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O olhar perplexo de um Poeta diante da Vida

João Carlos Figueiredo

Um escritor, uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: Arte e Foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte...

AS CONTRADIÇÕES DO INDIGENISMO

Quando entrei na FUNAI, em setembro de 2010, jamais imaginei que as populações indígenas se deteriorariam tão rapidamente... naquela época, meus conhecimentos acerca dos Povos Indígenas se limitavam às imagens e relatos de livros e periódicos. Em doze anos de trabalho indigenista percorri muitas terras indígenas na Amazônia, conheci várias etnias e aprendi muito. No entanto, a eleição para presidente do Brasil, de um fascista desequilibrado e fanático por armas, caçadas e mineração causou mais estragos às populações indígenas do que 500 anos de massacres e genocídios causados pelos portugueses...


_JCF5201 - Cacique Erineide.JPG 'Reserva Indígena Truká Tupan'

Entrei no indigenismo aos 60 anos, trabalhando em uma região fantástica, caracterizada por uma Natureza perfeitamente preservada, mais de duas dezenas de etnias, onde as contradições da população indígena ainda não chegara aos extremos da perda de sua identidade sociocultural. Essa região repleta de lendas, mitos, rituais e línguas era o Alto Rio Negro, onde a cidade indígena de São Gabriel da Cachoeira inundava meus olhos com seu encantamento e beleza.

Foram apenas 12 meses, um ano de aprendizado e reflexões acerca dessa nova vida profissional que me inundava de indagações acerca do que seria, de fato, o Indigenismo, qual seria o papel da nossa instituição, como atuar sem preconceitos adquiridos durante seis décadas da sociedade branca, negra, mestiça… como não transgredir seus direitos e nossas obrigações como servidores públicos.

Logo percebi o abismo que nos separava, eu, criado e formado nas grandes metrópoles onde não havia lugar para esses povos que, de fato e de direito, eram os legítimos habitantes dessa terra d'além-mar, invadida por habitantes do outro continente, o europeu, devastado por séculos de dominação romana, onde duas guerras mundiais haviam dizimado cerca de setenta milhões de seres humanos pelo simples interesse em impor sua vontade a todos demais habitantes, não importando suas origens, seus credos, línguas, cultura e história de vida… pois foram esses mesmos seres que aqui aportaram e, como um gigantesco bando de ratazanas, expulsaram e assassinaram milhões de nativos que aqui habitavam desde o fim da Era do Gelo, há mais de dez mil anos…

Eu não estava preparado para assumir tamanha responsabilidade, em uma nova carreira profissional, pois nem mesmo percebera que ser indigenista seria abdicar de meus próprios interesses, valores, culturas e ideologias, para cumprir a impossível missão de proteger esses povos de nós mesmos, ou seja, da sociedade em que fôramos criados, educados e estereotipados com regras e crenças desprovidas de sentido… certamente, cometi o pior erro: desistir dessa missão, a primeira, sem tentar dezenas, centenas, milhares de vezes, sem mergulhar nesse novo e admirável mundo indígena!

Voltei para a comodidade e o conforto de minha sociedade, esquecendo-me o quanto ela é contraditória, irracional, predatória e arrogante! Com essa decisão absurda, abdiquei de meus seguintes dez anos de indigenismo. Passei a vê-los, os “índios”, como mitos perdidos em seu passado remoto, inseridos em “nosso mundo” como um enclave indesejado e rejeitado pela quase totalidade da população que fora seu algoz na “conquista” dessa terra miraculosa de matas, florestas, rios, lagos, cachoeiras, trilhas e personagens mitológicos como onças, antas, peixes, tartarugas, jacarés, aves do paraíso, cobras, porcos do mato (“caititus”), tamanduás, lobos guarás, golfinhos, mães d’água, teiús, jaguares, Tupãs, Guaracis, Anhangás, Wanadi, Ceucis, Sumés, Akuandubas, Yebá Bëlo, Yorixiriamoris… as nossas lendas são muito mais pobres e desinteressantes…

Mas o indigenismo nos coloca em situações muito mais contraditórias, pois, nesse longo processo “civilizatório”, nosso próprio povo corrompeu essas antigas civilizações com a evangelização cristã, com o consumo do álcool, com espelhinhos, facas, panelas, pentes, plásticos, ferramentas, armas, sal, açúcar, doces, pastas de dentes, utensílios de todos os tipos, celulares, televisão, novelas… o estrago, depois de 500 anos, foi fatal e desumano. Saindo da floresta para o resto do Brasil, essas populações se perderam em nossos vícios, nossas tolices, consumismo desenfreado, ambição, dominação, avareza, mesquinhez, ódio, arrogância, crueldade… somos especialistas na “arte de corromper as almas puras”! No resto desse país, os “índios” deixaram de cultuar seus antepassados, passaram a ter ambições para enriquecer, vender ou arrendar suas terras ao agronegócio, embriagar-se com nossas tecnologias…

Pior do que isso, muitos indígenas foram abandonados à própria “sorte”, jogados nas calçadas, largados à beira das estradas, prostituindo-se, embriagados, enquanto a “nossa sociedade” afirmava: “Viram? Eu não falei que índio é preguiçoso”? É assim que olhamos para esses seres desfigurados por nossa “fantástica civilização”! Quando um mandatário supremo de uma nação recebe uma medalha por “relevantes serviços prestados aos indígenas”, mesmo tendo jurado não demarcar nem um centímetro de terra indígena, mesmo cancelando todas as operações em terras indígenas para favorecer latifundiários, nomeando delegados de polícia, coronéis, generais e outros desqualificados para cargos essenciais, percebemos que foram superados todos os limites da Decência, da Dignidade, da Justiça, da Honestidade e da Verdade dos fatos…

Hoje, passados quase 12 anos nesta instituição, estou desolado… sinto-me traído, enganado, iludido, arrependido de ter saído daquele lugar paradisíaco para trabalhar na Sede desse “Órgão Indigenista”, sabendo que o que “eles” querem é, tão somente, extinguir o que resta do passado desses quase 350 Povos Indígenas, “integrálos” à nossa sociedade, perdida em futilidades dos “Big Brothers”, repleta de vaidades e de egoísmo, pois, afinal, “Agro é Pop, Agro é Tech, Agro é Tudo” nesse horroroso país das mentiras, das futilidades, das injustiças, das desigualdades sociais, dos políticos toscos…

Sim, eu perdi esse jogo, fui ingênuo e fraco ao abdicar de um mundo que não gostei de conhecer, pervertido que foi por bandoleiros de todas as origens, que viram nesse país as oportunidades de se “darem bem” em detrimento dos guetos malditos, das favelas corrompidas por milicianos, do poder exercido pelo descaramento de grupos de oportunistas, sempre prontos a ganhar vantagem em tudo, os Gersons da vida… agora só me resta envelhecer e esperar que, nesses poucos anos que me restam, ainda possa abraçar uma causa justa, contribuir, com minha revolta e indignação, para que ainda haja tempo suficiente para que a Humanidade possa parar o tempo e reverter o futuro…

Mas, mesmo que nada disso aconteça, minha presença neste mundo nada significará para aqueles que vierem depois de mim. Se todas as previsões catastróficas se confirmarem, teremos, ao menos, existido, ainda que por uma fração de segundo no interminável tempo dos universos… se, um dia no futuro próximo, a humanidade conseguir povoar outro planeta, levando milhares de “sementes” para habitá-lo, tenho certeza de que, ainda que imbuídos de boa vontade (que eu acredito nunca ter existido), ainda assim, esse novo mundo não terá um futuro brilhante, e as novas gerações cometerão os mesmos erros, praticarão os mesmos crimes, reconstituirão o mesmo triste passado desse maravilhoso planeta chamado Terra, que nunca merecemos…


João Carlos Figueiredo

Um escritor, uma câmera: palavras ilustradas pela vivência cotidiana, cenários explicados pela expressão da alma... Artefacto servindo ao poeta: Arte e Foto num sincretismo que se entrelaça nas relações deste escritor com o mundo que o rodeia e perverte....
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