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O olhar perplexo de um Poeta diante da Vida

João Carlos Figueiredo

Um escritor e uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: arte e foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte...

Civilização tóxica

Em 10.000 anos de civilização humana ainda não aprendemos a viver em paz, a sermos solidários, a respeitar a diversidade cultural, étnica e religiosa, a preservar a Natureza, a assegurar que cada ser humano tenha condições satisfatórias e dignas de vida... Nosso tempo está acabando neste planeta, e não há razões para acreditar que seremos capazes de sobreviver à hecatombe que se aproxima...


Thumbnail image for A0E69C2D-5F41-43FE-B6BA-69019DB0E9E9.jpeg Jequitibá de 3.000 anos no Parque Estadual de Vassununga, Santa Rita do Passa Quatro, SP.

Seu fim está próximo e não se trata de mais uma profecia. Apenas a constatação do óbvio que se apossou desse pequeno e insignificante mundo.

Não sei quem matou Deus, ou se, de alguma forma, ele jamais existiu, mas estamos sós como nunca, nesse vazio espectral do Universo.

De repente, a Humanidade se tornou desprezível, fria, mesquinha, irrelevante, sombria, nefasta, pequena demais para se fazer existir.

Matamos nossas florestas, as árvores, os animais, os regatos, as belezas desse mundo, o prazer de apenas permanecer na chuva, sentindo seu gotejar inebriante, a alegria de estar, simplesmente, abandonado aos pensamentos e reflexões embaixo de uma sombra às margens da cachoeira… só nos restou um imenso deserto, árido e estéril.

Banalizamos o Amor e as Amizades… destruímos a Família pelo isolamento das tecnologias avassaladoras do cotidiano, e sepultamos nossos valores mais perenes, para nos transformarmos em mortos-vivos, seres ensimesmados e ausentes em pensamento, daqueles que nos são queridos…

Não há mais silêncio, nem escuridão. Não há privacidade, nem a solidão suave do meditar, do refletir, do emanar boas energias ao Universo… Desapareceram a gentileza e a emoção. Restou apenas a profunda e inexorável Imensidão do Nada a permear nossas vidas…

As ideologias, as crenças, as histórias contadas no recôndito do lar ficaram no passado inexpugnável das memórias esquecidas… as doces lembranças se tornaram irrelevantes, pois tudo agora é igual, medíocre, mesquinho e fortuito, irrelevante e efêmero.

Viver deixou de ser perigoso, surpreendente, fantástico… tudo se transformou em monotonia, mesmice, desgraça, insanidade… e só nos resta deitar e morrer, inúteis e desamparados.

No horizonte ficaram apenas a fumaça, a fome, a morte, o terror, a miséria, o ódio, a ganância, e a infinita devastação das paisagens amarelecidas…

Um imenso e contínuo Dèja Vu se apossou desse planeta repleto de zumbis, vagando inconscientes, atônitos, perdidos na sua solidão sepulcral.

Tudo agora é inútil e desnecessário… até mesmo o interminável processo da vida: nascer, crescer, viver, procriar e morrer, pois o Ser Vivente, que existia em cada um de nós, se apequenou e desapareceu na própria insignificância do existir.

Restaram, tão somente, os frangalhos despedaçados da vida que se esvai, rapidamente, no limiar desconhecido desta Terra agonizante.

O que fazer, então, senão esperar, desalentado, que o Fim se manifeste, aqui e agora, eliminando o sofrimento e sepultando a Humanidade?


João Carlos Figueiredo

Um escritor e uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: arte e foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte....
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