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O olhar perplexo de um Poeta diante da Vida

João Carlos Figueiredo

Um escritor e uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: arte e foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte...

Uma Longa Jornada

Muitas são as realidades desse mundo, mas poucos são os caminhos reservados àqueles que ultrapassaram os Portais da Sabedoria... árduos são esses caminhos, e jamais haverá recompensas... ainda assim, uns poucos perseveram e vislumbram, por um momento, a Verdade...


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Dizia a mim um velho um Sábio: "meu filho, quanto mais alto você estiver na sua escalada das Montanhas do Conhecimento, menos sábios, menos espíritos, menos seres iluminados estarão ao seu lado para lhe socorrer... ao escolher seu caminho, lembre-se: ele não tem retorno, e não leva à Felicidade, mas apenas à Dor e ao Sofrimento..." Esse sábio era meu pai, o Ser Humano mais sábio e encantador que encontrei nessa vida... e como eram proféticas as suas palavras... mas talvez ele não soubesse que esse pequenino planeta reservaria novas surpresas àqueles que seguiram tais conselhos... pois, desde que ele se foi para sempre, esses mesmos caminhos se tornaram cada vez mais áridos, mais vazios, mais desprovidos de sentido, menos suportáveis, mesmo para aqueles que estavam na Senda do Saber... para minha surpresa, ao olhar para trás, percebi que não havia mais sinais do percurso que trilhei... apenas a escuridão e o silêncio...

São muitos os caminhos da Sabedoria, mas todos fluem para a mesma trilha, cada vez mais estreita, mais íngreme, mais vazia e silenciosa... pois ninguém, nem mesmo os que acreditam ser iniciados ou "eleitos", podem se comunicar, mesmo que por um instante. Dizia um Mestre Zen: "Quando o discípulo está preparado, o Mestre aparece"... porém, o Discípulo jamais estará preparado, nem o Mestre aparecerá em seu auxílio ou redenção... pois infinitos são os Caminhos da Iluminação, mas igualmente infinitos são os caminhos da perdição... às vezes, é como se a Mente se abrisse por alguns segundos, e mostrasse uma pequena fresta, pela qual a Luz revelasse vultos, personagens, sábios (?)... mas fora apenas um aviso, dizendo "não estás sós"... para logo depois, desaparecer de nossas mentes...

A vida é uma ilusão... para aqueles que não suportam a Verdade, existem as religiões, criações humanas para tornar a vida suportável, mas não existe salvação... não existem Livros Sagrados... não existem Deuses, generosos ou vingadores... somos tão-somente o átomo de um grão de areia, levados pelo vento nos desertos desse mundo insano e sem destino... e, mesmo assim, a partir do momento mágico da concepção, somos atirados nesse turbilhão a que chamamos "VIDA", e levados pelo acaso, pelo improvável futuro, pelos túneis do tempo que só conduzem à morte, inexorável, definitiva, o limbo onde aquele ser que pulsava dentro de cada um de nós, se desprende e desaparece para sempre...

Ainda assim, nessas poucas décadas de nosso breve tempo terrestre, temos a ilusão do Eterno, a esperança de encontrar o Paraíso, a convicção de que, no último instante de nossas vidas inúteis, poderemos pedir perdão por nossos erros e "pecados" para uma divindade todo-poderosa, cujo único propósito seria o de nos redimir de todo sofrimento inútil que sentimos por todos os dias, meses, anos, décadas de existência... durante os quais tivemos a tola impressão de que éramos, minimamente, importantes, ou relevantes nessa imensa ilusão do EXISTIR...

Mas a longa jornada se inicia quando deixamos de existir, nas mentes daqueles que ficaram, nas lembranças dos que por nós passaram, como fogos fátuos despregados dos pântanos por uma estranha química do absurdo, exalando a essência final que nos restou da vida... e mesmo essa tênue lembrança se esvai, e nada permanece senão a ausência, cada vez mais frágil do passado que escrevemos em vida... mesmo os mais famosos, mesmo os mais sábios, mesmo aqueles seres iluminados que nos mostraram o Caminho, também desaparecerão... e nada restará daquele lampejo de vida que, por um mistério do Universo, surgiu do amor de um reles casal...


João Carlos Figueiredo

Um escritor e uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: arte e foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte....
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