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O olhar perplexo de um Poeta diante da Vida

João Carlos Figueiredo

Um escritor, uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: Arte e Foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte...

Ciência e Religião: o diálogo impossível

Grandes pensadores do passado discutiram, à exaustão, os limites do conhecimento humano. De Sócrates, Aristóteles e Platão, a Tomás de Aquino e Santo Agostinho, de Immanuel Kant e René Descartes a Friedrich Nietzsche, a questão primordial foi, sempre, a busca pela Verdade Universal.


_JCF6900.jpg Comunidade indígena na Amazônia (Foto: João Carlos Figueiredo)

O Universo, tal como o vemos, tal como o interpretamos ao longo da curta existência humana neste pequeno planeta, é inexplicável à Razão dos Homens. Mesmo que a trajetória do Homo Sapiens seja uma sucessão de leituras e aprendizados da Natureza e da Essência do Ser e do Cosmo, ainda estamos no Jardim da Infância no que tange à compreensão da Vida e da imensidão em que estamos inseridos. A cada pequeno passo do Conhecimento, novos enigmas confundem a compreensão humana, desfazendo teorias e apequenando esse insignificante transeunte do complexo estelar dentro do qual se encontra perdido.

Mesmo com nossos parcos conhecimentos, sentimo-nos no direito de questionar incessantemente a razão do existir, concebendo teorias que justifiquem a existência de um ser superior, ao qual chamamos Deus. E quantos deuses o ser humano já criou em suas diferentes sociedades, em seus diversos estágios de dominação do espaço terreno! Sociedades inteiras foram embaladas nos sonhos dos filósofos, construindo universos paralelos onde colocavam seus deuses, ora com poderes sobrenaturais, como no Olimpo da civilização grega, ora tomando as feições de seres híbridos de animais e humanos, dotado de parcos poderes, mas capazes de vislumbrar outras vidas pós-morte, como na civilização egípcia, ora dispersos em seres diáfanos, com suas "leis e verdades universais", incorporados por animais sagrados, como nas religiões orientais. Já no Ocidente (outro conceito relativo e equivocado), surgiram as religiões do Bem e do Mal, em que os humanos seriam julgados, no momento de sua morte, transição para a Eternidade, e jogados no Inferno ou elevados aos Céus, dependendo dos méritos e culpas acumulados durante sua curta existência.

O Deus dos homens tem uma relevante utilidade: fazer com que os seres humanos não se percam na loucura do terror, do ódio e da vingança, como aconteceu no período medieval, nas guerras mundiais, nos processos civilizatórios dominados pela escravidão. Deus seria, pois, a imagem mediadora e sensata que nos ensinava que, para vivermos em sociedade, haveríamos de cultuar valores universais, como a Justiça, a Bondade e a Compaixão, combatendo os sete pecados capitais: a gula, a luxúria, a inveja, a preguiça, a ira, a soberba e a avareza. Para se contrapor a elas, as religiões ocidentais criaram as sete virtudes do cristianismo: a castidade, a caridade, a temperança, a diligência, a paciência, a bondade (ou benevolência) e a humildade. Porém, a luta entre o Bem e o Mal nunca deixou de existir, e as religiões foram absorvidas pela ganância, a arrogância, o ódio e o desprezo dos mais poderosos pelos mais fracos. E os templos, construídos para venerar suas divindades fictícias, tornaram-se mercados da fé, dominados pela opulência de seus mandatários, exploradores da miséria a que foram relegados os mais fracos, os menos favorecidos, os mais humildes, aqueles que deveriam ser objeto de nossa compaixão.

A Ciência expandiu seus conhecimentos entre o microcosmo (representado pelo que não é perceptível aos olhos humanos) e o macrocosmo (ou Universo), cada vez mais ciente de sua pequenez, de sua insignificância e inutilidade diante do caráter permanentemente mutante da matéria, e da percepção angustiante de que não existe apenas um universo, mas sim infinitos e gigantescos conglomerados de estrelas, planetas, cometas e outros corpos celestes, multiversos espaços nos quais a matéria se expande, na contradição com a antimatéria, incompreensível até para os cientistas, tão zelosos de seu conhecimento. Caímos, assim, num abismo infinito de ignorância, mesmo sem perder o orgulho de tantos aprendizados adquiridos nesse fragmento insignificante da existência humana no planeta Terra, uma fração de segundo se comparada à suposta existência do próprio Universo...

Se as religiões são um engodo, e a ciência, um conhecimento impossível de se alcançar completamente, de que vale, então o ser humano na essência do infinito que o envolve e sufoca? Por que esse insignificante ser, esse inseto astral, esse micróbio do Cosmo se acha tão importante, se não consegue, sequer, preservar seu próprio lar, sua Terra, esse minúsculo planetoide perdido em seu eterno circundar de uma das menores estrelas do Universo visível apenas para essa pobre humanidade?


João Carlos Figueiredo

Um escritor, uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: Arte e Foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte....
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