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O olhar perplexo de um Poeta diante da Vida

João Carlos Figueiredo

Um escritor e uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: arte e foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte...

Quem elegeu Bolsonaro?

A escolha de um novo presidente, que parecia ser a grande oportunidade de renovação dos quadros políticos brasileiros, acabou por se transformar em um pesadelo do qual seremos incapazes de sair, condenados a amargar um futuro incerto, que nos levará a um destino muito pior do que os 21 anos da ditadura sanguinária de 1964. Quem se responsabilizará pelas consequências advindas dessa decisão infeliz? Os partidos políticos? A população ignorante e vulnerável a falsos argumentos? A mídia irresponsável e mentirosa, ávida de propagar a ascensão do falso candidato "liberal"? Os empresários gananciosos e ávidos de lucro fácil? O próprio presidente eleito, incapaz até de compreender a dimensão do cargo que assumirá sem qualquer preparo ou competência?


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Passado o impacto inicial da eleição de Bolsonaro, resta-nos avaliar o processo que levou ao poder elemento tão nefasto à Democracia, bem como as razões que conduziram 47 milhões de pessoas a votar no pior candidato que se apresentava para a escolha popular. Afinal, foi pública e notória sua relação com a extrema direita, com o fascismo, com o ódio e a violência, com a misoginia, o preconceito e a falta de comprometimento com os princípios fundamentais de Liberdade e Justiça Social que permearam os últimos 30 anos da Nova República, cujos alicerces se fundaram sobre os escombros da ditadura militar de 1964-1985, e que tantos traumas e sofrimentos causou ao Povo Brasileiro.

Não se trata de encontrar culpados, mas compreender esse fenômeno bizarro, que privilegia a personagem mais simplória que já percorreu as alamedas da Democracia rumo ao Palácio do Planalto, sem que ninguém soubesse quem realmente era essa caricatura de político, sem história e sem obras que justificassem a alcunha de MITO. Por que as minorias mais maltratadas pela vulgaridade das manifestações dessa figura grotesca optaram por votar nele em vez de escolher qualquer outro candidato? Como compreender que um negro, um quilombola, um indígena, uma mulher escolheriam essa figura ridícula, quando tantos outros personagens muito melhores cultural, moral e eticamente se apresentavam na disputa pelo cargo máximo da República brasileira?

Aparentemente, são indagações inexplicáveis, mas existem, de fato muitas razões para que as vítimas se identifiquem com seus algozes. A literatura está repleta de obras que tratam dessa suposta aberração, conhecida como "Síndrome de Estocolmo", "o nome dado a um estado psicológico particular em que uma pessoa, submetida a um tempo prolongado de intimidação, passa a ter simpatia e até mesmo amor ou amizade perante o seu agressor. De uma forma geral, estes processos psíquicos inconscientes e sua relação entre vítima/agressor, podem perfeitamente ser entendidos em uma ampla gama de contextos onde a situação de agressor e abusado se repete. Inclusive no caso de mulheres que sofrem agressão por parte dos cônjuges e mesmo tendo recursos legais e apoio familiar para abandonar o agressor, ainda persistem em conviver sob a atmosfera de medo e violência." [Wikipedia]

Não nos interessa as questões psíquicas que levam a esse comportamento, mas sim esclarecer em que circunstâncias isso se deu nessa curtíssima campanha eleitoral, repleta de anormalidades e dissonâncias com o que estávamos habituados a presenciar em todas as eleições dos últimos 30 anos, desde a promulgação da Constituição Federal em 1988. Afinal, passáramos pelo trauma de vinte e um anos de ditadura militar, durante os quais as liberdades democráticas foram aniquiladas, e a tortura, os assassinatos, os desaparecimentos, o terror e a violência infundada se tornaram regra da sociedade, referendadas, igualmente, por segmentos fascistas da própria população, que legitimara, de certo modo, os extremismos das ações criminosas das Forças Armadas, seja no CENIMAR, no DOI-CODI ou em outras outras "casas da morte", onde tantos seres humanos brasileiros foram cruelmente torturados e assassinados em nome da "vontade" de uma minoria que havia usurpado o poder.

Vamos, portanto, aos fatos. O que levou a população brasileira, por mais ignorante que seja, a escolher esse verme para presidente do Brasil? Suas manifestações públicas, fartamente divulgadas pelas redes sociais, pelos vídeos do Youtube, pelas entrevistas do candidato, por sua atuação na Câmara dos Deputados, pela sua "homenagem" a um torturador não podem ser contestadas. Sua história de vida o condena! No entanto, milhões de brasileiros engoliram seus falsos argumentos e o levaram à vitória, e isso é inquestionável. Resta-nos avaliar as causas dessa escolha, uma vez que esse resultado é definitivo e causará danos irreversíveis nas conquistas sociais, políticas, ambientais e econômicas de nossa sociedade.

Em primeiro lugar, cabe-nos destacar a longa trajetória política desse candidato, que permaneceu por 28 anos na Câmara dos Deputados, sem que apresentasse quaisquer propostas relevantes para a Nação Brasileira. Mesmo assim, ele teve toda a liberdade de preparar sua candidatura por quatro anos, sem que qualquer partido político se manifestasse contra esse movimento radical para a extrema direita nazifascista, ou tentasse barrar suas pretensões antes que ele se tornasse um monstro indomável. Ele teve toda a liberdade de construir, junto a seus filhos de igual caráter, sua candidatura vencedora. Portanto, todos os partidos políticos podem ser considerados corresponsáveis por sua eleição.

A decisão do PT de Lula de postergar até o último momento a candidatura do líder máximo do petismo brasileiro foi a segunda irresponsabilidade que levou Bolsonaro ao poder. Se Lula tivesse delegado a Haddad suceder à dupla Dilma/Temer em tempo hábil, talvez não tivéssemos chegado ao segundo turno com uma situação plebiscitária entre dois extremos ideológicos, como aconteceu. Haddad, até o último momento de decisão do Supremo Tribunal Federal, ainda discursava em nome de Lula, inclusive usando a máscara do ex-presidente, e abstraindo-se de sua própria identidade para personificar o prisioneiro de Curitiba, fragilizando-se diante de seus opositores, e deixando todos os flancos da batalha desguarnecidos para que o inimigo se infiltrasse e atacasse impiedosamente sua candidatura.

Por outro lado, os demais candidatos da esquerda brasileira se fragmentaram como sempre, perdendo a capacidade de formar uma frente de reação ao fenômeno inexplicável que se propagou por toda a sociedade em pouco menos de dois meses. Se as esquerdas tivessem percebido, com a devida antecedência, o perigo dessa candidatura tresloucada de um fascista, poderiam ter solidificado uma aliança intransponível para essa aventura irresponsável do povo brasileiro, e não o fizeram.

Mas as forças reacionárias do famigerado Centrão aniquilaram as últimas possibilidades de reação. Mesmo tendo quase a metade do tempo de televisão para veicular sua propaganda, Alckmin e seus aliados menosprezaram o poder das redes sociais, bem como da avassaladora onda de Fake News que, como um tsunami, arrasou todos os candidatos e quase levou à vitória, ainda no primeiro turno, o candidato da extrema direita. Surpreendentemente, as mulheres, os gays, os indígenas e os negros colaboraram fortemente para que tal candidato quase levasse a melhor ainda na fase inicial da disputa. Foi por muito pouco que ele não encerrou a luta no primeiro assalto.

No entanto, já no segundo turno, derrotadas as demais candidaturas da esquerda e do centro, ninguém fez o menor esforço para impedir que o candidato fascista chegasse ao poder. Muito pelo contrário, a REDE de Marina Silva se omitiu no primeiro instante, Ciro Gomes fugiu para a Europa, Alckmin se contentou com a derrota e deixou que seus eleitores escolhessem livremente seu novo candidato, Amoêdo, que prometia ser o NOVO, entregou-se a Bolsonaro e Álvaro Dias reforçou sua opção contrária ao PT, e Haddad, salvo pelo apoio recebido de Guilherme Boulos, ficou sozinho na disputa. Foi a surpreendente atuação da população progressista que esboçou a maior reação e quase reverteu, nos últimos instantes, o resultado final das eleições. Mesmo assim, 11 milhões de votos separaram os dois candidatos, uma vitória incontestável, mesmo com as falcatruas dos filhos de Bolsonaro, que montaram uma verdadeira metralhadora giratória para propagar notícias falsas pelas redes sociais, sem que a Justiça Eleitoral tomasse qualquer providência.

Mas falta uma análise final: o que nos espera nos próximos quatro anos, comandados por um capitão reformado que manda em um general, seu vice, e em outros generais que comporão sua equipe de governo? O que dizer de um governante que não entende nada de economia, de educação, de saúde, de agricultura, de meio ambiente, de transportes, de infraestrutura ou de qualquer outra área de responsabilidade de seu governo? Como esse energúmeno irá governar? Como ele irá enfrentar os gravíssimos problemas do Brasil, se nenhuma experiência administrativa consta de seu mirrado e insignificante currículo? O que acontecerá com a Floresta Amazônica, colocada à mercê do agronegócio, das mineradoras e das madeireiras ilegais? O que acontecerá com os Povos Indígenas e Quilombolas, vítimas de 500 anos de perseguições e genocídios, da ganância dos invasores de terras e da falta de pudor dos governantes? Qual o futuro do Brasil se essa corja de devastadores permanecerá por pelo menos quatro anos disseminando o terror entre as minorias da sociedade?

Algumas evidências já podem ser esclarecidas, quando vemos a arrogância do futuro ministro da economia, que concentrará em sua pasta quatro áreas distintas da Administração Federal: Fazenda, Planejamento, Indústria e Comércio! Outra aberração é colocar um ex-astronauta para ministro da ciência, tecnologia e educação superior. Uma terceira barbaridade é a junção de duas áreas de interesses antagônicos, Agropecuária e Meio Ambiente, reunidos sob o comando de um ruralista do agronegócio, cujo único interesse é propagar a devastação pelo que resta do Cerrado e da Amazônia! Será o início do fim das maiores riquezas do Brasil!

Para aqueles que não acreditam nas evidências, resta-me dizer que a Amazônia possui cerca de 12% de toda água potável disponível para consumo humano do planeta, e seria, certamente, a maior riqueza para os países que a possuem, quando a água se tornar insuficiente para matar a sede de 10 bilhões de seres humanos! As guerras não se farão por petróleo, mas pela ÁGUA! E teremos acabado com todas as nossa reservas naturais para saciar a sede por dinheiro dos bilionários do agronegócio! Vale ressaltar que essas riquezas não são renováveis! O que se perder, nunca mais será recuperado! Essa "aventura" irresponsável custará o futuro de nossos descendentes...


João Carlos Figueiredo

Um escritor e uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: arte e foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte....
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