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O olhar perplexo de um Poeta diante da Vida

João Carlos Figueiredo

Um escritor, uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: Arte e Foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte...

Uma nau sem rumo...

Enquanto uma pandemia descontrolada mata centenas de milhares de brasileiros, as instituições se perdem em discussões inúteis, em conflitos de interesses mesquinhos e em lutas intestinas pelo poder político, econômico e social... e o povo, essa massa ignara e disforme, serve de instrumento de barganha nessa luta sem vencedores... só o futuro ditará a nossa sorte...


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"Em se plantando, tudo dá!", já dizia Pero Vaz de Caminha em sua missiva a Dom Manuel, o Venturoso, em 1º de maio de 1.500, referindo-se ao Paraíso Perdido que os portugueses encontraram em sua aventura pelos oceanos da Terra. E continua: "Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro; nem lho vimos. Porém a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados como os de Entre Douro e Minho, porque neste tempo de agora os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem. Porém o melhor fruto, que nela se pode fazer, me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar." 

Já se notava, nesse curto trecho selecionado, que as intenções dos invasores portugueses em relação à conquista do novo mundo eram de explorar a terra e suas riquezas, e catequizar o povo que mal chegaram a conhecer naquele instante... essa nau, supostamente sem rumo, que chegara ao que se chama hoje de Brasil, era o aríete que romperia as portas do paraíso para violentar as mulheres, aprisionar os jovens para torná-los escravos, e catequizar a todos os "índios" que aqui encontraram. A população de humanos, apenas na porção que hoje forma o Brasil, era, supostamente, de cinco milhões de "almas", com centenas de grupos étnicos, cada qual com sua língua, suas crenças, suas tradições. 

Passados mais de cinco séculos, restaram menos de um milhão de indivíduos dessa população de aborígenes, em grande parte na miséria, extorquidos de seus territórios, confinados em áreas determinadas pelos seus algozes, em grande parte desprovidas das florestas que encantaram os olhos dos viajantes dos mares que aqui chegaram. Os missionários (eram assim chamados os padres católicos responsáveis por conceder uma "alma" àquela gente) vieram com sua missão definida: catequizar os "índios", dar-lhes uma "alma" cristã, roubar-lhes suas terras, seus costumes, suas lendas, suas divindades, sua língua e sua dignidade. Em sucessivas levas chegaram primeiro os franciscanos, jesuítas (da Companhia de Jesus), os carmelitas, beneditinos, mercedários, capuchinhos, os oratorianos.

A descaracterização dos Povos Indígenas do Brasil pelos missionários católicos durou 300 anos. Somente no século passado, em 1913 que chegou a primeira missão evangélica com o propósito de conquistar essas populações indígenas para suas igrejas: American Indian Mission ( 1913), Unevangelized Filds Mission (1931), New Tribes Mission (1946), WyCliffe Bible Translator/ Summer Institute of Linguistics – WBT/SIL (1956), Missão Novas Tribos do Brasil (1953); Missão Cristã Evangélica da Amazônia (MEVA) e Missão Cristã Evangélica do Brasil (MICEB – 1959), Missão Evangélica dos índios do Brasil (MEIB) e a Associação Linguística Evangélica Missionária (ALEM – agosto de 1982).

A partir de então, as organizações dos indígenas já catequizados e evangelizados, começaram a organizar suas próprias instituições evangélicas, como a UNIEDAS – União das Igrejas Evangélicas da América do Sul (1972) e a OMITTAS - Organização da Missão Indígena da Tribo Tikuna no Alto Solimões. Hoje, é comum se encontrar pastores evangélicos indígenas nas aldeias situadas fora da Amazônia e mesmo dentro dela, em aldeias com intenso contato de pastores evangélicos, que chegam com suas canoas e ministram seus cultos a esses povos.

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As contradições trazidas por esses evangelizadores não se limitaram às crenças religiosas, mas infiltram-se nos costumes e tradições indígenas, descaracterizando suas culturas milenares. Exemplo disso se verifica na região do Alto Rio Negro, onde padres e freiras Salesianos causaram profundas transformações no modo de vida das mais de 20 etnias do Rio Negro e seus afluentes. Essa região era conhecida pelas grandes malocas, cuja arte e beleza arquitetônica foi desmantelada e destruída, em nome de uma moralidade que não se aplica às populações indígenas, como a nudez de seus corpos, a convivência de várias famílias em um único local (as malocas), e a própria língua desses povos, muitos dos quais as substituíram por uma língua inventada pelos padres, de nome Nheengatu: mistura do Tupi-Guarani com palavras das línguas tradicionais, e com uma gramática e vocabulário empobrecido pela perda de seus vínculos com a cultura indígena. Foi lá, no Rio Negro, também, que crianças indígenas eram retiradas de suas famílias para serem "educadas" pelos salesianos, nos grandes conventos construídos dentro das terras indígenas, com a cumplicidade e omissão do órgão indigenista. Ao voltar ao convívio familiar, já não conseguiam se comunicar em seu idioma materno...

A Política Indigenista no Brasil é semelhante a uma nau sem rumo, que muda seu curso na mesma linha temporal das mudanças de governos ao longo desses cinco séculos de ocupação de nosso território original. Os indígenas, em sua "forma pura" (sem a intromissão de culturas exógenas), desconhecem as fronteiras territoriais, assim como também ignoram os padrões culturais dos povos invasores. Sua aquisição desse "conhecimento", estranho a seu modo de vida, e descontínuo em sua introdução a esses povos, causou (e continua causando) estragos irreversíveis na formação e evolução dessas culturas milenares. A cada nova fase da história do Brasil, as políticas indigenistas tentam se adaptar aos novos governantes, geralmente desprovidos de qualquer conhecimento antropológico das populações indígenas.

Essa descontinuidade de políticas públicas voltadas aos povos originários impõe drásticas mudanças, em curtos espaços de tempo, no modo de vida e no relacionamento com a sociedade envolvente. Visões contraditórias de uso dos recursos naturais, como, por exemplo, extração mineral na Amazônia, exploração de produtos da floresta, construção de hidrelétricas, construção de rodovias, implantação de assentamentos no entorno das terras indígenas, causam estragos irreversíveis na floresta, que é a fonte de alimento para esses povos.

As grandes obras de engenharia estimulam processos migratórios de populações de outros biomas para o interior da floresta, quebrando o equilíbrio ecológico de grandes áreas da Amazônia, e acelerando o processo de devastação dessa imensa floresta. Durante a ditadura militar, por exemplo, foram construídas as maiores rodovias que hoje cruzam a floresta, como a BR-230 - Transamazônica, construída durante o governo Médici, que levou dezenas de milhares de nordestinos para viver em territórios originalmente ocupados por povos indígenas. A hidrelétrica de Balbina, construída sobre parte expressiva da terra Waimiri-Atroari, junto à construção da rodovia Manaus - Boa Vista (BR-174, levou à quase extinção desses povos, cuja população se reduziu de 3.500 seres humanos a cerca de 300 indivíduos, verdadeiro genocídio praticado pelas forças militares que trabalharam nesses projetos gigantescos, entre os quais se inclui também a instalação da mineradora Paranapanema, incrustada na terra indígena Waimiri-Atroari. 

Hoje se sabe que cerca de 20% da Amazônia foi devastado de forma irreversível, tanto pelos governos militares, quanto pelo agronegócio que, incentivado pelos planos mirabolantes da ditadura, seguem destruindo a floresta para exploração da madeira, plantação de soja e cana-de-açúcar e criação de gado, colocando em risco a própria existência da maior floresta tropical do mundo. Como essas áreas devastadas são descontínuas, as consequências das queimadas cada vez mais frequentes são imprevisíveis devido ao "efeito de borda", que é a exposição maior das bordas remanescentes da floresta aos fenômenos naturais. A cada ano esse desastre se amplia, sob os olhares indiferentes das autoridades locais e nacionais, que argumentam, de forma falaciosa, que "o resto do mundo já destruiu suas florestas e o Brasil não será a exceção". Afinal, segundo esses argumentos, por que seria o Brasil a "perder" suas riquezas, deixando-as ocultas nessa imensa área verde?

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Essa NAU SEM RUMO que é o nosso país segue em sua marcha-a-ré em direção ao mundo subdesenvolvido das décadas passadas, quando éramos o "País do Futuro", e nossa importância mundial era insignificante. O agronegócio, que a Rede Globo enaltece há vários anos com a propaganda enganosa de que "AGRO É TECH, AGRO É POP, AGRO É TUDO!", é o principal responsável pelo desmatamento das florestas brasileiras: a Amazônia, o Pantanal, a Mata Atlântica e o Cerrado. A quebra do equilíbrio ecológico nos principais biomas brasileiros terá impactos terríveis para o futuro de nossa Nação e de nossos vizinhos continentais: o clima da América do Sul é controlado pelo ciclo das águas da região amazônica; esse fluxo das águas se inicia no Oceano Atlântico sul, com a evaporação de imensas quantidades de água, que entram pela floresta, causando sucessivas e intensas precipitações pluviométricas, realimentadas pela evapotranspiração da floresta; ao chegar nos Andes, essa água se congela, formando imensas geleiras; com a chegada do verão, essas geleiras se derretem e retornam para o interior da floresta, formando a maior bacia hidrográfica do mundo: a Amazônica!

Mas o Ciclo das Águas ainda não terminou. Os rios seguem para o mar, mas também descem para formar o maior pantanal de águas doces do mundo, o Pantanal Mato-grossense! E as chuvas acompanham esse fluxo, trazendo as chuvas para o Cerrado brasileiro e para as terras planas do sul do Brasil, do Paraguai e da Argentina. Portanto, se esse fluxo for interrompido, as consequências serão trágicas para os países a leste da Cordilheira dos Andes e para o resto do mundo. Tanto a Amazônia, como o Cerrado, que juntos são a maior parcela de nosso território, se transformarão em um imenso deserto! As mentiras da Globo não impedirão que esse enorme império do Agronegócio se desmorone, quebrando a maior cadeia alimentícia do planeta... esse processo será irreversível, pois não se refaz uma floresta dessa dimensão...

E assim chegamos ao final dessa epopeia da nossa NAU SEM RUMO. Nos dias atuais temos razões de sobra para lamentar as escolhas e os caminhos percorridos desde a chegada dos portugueses. Afinal, "nunca, na história desse país", se descuidou tanto de nossas riquezas naturais e humanas... e a vida na Terra nunca será a mesma depois do fim dessa floresta gigante, pois, embora a Natureza seja muito maior do que a Humanidade que fez dela seus jardins, suas moradas, sua fonte de alimentos e riqueza, os atos humanos têm o poder de destruir e de matar... mas, desaparecendo a humanidade, aí sim a Terra terá uma segunda chance de se reconstruir... quem sabe um novo ser surgirá da evolução das espécies remanescentes, e teremos uma nova GAIA se povoando de avatares e vivendo junto, harmoniosamente... e felizes...


João Carlos Figueiredo

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