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O olhar perplexo de um Poeta diante da Vida

João Carlos Figueiredo

Um escritor e uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: arte e foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte...

Opulência e Miséria - a História da Humanidade

A História da Humanidade não é apenas a história dos vencedores, como ficou registrado nos livros, mas também a história dos derrotados, dos escravizados, da opulência e da miséria. Mais do que isso, é a história das três forças que movimentaram o ser humano desde que se estabeleceu no mundo: a Aristocracia, as Religiões e o Poder Militar. Com eles, a maioria absoluta da humanidade foi escravizada e submetida às mais cruéis e degradantes condições sub-humanas de que se tem notícia.


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Nos primórdios da vida humana na Terra, há cerca de um milhão de anos, os primeiros hominídeos eram semelhantes aos demais primatas, nômades, caçadores, coletores e selvagens, lutando apenas pela própria sobrevivência. Aos poucos, porém, se juntaram em grupos para enfrentar as adversidades de um mundo selvagem, cuja única regra era permanecer vivo, reproduzir-se e assegurar a continuidade de cada espécie. Ainda que não se saiba exatamente como e onde essa espécie se diferenciou dos animais, o certo é que, cerca de 10.000 anos atrás, esses grupamentos de hominídeos começaram a desenvolver técnicas que os diferenciaram dos outros seres vivos, como a produção do fogo, o uso de ferramentas e a fixação no campo através da criação de animais e do cultivo dos próprios alimentos.

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As primeiras grandes civilizações remontam a cinco mil anos atrás, quando gregos, egípcios e assírios começaram a construir seus impérios. Durante os milênios que se seguiram, um padrão de organização social se formou, com base nas hierarquias do poder, constituídas de uma casta política, militar e religiosa, que assegurava suas origens divinas e seu direito sobre a vida e a liberdade dos demais seres humanos, dominados por eles e submetidos às mais perversas condições de vida. A escravidão era uma regra, assim como as guerras de conquista e o mito de que os sacerdotes e os nobres tinham sua origem nas hostes divinas. Os escravos tinham, por regra, duas procedências: entre os cidadãos de segunda classe, endividados e submissos aos poderosos, e os povos de nações conquistadas nas guerras. Para as mulheres, era reservada apenas a posse de seus senhores e a submissão aos seus desejos.

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Desde então, muito pouco mudou na História do Mundo: Grécia, Egito, Roma, Babilônia, Assíria, Fenícia, Maia, Inca, Asteca, Judeia, Índia, China... na Europa, nos dois mil anos que se seguiram, surgem os Feudos Medievais, os Imperadores e os Reis, os Czares, o Clero e os Papas, todos apoiados pelo poder dos militares e das suas armas, ou pelos poderes celestiais das religiões. As classe dominantes usufruíam das riquezas e exploravam a miséria da população semi-escravizada, em uma sociedade impermeável às mudanças de substratos entre seus membros menos favorecidos pela sorte. Sempre um pequeno grupo dominante, detentor das riquezas e do poder, e uma imensa maioria de explorados e abandonados pela sorte, assegurando que essas minorias permanecessem ricas e poderosas.

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O que mudou depois de tantos séculos? Depois do período medieval, o mundo foi ocupado pelos poderosos Estados-Nação europeus, que dominaram a África, a América e o Oriente Médio, além do Sudeste Asiático e a própria Ásia continental. Esse domínio prevaleceu por vários séculos, passando pelas Reformas Religiosas, pelo Iluminismo, pela Revolução Industrial, enquanto a maioria absoluta dos povos era seduzida e submetida a esse poder desigual e injusto. Porém, a partir do século XIX, uma nova doutrina despertou os trabalhadores à consciência de sua situação degradante, mobilizou suas lutas e organizou os operários a enfrentar seus patrões em busca de condições mínimas de dignidade e respeito: a doutrina de Marx e Engels colocou fogo na Rússia Czarista, e, assim como a Revolução Francesa, decapitou a nobreza e deu início à Democracia Socialista. Porém, esse sonho de liberdade durou pouco, pois está no sangue do ser humano dominar seus semelhantes, escravizá-los e conservá-los na ignorância e na miséria.

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E por isso, apesar de grandes conquistas, a humanidade continua estratificada e cristalizada no mesmo tripé de poder que edificou o seu passado: a nobreza das cortes foi substituída pela classe política corrupta, pelo poder militar dos exércitos, e pelas religiões retrógradas e anacrônicas, em um mundo caracterizado pelas novas tecnologias e pela comunicação instantânea que eliminou distâncias, mas não mudou a mentalidade do povo, agora escravizado pela ignorância e pela subserviência. Novos ídolos populares alardeiam suas "teses teocêntricas", inconcebíveis para qualquer cidadão que tenha um mínimo de cultura e racionalidade, enquanto a mesma tecnologia que encurtou as distâncias afastou o povo de suas raízes, calou sua consciência e subverteu seus valores, eliminando sua capacidade de análise e reflexão a respeito desse admirável mundo novo das Ciências, sepultou a Filosofia e calou os espíritos inquietos que revolucionaram o mundo no passado.

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Por quanto tempo a civilização ainda será sustentada pelas hordas de trabalhadores para manter tais elites no poder e na opulência, enquanto o povo permanece na escuridão e na ignorância de sua própria capacidade de mudar tudo, decapitando seus governantes e estabelecendo uma verdadeira Democracia? Provavelmente pelo resto dos dias em que essa sociedade apodrecida e caquética reinar neste planeta fadado ao desaparecimento. Quando os recursos naturais forem extintos pelo consumo desenfreado de tais minorias, quando a Terra não mais sustentar sua população desmesurada, quando a água, essência da vida, for insuficiente para saciar a sede da humanidade, provavelmente a Natureza dará a resposta aos seres humanos, alijando-os definitivamente da face da Terra... e o equilíbrio se restabelecerá. Talvez uma nova civilização apareça daqui a milhões de anos, ou talvez esse planeta seja extinto com todo sistema solar... mas em outros mundos pode ser que uma civilização viável, sustentável, possa ter encontrado um modo de viver justo, digno, razoável, equilibrado, pacífico e harmonioso... talvez, no entanto, e isso é mais provável, o surgimento da inteligência seja o fator primordial para que os mundos se destruam antes que os seres se convençam de sua igualdade diante dos demais seres vivos desse planeta...


João Carlos Figueiredo

Um escritor e uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: arte e foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte....
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