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O olhar perplexo de um Poeta diante da Vida

João Carlos Figueiredo

Um escritor, uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: Arte e Foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte...

"Vai prá frente, Brasil!"

Enquanto o Congresso se debate em contradições ideológicas, e o STF permanece imobilizado pelos casuísmos de um governo sem rumos, a população queda, estarrecida e apavorada, ao constatar que nossos representantes não têm capacidade de sair desse imbróglio em que se meteu o país, seja por incompetência ou oportunismo. "E la nave va..." como diria Fellini...


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Os acontecimentos dos últimos tempos seguem, avassaladores, como a lava que desce dos vulcões, destruindo nossas convicções, aniquilando nossas esperanças, cobrindo de incertezas o futuro desta Nação. Poderíamos dizer que "esta é a vontade popular", uma vez que foi o povo quem levou essa figura caricata à presidência da república. Mas foi o mesmo povo que elegeu esse Congresso indecente, repleto de figuras patéticas e irresponsáveis que, mesmo vendo a Nação sucumbir à corrupção dos costumes e tradições de nosso povo, cada um se apega à sua própria mesquinhez, apropriando-se das oportunidades trazidas pelo caos, para amealhar mais vantagens pecuniárias ao já assoberbado "patrimônio" acumulado por seus sucessivos "mandatos parlamentares", concedidos por essa pobre gente inculta dessa república das bananas em que nos tornamos...

"Seria cômico se não fosse trágico", diria a expressão popular... mas não é apenas a política, em sua acepção menor, que se degradou a ponto de ameaçar a Liberdade, conquistada depois de 21 anos de uma sangrenta e corrupta ditadura militar. O fato é que as transformações que caracterizaram os últimos 75 anos do pós-guerra não foram apenas de evolução técnico-científica, mas também de involução do pensamento filosófico da Humanidade, mediocrizada por gerações de alienados, que perambulam pelo mundo, perdidos entre as armadilhas intelectuais propiciadas por essa jovem sociedade decadente e egocêntrica.

Em nosso país, porém, o desastre foi muito mais profundo: concomitantemente, perdemos nossas "mentes brilhantes" e ganhamos zumbis retardados, pela redução intelectual das novas juventudes que se sucederam às gerações passadas, onde se discutiam temas filosóficos, políticos e ideológicos dentro dos campi universitários, entre professores brilhantes e alunos ávidos de conhecimento... o que os acadêmicos oferecem hoje a seus discípulos, senão "pérolas aos porcos"? Migalhas de culturas decadentes em um solo infértil...

Estamos a pouco mais de 365 dias de uma nova eleição majoritária, na qual se escolherão governadores, deputados, senadores e um novo presidente da república. Porém, a sociedade está fragmentada entre propostas populistas do velho Centrão, que corromperá quem quer que seja eleito em troca de favores, e candidatos viciados pelo passado de seus partidos políticos caquéticos, sem identidade ideológica e sem altruísmo para tentar salvar a Nação...

Mas não é apenas a Política que se contaminou com o veneno da corrupção, mas toda a Sociedade, que vive em busca de favores, seja na política, no trabalho ou mesmo na vida comunitária. Líderes imbecis, desprovidos de idealismo e de comprometimento com as três palavrinhas que mudaram o mundo do Iluminismo: Liberté, Egalité, Fraternité... nem mesmo a Liberdade, "ainda que tardia", restou para esse povo desalentado e corrompido por décadas, séculos de oportunismos, safadezas, artimanhas, vivendo no submundo dos esgotos desse país, "abençoado por Deus e bonito por natureza"! Já nem é tão bonito assim, ocupado pelo agronegócio dos magnatas latifundiários, "abençoados" pela Rede Globo e "nutridos" pela dinheirama governamental de políticos retardados...

"E por falar em saudade..." onde anda você, que lutou contra os meganhas da ditadura, e hoje vai às ruas para atender ao "canto das sereias" dos movimentos "Vem Pras Ruas" e "MBL - Movimento Brasil Livre", para gritar, aos quatro ventos: "Nem Lula, nem Bolsonaro! Queremos a 3ª via!". O que seria essa tal de terceira via, senão "mais do mesmo" que vimos desfilar diante de nossos olhos desde que colocamos Sarney no poder, com a morte de Tancredo, depois conduzimos Collor para Brasília, intrépido "caçador de marajás" que sucumbiu às riquezas da corrupção desenfreada que contaminou a capital federal desde Juscelino Kubitschek até os dias atuais?

Embora o tema deste artigo seja "Vai prá frente, Brasil!", minha intenção era mesmo afirmar: "IMPASSE INSTITUCIONAL", já que não há sequer uma réstia de luz, uma gota de esperança, um milésimo de possibilidade de resgatar essa Nação, cujas riquezas naturais estão sendo esgotadas desde que os portugueses cá chegaram, seguidos de tantos povos, sempre com o propósito de pilhar a Natureza e levar tais riquezas para o além-mar. Nossa Natureza, antes tão pura e verdejante, hoje flameja na escuridão das queimadas, na sordidez das pastagens de gado, na monotonia dos campos verde-amarelos das plantações de soja, na monotonia das florestas de eucalipto, nas voçorocas e no lamaçal herdados da mineração da VALE do Rio Doce, no barro contaminado de mercúrio dos garimpos em terras indígenas invadidas pelos bolsominions que se espalham feito estrume fétido pelas terras Yanomami e Mundurucu, e nos imensos empreendimentos imobiliários que aniquilam os manguezais costeiros, todos incensados pelas indecentes propagandas que afirmam que "AGRO É TUDO", confundindo a mente dos incautos, que se esquecem de que, na verdade, AGRO É TÓXICO, AGRO É PODRE, AGRO É GLOBO!

E volto ao tema, para finalizar: não há futuro para "esse país que vai prá frente", como dizia o hino da Ditadura Militar de 1964, enquanto torturava estudantes, professores, intelectuais e trabalhadores nas catacumbas dos DOI-CODI, do DEOPS e das Casas da Morte da Marinha e da Aeronáutica brasileiras... Ouçam o tal "Hino da Ditadura": vai pra frente brasil.mp4 Pois eu tenho imenso orgulho de constatar que, mesmo com essa "lavagem cerebral" dos fascistas de 1964, minha geração sobreviveu, ainda que com milhares de perdas humanas, nas catacumbas do poder, nas manifestações de rua, nos campos das universidades e das guerrilhas socialistas.


João Carlos Figueiredo

Um escritor, uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: Arte e Foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte....
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