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O olhar perplexo de um Poeta diante da Vida

João Carlos Figueiredo

Um escritor, uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: Arte e Foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte...

Reflexos de uma vida

Uma vida longa, plena em aventuras, rica em experiências e ponteada de recordações... seria algo assim meu epitáfio, embora não pretenda atirar meus restos mortais num cemitério... prefiro que lancem minhas cinzas em um regato tranquilo, que percorrerá seus caminhos, levado pelas águas até o mar...


Família Balieiro Figueiredo.jpg Foto: Minha família em Dracena (Dinah, Ulysses, Maria do Carmo e eu)

Nasci em uma pequena cidade do interior paulista, da qual nada me lembro, pois de lá saí ainda sem saber o que me esperava nessa longa jornada da vida. Cresci em Tupã e Dracena, lá nos limites do meu mundo, onde havia um grande rio, o Paraná, que percorre quase cinco mil quilômetros desde sua nascente, nas divisas dos estados de São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul, até desaguar no estuário do Prata, entre o Uruguai e a Argentina. Naqueles tempos ainda se encontravam pegadas de onças nas margens do rio, em Panorama, e uma aldeia indígena em seu estado primitivo, do outro lado de suas águas. Talvez, nessas lembranças difusas de minha infância já houvesse a alma de um cigano, o espírito de um aventureiro e a vocação de um indigenista...

Os anos passam depressa, e nesse torvelinho fui levado a conhecer dezenas de cidades, vilarejos, metrópoles e aldeias, com seu povo encantado, mas também com a maldade que reside nos corações humanos. Minha personalidade foi sendo moldada pela convivência entre pessoas simples do interior e as avenidas frenéticas das grandes cidades, entre as mentes ingênuas dos caboclos e ribeirinhos, e a astúcia dos executivos e empresários das grandes organizações. Certamente, fui contaminado por esse cadinho de emoções, lutas, disputas nem sempre leais, desafios mortais e ambições desmesuradas... no entanto, apesar de tudo, sobrevivi.

Guimarães Rosa teve a lucidez do gênio ao afirmar, em sua obra monumental "Grande Sertão: Veredas": "Viver é muito perigoso... Porque aprender a viver é que é o viver mesmo... Travessia perigosa, mas é a da vida..."! Ainda que sobrevivendo às tentações e desafios desse mundo, nosso espírito acaba por se contaminar pela maldade dos homens, sempre alertas aos "vacilos" daqueles seres de alma pura e ingênua... num dado momento, "caímos na realidade do mundo" e nos embebedamos dos "prazeres da vida" nas grandes sociedades dos "tempos modernos"... pouco nos resta, senão olhar para trás e tentar renascer...

Nessa vida, poucas vezes temos a lucidez de decidir os destinos da existência, pois nunca estamos prontos para os desafios que se colocam em nosso caminho ao longo da jornada... viver não é apenas perigoso, mas um verdadeiro terreno minado onde podemos perder a inocência, senão a própria vida... minha avó viveu parte de sua existência em uma fazenda, quando ainda havia escravos, e os senhores de engenho eram "generosos" por deixá-los viver. Uma vez ela nos contou que chovia a cântaros, e a enxurrada levava consigo as árvores, a terra, os animais... ela apenas olhava pela janela e via aquele cenário de horror... muita gente morreu, e seus corpos não se distinguiam dos bichos, rolando nas águas barrentas, que mais pareciam o fim do mundo para aqueles que sobreviveram à tormenta... eu era muito pequeno quando ela descreveu para nós aquela cena digna de Noé... mas pelas suas palavras revivemos o terror daqueles dias...

Presenciei outras tempestades, algumas às margens do rio Paraná, a estrada barrenta, os carros atolados, o rio subindo perigosamente em nossa direção... outras vezes, nas cidades onde morei na infância, quando as chuvas carregavam as pedras dos paralelepípedos que cobriam as ruas, deixando atrás de si a destruição, o medo e o pavor, típicos das crianças, para quem, nesse mundo, tudo é enorme, gigantesco, assustador... já vi telhados e varais cheios de roupas sendo levados pelos temporais, deixando as casas, as escolas, tudo destruído à nossa volta... essas cenas povoavam nossas mentes infantis...

Mas o tempo passa, e com ele, a nossa infância e ingenuidade. Talvez aquelas cenas de horror não fossem tão assustadoras para os adultos; talvez tudo tenha se passado em nossas mentes ingênuas; mas seja como for, cada ser humano constrói o arcabouço de seu conhecimento entre fatos e imaginação, misturando o real e o imaginário, mapeando suas sinapses nesse cadinho de emoções, de verdades e sonhos, de fatos da vida real e construções mentais...

Naqueles dias era natural o bullying entre as crianças, o preconceito entre os adultos e a mentira, como é hoje, entre os políticos e as pessoas do mal que povoam esse mundo dos homens... no entanto, as crianças permaneciam como tais por muito mais tempo, com sua ingenuidade e pureza da alma, só se contaminando quando os pais já não eram mais capazes de impedir que elas tivessem contato com a realidade nas escolas, nos bailes de juventude, nos encontros furtivos...

O tempo passa muito lentamente quando somos apenas crianças. No entanto, nossa percepção dos anos se acelera aos poucos e, quando percebemos, já crescemos, terminamos os estudos, entramos no mercado de trabalho, assumimos responsabilidades, geramos nossos filhos... e, quando estamos distraídos, a vida passou por nós e levou todos os nossos sonhos e ilusões... mesmo sem compreender completamente, assumimos responsabilidades e nos tornamos adultos, depois veio a maturidade e a velhice... "o tempo não para", já dizia o poeta. Porém, não nos apercebemos desse fato antes que se torne tarde demais... envelhecemos, perdemos a beleza do corpo e do espírito, fomos deixados de lado ou para trás! Já não compreendemos o mundo que nos cerca, repleto de mentiras, falsidades, hipocrisia, ódio, crueldade...

Hoje tenho 70 anos e farei mais um aniversário neste próximo domingo, mas ainda não perdi a vontade de lutar, mesmo sabendo que minha mente e meu corpo já estão em processo degenerativo irreversível... não é o início do fim porque o fim começa a acontecer quando nascemos, mas é a constatação de que somos totalmente desnecessários na Terra, que já tem quase cinco bilhões de anos, enquanto os humanos surgiram apenas há míseros quinhentos mil anos, os Neandertais! Porém, há um milhão de anos já existiam "hominídeos" que se diferenciaram dos macacos e deram início à tal "evolução" daqueles que viriam para destruir esse planeta, como acontece nos dias atuais... já estamos quase conseguindo...

Mas esse artigo não é para criticar a vida humana, por mais que isso me incomode, mas para descrever uma vida comum, repleta de aventuras, de sonhos e de lutas, mas igual à de todos os seres humanos desse pequeno planeta. Não deixarei um epitáfio, como cheguei a insinuar, pois espero que aqueles que me amam não deixarão meu corpo apodrecer debaixo de uma lápide em qualquer cemitério por aí... este é o meu centésimo artigo nesta revista Obvious, e quero deixar apenas meu testemunho de que, apesar de tudo, a vida vale muito a pena, não fora por nós, seria pelos nossos filhos, a verdadeira herança que deixamos para trás, nos rastros que marcaram nossa trajetória nesses curtos anos de vida...


João Carlos Figueiredo

Um escritor, uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: Arte e Foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte....
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