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O olhar perplexo de um Poeta diante da Vida

João Carlos Figueiredo

Um escritor e uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: arte e foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte...

Envelhecer

Observamos nossa própria existência pela perspectiva do cotidiano, sem nos apercebermos de que cada dia representa o aproximar-se do destino final. No entanto, acompanhando a vida dos artistas temos outra compreensão do tempo, pois neles identificamos o envelhecer mais do que em nós mesmos...


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Estava eu a assistir uma entrevista com o ator Armando Bogus na TV Cultura de São Paulo, quando percebi o quanto ele envelhecera... quantos trabalhos vi desse ator, com o passar dos anos, sem notar que eu também envelhecia!... e não era apenas Bogus: toda minha geração ficava, a cada dia, mais no passado! Já se disse, certa vez, que a vida é uma sucessão de perdas, algumas irrelevantes, outras profundas, algumas que nos deixam cicatrizes que jamais se fecharão...

Vejo, em Bogus, meu próprio semblante: as rugas, as manchas de senilidade, os olhos caídos e inexpressivos, reflexos do passar dos anos, das desilusões, do inexorável ocaso que se aproxima. No passado, as pessoas mais velhas costumavam olhar o obituário, à procura dos amigos e conhecidos que partiram. Hoje, é nos artistas que percebemos o quanto nós mesmos estamos saindo de cena, deixando de ter os holofotes apontados para nossa presença aqui na Terra...

É triste constatar que estamos nos afastando do palco da vida, enquanto novos atores entram em cena como protagonistas. E percebemos isto mesmo com as pessoas queridas à nossa volta: elas já não se importam com as ideias que tanto defendemos nos momentos mais difíceis da vida quando éramos nós os protagonistas! Agora somos apenas coadjuvantes, velhos alijados dos papéis principais, como se fosse uma generosidade nos permitirem simplesmente atuar...

Em nossas memórias ainda estão os sucessos e fracassos dos quais tivemos o privilégio de participar, mas o mundo se transformou mais rápido do que fomos capazes de compreender, e agora somos apenas um estorvo, um peso para nossos filhos, seres anacrônicos e descartáveis, tentando transmitir a esses jovens as experiências que nos modificaram e que, de algum modo, influenciaram as transformações que hoje determinam o destino daqueles que nos ignoram...

Isso é envelhecer... já não fazemos a diferença nas decisões desse “admirável mundo novo”... já não somos essenciais para que a vida prossiga em suas transformações... e de nada servem nossas experiências passadas, pois nosso tempo passou e nunca mais seremos os protagonistas da história, pois envelhecer é conformar-se com a morte, cada vez mais próxima...

Hoje completo 69 anos de minha existência, e não vejo razões para comemorar...


João Carlos Figueiredo

Um escritor e uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: arte e foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte....
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