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O olhar perplexo de um Poeta diante da Vida

João Carlos Figueiredo

Um escritor, uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: Arte e Foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte...

Entre teias, caminhos e labirintos

A partir do nascimento, passamos a ter a percepção do nosso universo. Gradualmente, essa percepção se transforma em conhecimento, na medida em que nossas vivências e aprendizados transmudam a compreensão de tudo que nos envolve e do que dependemos para sobreviver e crescer. Como seres humanos, somos o epicentro desse universo particular, que se expande na medida de nosso interesse, aprendizado e evolução. Alguns se tornam reféns de crendices, ideologias e religiões, acabando por permanecer em um mundo obscuro, tenebroso e insensato. Outros, atiram-se à aventura de viver, aprender e crescer sem limitações ou preconceitos. Estes são os eleitos, não por um deus qualquer, mas pela vida, ainda que efêmera e ilusória...


DSC_3003.jpgCaverna em Terra Ronca, Tocantins, julho de 2012 Foto: João Carlos Figueiredo

Ainda pequenos, somos parte dessa célula familiar: pai, mãe e filhos. Aos poucos, fazemos amizades, encontramos colegas de escola e percebemos que o mundo não era tão simples como imagináramos. Então, começamos a qualificar as pessoas desse relacionamento, entre boas e más, entre amáveis e arredias, entre iguais e desiguais... neste momento, estamos inseridos em nosso primeiro microcosmo, com suas qualidades e defeitos, alegrias e tristezas, amor e ódio... nosso pequeno mundo ainda não se apercebeu do imenso Universo sobre nossas cabeças. Nem mesmo a atmosfera nos pareceu tão próxima a ponto de pertencer a nosso mundo...

Após sete anos de nossos primeiros estudos somos expostos a outras realidades, às quais nunca nos conectamos seriamente... nem o passado ainda existe, pois nos recusamos a ver o mundo sem a presença daqueles que aprendemos a amar e confiar... porém, o tempo é cruel e não pertence a nós, reles mortais, e precisamos nos desapegar de nossos avós e tios, que se foram antes de compreendermos as Verdades da vida... soubemos que houve uma longa história antes de nós, desde que o homo erectus surgisse na Terra... depois soubemos que eles foram os últimos habitantes desse pequeno planeta, e que durante milhões de anos a vida evoluiu dos oceanos para a terra firme, e que milhões, talvez bilhões de criaturas deram sua vida para tornar possível, ao homo sapiens, existir de fato, tal como o conhecemos hoje...

Mas... voltando às teias, caminhos e labirintos de nossas vidas, nos tornamos adultos, viajamos, conhecemos outras terras e outras gentes, sem ainda conhecermos melhor a nós mesmos... no entanto, milhares de anos antes, alguém deixou esse enigma na Esfinge, em pleno deserto do Sahara: "Conhece-te a ti mesmo!"... porém somos ingênuos o bastante para não compreender a profundidade desse epitáfio... e continuamos a ser "donos de nós mesmos", a cometer erros e não assumir a culpa, a perceber que aquele "paraíso perdido", que Adão e Eva destruíram com uma mordida na maçã do Conhecimento, era real, e mostrava a trajetória devastadora do ser humano nessa terra de ninguém... consumimos as florestas para construir cidades, a mobiliar nossas casas, a nos aquecer nas noites de inverno, esquecendo-nos de que outras criaturas vivas e não-humanas tinham, nas florestas, seu habitat, suas fontes de alimentos, seu modo de viver e sua moradia...

A cada novo ciclo da vida de um indivíduo, um pequeno universo se forma em seu redor, constituído de seus amigos, colegas, parentes, conhecidos, chefes, alunos, professores, inimigos... e estranhos!... milhões de desconhecidos perambulando pelas calçadas, pelas favelas, pelas malocas, pelos edifícios, pelos transportes terrestres, aéreos e aquáticos... nas vilas, aldeias, cidades, estados, países, reinos... fora de seu pequeno círculo, o Universo, esse desconhecido! Nesse momento, já teremos perdido a noção de que existe um Universo muito maior, composto de nosso planeta, dos outros corpos que circulam ao redor de nosso Sol, de outros sóis perdidos na Via Láctea, de outras galáxias entre as quais, a nossa, de outros universos igualmente fantásticos e diversos, talvez... quem sabe...

Porém, nossa vida é curta demais para tamanha abstração, ainda que filósofos, das mais diversas estirpes, séculos antes já haviam compreendido essa verdade universal... não somos os únicos seres vivos do Universo! É óbvio que não! Assim como não é verdade que a Terra seja plana, que existe um só Deus Todo-Poderoso "criador do céu e da Terra"... somos por demais imperfeitos, toscos, quase primatas, incapazes de conceber algo sobre o qual não tenhamos um mínimo de domínio e "sabedoria"... precisamos acreditar que nossas vidas não foram em vão, que nosso nome ficará gravado para sempre nas memórias daqueles que nos sucederem... ainda que nós mesmos já não saibamos mais os nomes de nossos antepassados, ainda que a História de nosso pequeno mundo seja um amontoado de mentiras, relatos de guerras entre dominadores e dominados, uma sucessão de matanças e exploração dos mais frágeis seres vivos deste planeta, tão humanos como nós...

No entanto, despendemos anos a fio aprendendo a História do Brasil, como se os aborígenes nunca tivessem existido aqui, milhares de anos antes de uma nau portuguesa, espanhola, inglesa, francesa, holandesa tivesse chegado aqui, não para conviver harmoniosamente com eles, respeitando suas crenças e tradições, mas para escravizá-los, matá-los, estuprá-los, forçá-los a trabalhar de graça para eles... esses mesmos bandidos assassinos foram à África e trouxeram mais milhões de negros para fazer deles seus escravos... e cá estamos nós, fingindo viver em uma "democracia", em um suposto regime no qual "todos seriam iguais perante a lei"...

É dessas mentiras que alimentamos nossas vidas, nesses labirintos do pensamento em que nos enredamos para fingir acreditar que somos melhores que os macacos, os chimpanzés, os gorilas, nesses caminhos que formam nossos labirintos, nos quais nos perdemos, e nos desculpamos pela maldade inerente aos seres humanos, nessas teias que armamos contra nossos inimigos, em que nos enrascamos, nesses pensamentos recorrentes que a nada nos levam, senão a saber que não merecemos sequer as nossas crenças mais simplórias...


João Carlos Figueiredo

Um escritor, uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: Arte e Foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte....
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