Finalmente, mas não menos importante, cumpre destacar que governantes são efêmeros, mas suas decisões podem impactar gravemente os destinos de uma Nação. Se hoje, esse bando de irresponsáveis escolheu um presidente incapaz de participar de um debate político, suas decisões poderão delinear o futuro mais remoto. A perda da biodiversidade impacta o Brasil, mas também o planeta. O abandono das populações indígenas e quilombolas, bem como a mercantilização de suas terras (que são da União), poderá ocasionar o desaparecimento de uma das culturas étnicas mais importantes do mundo! Se a mudança do sistema educacional for desastrosa, o futuro de nossos filhos estará seriamente comprometido, bem como do próprio país. Portanto, mesmo que a escolha infeliz já tenha sido feita, é preciso que a sociedade se articule, se mobilize e se prepare para resistir aos arroubos de um grupelho de evangélicos que pretende permanecer no poder por muitos anos, colocando outros seres ineptos no poder, como este que foi eleito. É preciso denunciar os desmandos e as decisões equivocadas para que sejam barradas antes que alterações profundas em nossa Constituição sejam definitivas e irreversíveis. O silêncio (e a culpa) agora não será só dos inocentes: será de todos nós.


João Carlos Figueiredo

Um escritor e uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: arte e foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte....
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