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O olhar perplexo de um Poeta diante da Vida

João Carlos Figueiredo

Um escritor, uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: Arte e Foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte...

O Limiar da Ditadura

Só quem viveu o terror dos anos 1964-1985 pode compreender o que nós, sobreviventes da Ditadura Militar, sentimos diante do terror que inspira seres malignos como Bolsonaro e sua família de psicopatas, que sonham com um mundo só deles, povoado de ódio e recalques que, por si, evidenciam sua deformação ética, moral e política.


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Não existe mundo pior do que aquele em que vivi e formei minha cultura, ideologia, principios e valores, que nortearam a vida que construí, apesar dos traumas causados pelo terror da ditadura, dos desaparecimentos de colegas de colégio e de faculdade, das notícias dos mortos nos porões de tortura do regime militar, sem poder fazer nada senão chorar as mortes e perseverar na luta insana contra um inimigo muito mais forte e poderoso, que usou de todos os métodos para nos calar, nos humilhar, nos afogar no desespero...

Impossível, mesmo para nossos filhos, os netos da ditadura, compreender e sentir aquilo que nos afoga, cinquenta anos depois, pela simples razão de saber, como ninguém mais jovem, que estamos à beira de um precipício, onde todos que não concordam com a ignorância, poderão ser lançados, sem qualquer compaixão. Pensar é mais perigoso do que viver. Imaginar todas as ferramentas de tortura de um regime onde víamos, primeiro, os coturnos, depois as armas, em seguida a ironia sarcástica de trogloditas, vilipendiando de nosso terror, da dor que doía na alma, de saber que nossos companheiros estavam lá, trancafiados como bandidos em celas úmidas, escuras, de cimento bruto, escutando os gritos desesperados de seus companheiros, de suas mulheres, de seus pais ou filhos, submetidos ao "trono do dragão", às cadeiras elétricas, ao pau-de-arara, sendo introduzidos por fios eletrizados, por cabos de vassoura, pelo pênis nojento de monstros cruéis, sem piedade, sem qualquer sentimento senão o ódio de sermos superiores em tudo o que eles representavam.

Em um momento inicial, nossa alegria por entrar na Universidade, superando os melhores cérebros de nossa época, depois de anos de muito estudo e dedicação. Depois, a chegada ao Campus Universitário, os trotes horrorosos dos estudantes sobre os calouros, em seguida, a constatação de que a Universidade já não tinha mais os mestres com os quais sonhávamos nos anos desesperados dos cursinhos, pois todos haviam abandonado o país para sobreviver no Chile, depois no Uruguai, em seguida na Europa, último bastião da sobrevivência daqueles que sucumbiram ao desprezo pela Cultura, pelo ódio à Ideologia, pela demência de querer estuprar jovens apenas por serem marxistas...

Não, vocês não sabem o que é passar noites produzindo panfletos nos porões dos centros acadêmicos para distribuir entre os colegas, no Campus Universitário, à revelia de uma polícia política que era submissa ao DOI-CODI, ao DEOPS, às Casas de Tortura do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, correndo o risco de sermos presos e levados para essas catacumbas do mundo contemporâneo. sem possibilidade de sobrevivência. Não, vocês não sabem o que é isso! Nenhum livro, nenhum texto, nenhum filme poderá superar aquela realidade terrível dos Anos de Chumbo da Ditadura! Não havia como escapar, pois todos os países sul-americanos já haviam sucumbido a esse regime de terror: Argentina, Brasil, Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Colômbia,... todos tinham caído na armadilha de um poder maior, herdado do Big Brother, dos Estados Unidos da América, do "país mais democrata do mundo", que tinha uma prisão terrível em Guantánamo (que ainda existe), dentro de Cuba, país tão pequeno e socialista, que já fora seu parque de diversões, mas que eles não conseguiram dominar com todo o poder que tinham e um presidente amado pelo Ocidente, mas não sabiam quem era o "pai do terror", o Presidente John Kennedy, que anos depois foi morto em uma emboscada em seu próprio país.

Cada um dos grupos de resistência foi sendo massacrado pela violência policial-militar até que não restasse mais ninguém disposto a lutar pela própria liberdade de ler, de pensar e refletir, de se manifestar em público contra aquela máquina de assassinar seres humanos... até que todos se tornassem cordeirinhos domesticados, ou se escondessem, silenciosamente, em seus redutos secretos, à espera de melhores dias. Por fim, certos de que tinham conseguido calar uma nação inteira, os ditadores, os marechais, os generais de quatro estrelas, concederam o "perdão" a seu povo massacrado: aos poucos, voltaram os professores universitários, os artistas, os intelectuais de toda espécie, murchos, calados, humilhados, para tentar resgatar sua cidadania perdida... aos poucos, uma anistia foi dada, e as prisões politicas foram se esvaziando, delas saindo zumbis sem cérebro para restaurar a "democracia".

Três anos depois, uma nova Constituição, a sexta que esse país teve em cerca de 130 anos desde o fim da vergonhosa escravidão, assegurava o direito de seus cidadãos à "Liberdade", à "Igualdade" e à "Fraternidade", tal como os franceses tiveram em 1789, com essas mesmas palavras, com essas mesmas mentiras dos mártires, dos assassinos, de um banho de sangue que nada nos trouxe senão mentiras e sonhos irrealizáveis... e o povo, essa massa ignara de pessoas sem alma e sem cultura, acreditou em mais um sonho de liberdade e justiça social. Tudo mentira, pois não há lugar para o povo nas sociedades humanas... sempre uma minoria enriquece e domina todas as instâncias do poder, à revelia do povo, cuja grande massa sobrevive das migalhas da civilização, sem cultura, sem empregos decentes, sem direito à manifestação de suas ideias, e sem saciar suas necessidades fundamentais.

Hoje, aquele que está no poder, levado por hordas de fanáticos desequilibrados, uma minoria sustentada pela maioria que passa fome, quer o poder absoluto, monárquico, totalitário, protegido pelas armas que esse psicopata distribuiu para seus "soldados amestrados", visando levá-lo ao poder total e absoluto. Mas quem o sustenta é outro grupo sem caráter, sem escrúpulos, sem ética, sem moral, mas amparado por religiões oportunistas, cujos líderes enriqueceram às custas dos dízimos de seus incautos "fiéis", nos "templos sagrados" dos evangelhos mal interpretados, alegando uma fé cega e burra, insustentável pela mais simples reflexão de qualquer ser inteligente, alicerçada em crenças infantis e fundamentadas no enriquecimento de seus papas, cardeais, bispos, padres e pastores. Sim, as igrejas são redutos do mal, do demônio criado pelos próprios humanos para encobrir sua ignorância e estupidez... seus deuses são profanos, cruéis, raivosos e vingadores...

E das profundezas desse inferno terrestre surgiu uma criatura malévola, medíocre, preconceituosa, misógina, insignificante, mas que conseguiu, por esses mesmos "predicados", arregimentar a maior força humana para levá-lo ao poder, prometendo o que todos querem: armas, poder, riqueza, fama e desprezo pelo resto da humanidade... para isso, distribuiu promessas para seus aliados, desprezou o resto do país, trouxe para seu reinado os militares de todas as armas, aqueles mesmos seres fardados que fizeram todas as revoluções deste país e do resto do mundo, sempre a serviço de uma "pátria amada", uma vez que desconhecem o significado de Nação, e onde só existem imbecis galgando as escadarias do poder incondicional... e o povo, aquela massa ignara, caiu no "canto da sereia" e se entregou ao grande MITO!

Estamos no limiar de uma nova ditadura, e as mesmas forças que massacraram a minha geração irão triturar também a sua, sem piedade! Se você acredita em Papai Noel, em Deus, em Jesus, nas Igrejas Evangélicas e Católicas, nos Santos e nos Profetas, nos Salvadores de Almas, então estará pronto para entregar seus filhos a uma nova era do TERROR, DAS TORTURAS, DO ÓDIO E DA VIOLÊNCIA! Sejam benvindos ao paraíso dos bolsonaros, dos médicis, dos castelos, dos geisels, dos batistas, dos coronéis, dos majores, dos generais, dos almirantes, dos brigadeiros...

SEJAM BENVINDOS À DITADURA MILITAR DE 2022, SEM PRAZO PARA TERMINAR!

Apenas para concluir, quero dizer que tenho vergonha do Brasil, tenho vergonha de ser humano, e, como dizia Ruy Barbosa, TENHO VERGONHA DE SER HONESTO!


João Carlos Figueiredo

Um escritor, uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: Arte e Foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte....
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