artefacto artefoto

O olhar perplexo de um Poeta diante da Vida

João Carlos Figueiredo

Um escritor, uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: Arte e Foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte...

AUTOCRÍTICA

Mao Tsé-Tung foi um grande líder do Comunismo chinês. Durante seu longo período à frente do governo, foi radical em exigir a submissão do povo à doutrina Marxista. Àqueles que não se submeteram ao Socialismo, a alternativa era a AUTOCRÍTICA. No Brasil de 1964-1985, não havia essa opção...


Screenshot_20211114-003536_Photos.jpg

Nunca fui filiado ao PT, embora sempre tenha apoiado seus candidatos. Estava sempre lá, nas ruas, de camiseta, boné e estrelinha, participando das manifestações, passeatas, campanhas políticas, pois acreditava que a Democracia havia sido enterrada pela ditadura militar, em 1964. No golpe militar, parte da Igreja Católica apoiou os militares, enquanto outra parte tentava proteger aqueles que lutavam por preservar ou resgatar a Democracia às custas de sua própria segurança, liberdade e sobrevivência. Esta era a Igreja Progressista, da Teologia da Libertação de Leonardo Boff, de Dom Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo, de Dom Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife, de Frei Angélico Sândalo Bernardino, de Ribeirão Preto... e dos monges dominicanos que deram suas vidas para proteger os guerrilheiros como Carlos Marighella.

Em 1967, ainda muito jovem e imaturo, liderei uma manifestação de meu colégio, o Instituto de Educação Otoniel Mota de Ribeirão Preto, contra o diretor, Romero Barbosa, que mandara prender um dos nossos mais admirados professores, Sebastião Palma, o "Chóla", de Química, cujas aulas práticas eram inesquecíveis, quase como a Alquimia medieval, com experimentos que marcaram nossas vidas. Fui parar na delegacia de polícia por incitação à greve e pixamento de muros. Antes disso fomos à Câmara Municipal denunciar a arbitrariedade, mas sem obter apoio.

Dias depois de sermos liberados com a ajuda de advogados comprometidos com as liberdades democráticas, já fazíamos reuniões quase diárias de discussão sobre a ideologia marxista em casas de alunos, na Biblioteca Pública do município e em praças públicas. No ano seguinte nos mudamos para São Paulo, para onde meu pai fora transferido, a pedido, receoso de meu engajamento nas lutas contra a opressão da ditadura militar.

Chegando em São Paulo, porém, a situação era dramática, praticamente de conflitos urbanos permanentes, quando o Mackenzie destruíra o prédio onde funcionava a Faculdade de Filosofia da USP. Grupos de baderneiros, pertencentes ao CCC - Comando de Caça aos Comunistas, com apoio da Opus Dei, organização parecida com a Santa Inquisição da Igreja medieval, e da TFP - Tradição, Família e Propriedade, cujo nome evidencia seus "valores" elitistas, transformaram a rua Maria Antônia numa praça de guerra.

Apartado das lutas, terminei o curso colegial, atual segundo grau, em uma pequena escola, São Paulo de Piratininga, convenientemente ao lado do Curso Anglo-Latino, que preparava os estudantes para as faculdades de Ciências Exatas. Meu objetivo era cursar a Escola Politécnica da USP, onde entrei em 1970. Antes, porém, tive que prestar serviço militar, compulsoriamente, e optei pelo CPOR, Centro de Preparação de Oficiais da Reserva.

Eram os "Anos de Chumbo", marcados por guerrilhas, atentados, assaltos a bancos, sequestros, prisões e torturas. Dentro da USP, o clima era de terror e medo, com alunos e professores fazendo manifestações cada vez mais radicais, causando o êxodo de professores para outros países, como o Chile, onde Salvador Allende tentava implantar reformas socialistas… Allende acabou assassinado por Augusto Pinochet, certamente o mais cruel tirano das Américas, que nunca pagou por seus crimes hediondos, cruéis, desumanos.

A POLI, como era chamada nossa escola de engenharia, estava sem professores, a maioria exilados na Sorbonne, na França, onde também FHC se exilou. Alunos mais avançados davam aulas para os calouros, quando não estavam nos "aparelhos", nome dado a casas alugadas nas proximidades do Campus, onde se planejavam assaltos a bancos e sequestros de pessoas, como o diplomata americano Charles Burke Elbrick, sequestrado e trocado por 15 presos políticos, que fugiram para o México. Dentre os presos estavam José Dirceu, Vladimir Palmeira e José Ibrahim.

Nessa situação dramática eu optei por deixar a engenharia e cursar Letras - Estudos Orientais, também da USP, pois havia sido aprovado nas duas escolas em 1969, depois de deixar o CPOR. A FFLCH, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, que agrupava as faculdades de Filosofia, História, Geografia, Letras e Ciências Sociais, era também um reduto de uma minoria de estudantes da doutrina Marxista Leninista, uns poucos alunos que sobreviveram às prisões e às torturas no DOPS e no DOI-CODI…

Caçados pela OBAN, Operação Bandeirante, e pelo temível Batalhão de Polícia de Choque, a ROTA - Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, imprimíamos panfletos revolucionários no antigo prédio da Escola Politécnica, ao lado da Pinacoteca do Estado e do BOPE - Batalhão de Operações Especiais. Entrávamos um de cada vez, sorrateiramente à noite, e imprimíamos os folhetos em uma máquina antiga, a álcool, chamada mimeógrafo, uma folha de cada vez, que eram depois grampeadas e colocadas em mochilas e levadas para o Campus da USP e da Universidade Católica, onde seriam distribuídos aos alunos, professores e funcionários.

Também me lembro de uma vez em que, saindo do Centro de Estudos Japoneses, eu levava uma colega para casa… ela morava em Pirituba, periferia de São Paulo. Estudávamos Japonês, no curso de Estudos Orientais da USP, e já era bem tarde. Eu a deixei em sua casa e voltei em direção à Marginal, quando percebi que estava sendo seguido por uma viatura da famigerada ROTA. Começou uma perseguição, eles numa Veraneio, eu num fusquinha. Uma fuga desesperada, pois eu sabia que, se fosse preso, seria torturado como acontecera com tantos outros colegas… de repente, deparei-me com um beco sem saída, à minha frente, debaixo de um viaduto! Fiz um cavalo de pau e pulei para a pista oposta… escutei apenas o estrondo da Veraneio contra o paredão de pedra! Ainda confuso, cheguei na rodovia Anhanguera… parei em um posto de gasolina, pedi um café e um misto quente. Tremia descontroladamente e me preocupava com meus pais, que não sabiam de nada… celulares ainda não existiam… mas eles estavam dormindo quando cheguei em casa...

Por incrível que pareça, depois de alguns anos de temores, sobressaltos e lutas, sobrevivi a esses tempos de obscurantismo e terror que marcaram, indelevelmente, a minha geração. No final do terceiro ano de faculdade eu deixei a USP, cansado de me expor dessa maneira, enquanto a maioria dos estudantes se comportava como alienados e covardes. Desistir foi um erro, cujas consequências marcaram minha vida profissional para o resto da minha vida.

Voltando ao PT e à AUTOCRÍTICA… em 1980, já no fim da ditadura, foi fundado o Partido dos Trabalhadores. Lula era um líder sindical que, com seus discursos, incendiava os operários, que lutavam contra a opressão e as injustiças, fazendo greves sucessivas, reivindicando melhores condições de trabalho e salários, dentro dos pátios das grandes indústrias automobilísticas do ABC Paulista - Santo André, São Bernardo e São Caetano.

Antes do golpe, o cenário político era dominado por três partidos políticos: a UDN, o PSD e o PTB. Depois da ditadura militar, depois do fechamento do Congresso, permitiu-se a formação de apenas dois partidos políticos: a ARENA, Aliança Renovadora Nacional, partido do governo, e o MDB, Movimento Democrático Brasileiro, da oposição consentida e humilhada. A Arena deu origem ao PDS, do qual se formou o PFL, o PP e o PTB, todos amorfos e sem ideologia, e que deram origem ao atual CENTRÃO; do MDB se formaram os partidos de centro-esquerda, PMDB, PT, PDT e PSDB. Atualmente, são 33 partidos políticos, a maioria absoluta composta de agremiações nanicas e sem ideologia.

Com o fim da ditadura militar, em 1985, os crimes praticados pelos dois lados em confronto foram anistiados, inclusive aqueles cometidos dentro dos quartéis e das casas de tortura do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Os exilados políticos puderam voltar ao Brasil, mas a Economia e a sociedade civil estavam em frangalhos. Antes do Golpe de 1964, a dívida externa no Brasil era de 12 bilhões de dólares e, ao final da ditadura, ela já atingia a casa dos 100 bilhões de dólares, fruto de obras megalomaníacas, como a Transamazônica, as Usinas Hidrelétricas de Itaipu, de Balbina e de Tucuruí, a Ponte Rio-Niterói, as Usinas Nucleares de Angra dos Reis e a Ferrovia do Aço. A inflação, que estava em 235% ao ano na saída dos generais, chegou a quase 2.000% ao final do governo Sarney.

Sucedeu-o Collor de Mello, o Caçador de Marajás, que foi cassado por incompetência, nepotismo e por sua política econômica radical e exótica, bloqueando a poupança, sendo empossado Itamar Franco, que delegou a Fernando Henrique Cardoso a condução da política econômica. Ao término do mandato de Itamar, FHC foi eleito e reeleito, colocando em ordem a Economia. Porém, seguindo os ditames do Neoliberalismo, iniciou um processo de privatizações que geraram pouco efeito no endividamento do Estado brasileiro, principalmente com o FMI, Fundo Monetário Internacional.

Lula foi eleito Presidente da República com forte oposição da classe dominante, principalmente de empresários, que via nele uma nova ascensão do Socialismo e do retorno às expectativas do Comunismo, causa principal do golpe militar de 1964. No entanto, a habilidade de Lula foi demonstrada na sua escolha por Henrique Meirelles, ministro da Fazenda, e no compromisso de preservar a democracia no país. Lula investiu fortemente nos programas sociais, criando o Bolsa Família e agrupando os projetos de Ruth Cardoso, antropóloga e esposa do presidente FHC.

Lula permaneceu no poder por dois mandatos, e saiu do governo com um índice de aceitação de 87%, certamente o maior da história do Brasil. Ao término de seu segundo mandato, as reservas internacionais encerram 2010 em US$ 288,5 bilhões. Resultado é 20,7% superior ao apurado em 2009. Em 8 anos de governo Lula, o aumento das reservas foi de cerca de US$ 250 bi. Porém, para demonstrar sua força dentro de seu partido, Lula escolheu Dilma Rousseff para sua sucessora. Mesmo não demonstrando habilidades políticas e de gestão administrativa, ela ficou conhecida como a Gerente do PAC, Programa de Aceleração do Crescimento, um amontoado de projetos abandonados em governos anteriores. Venceu as eleições, mas deixou uma insatisfação no partido, que não concordou com a escolha de Lula.

Com a crise internacional de 2008 e sua falta de controle da inflação, além de conflitos com sua base governista, Dilma Rousseff foi cassada em 2016, através de um processo de impeachment bastante controverso e traumático para o Brasil. As acusações contra o PT eram gravíssimas, e a culpa recaía sobre Lula, embora a roubalheira tenha sido praticada, principalmente, pelos partidos políticos do Centrão. Nenhum político relevante, fora do PT, foi punido, mas Lula perdeu seus direitos políticos e sua liberdade, abrindo caminho para a entrada de Bolsonaro, um deputado inexpressivo que, em seus 27 anos de Legislativo, nunca produziu nenhuma lei ou participou de comissões. Era conhecido por suas posições radicais, homofóbicas, misóginas e racistas, tendo, como exemplo o torturador USTRA.

A campanha eleitoral de 2018 foi marcada por polêmicas fascistas desse candidato que nunca participou de debates e se notabilizou pelo suposto, mas não comprovado atentado a faca de Juiz de Fora, e sua guerra de postagens nas redes sociais, hoje conhecidas como Fake News, operadas por seu filho Carlos Bolsonaro, hoje no comando do Gabinete do Ódio, instalado no Palácio do Planalto. Nesses três anos de governo, as perdas irreversíveis havidas em todas as áreas relevantes da vida nacional, foram imensas, principalmente para as populações pobres, os Povos Indígenas e Quilombolas e as instituições democráticas, além dos escândalos investigados pela CPI da Covid-19.

FINALMENTE, A AUTOCRÍTICA!

Não sei por que acreditei na imprensa, no MBL, nos procuradores federais, nos juízes, nos políticos… O fato é que fui na manifestação de 13 de março de 2016 e me arrependo pelo que fiz. Estava revoltado com as denúncias de corrupção e de desvio de dinheiro, muitos milhões… pensava nas vezes que lutei por um Brasil melhor, mais digno, mais solidário, mais justo e humano… por que Lula, Palocci, Zé Dirceu e tantos outros companheiros fizeram aquilo?

Havia desistido do PT já no Mensalão… votei duas vezes em Marina Silva e me filiei à Rede Sustentabilidade. Fiquei decepcionado com o povo brasileiro por aniquilar aquela que fez tanto pelo Meio Ambiente, e que teve menos de 2% de votos em 2018. Por que? Estava sem chão, órfão de minhas próprias convicções, descrente de minha Nação…

Daí em diante assisti grande parte dos processos contra Lula e o PT, li os depoimentos escandalosos, constatei, consternado, quantas pessoas notórias, entre políticos e empresários, estavam envolvidas nos escândalos… mesmo assim, quando Haddad se defrontou com o Bolsonaro, não tive dúvida e votei em Haddad, mesmo com a máscara de Lula e o discurso do PT. Cheguei a lamentar a prisão de Lula, esperando que ele e seu partido fizessem uma AUTOCRÍTICA.

Mas não houve nenhuma autocrítica… isso reforçou minhas convicções de que o PT era o epicentro da corrupção.

Hoje, três anos depois, o caos e a farra política do Brasil me mostraram que eu estava errado. Apesar de tudo, o Partido dos Trabalhadores é, surpreendentemente, a única alternativa para salvar o Brasil… em outubro de 2022 votarei em Luiz Inácio Lula da Silva, conscientemente! Também votarei somente em candidatos de esquerda ideológica! Farei tudo para assegurar que essa gangue de malfeitores seja eliminada do meu país!

Ahhh… faltou uma explicação: eu não terminei o CPOR… fui afastado por incapacidade definitiva para o serviço militar, e tenho muito orgulho de ter sido "expulso" do Exército! Definitivamente, não tenho nenhum apreço pelos militares, não gosto das Forças Armadas e nem o que elas representam. Sou pacifista, ateu, naturista, amante das belezas desse mundo e desprezo, profundamente, essa humanidade corrompida e fútil que existe no mundo atual...


João Carlos Figueiredo

Um escritor, uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: Arte e Foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte....
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/Sociedade// //João Carlos Figueiredo