arxvis

dentro do momento

arxvis

artista plástica
e transpirante poeta

mal comportamental

uma senhora idosa entra na farmácia: "o sr. tem a pílula do suicídio? que foi tudo minha culpa.."


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a mulher atrás de mim tem problemas nos ouvidos ("turbocurso, não tuberculose!"), eu não posso dormir (há um sabiá que me maltrata na madrugada), chega a dor de cabeça (dores musculares por todo o meu cérebro), e o cara da frente fuma e grita como um grego velho (aqui falamos grego).

tudo isso se perde entre textos e notas. olho a janela: uma jovem caminha pela rua, seu cabelo em rabo de cavalo balança pra lá e pra cá num sem fim, parece falha no tempo - na matéria do tempo - como se a continuidade fosse um plano maleável, cheio de momentos excedentes, rasgos e nós.

uma dose muito forte da vida mata? lembro-me de minha infância como um pensamento sem fim, um sonho - mas eu sou só uma sombra do que era, eu sou o sonho agora. na infância é que foi o pensar, naquela criança em que existi (anos depois, quando parti, meus pais ficaram ali acenando com as mãos por 20 min., enquanto eu tentava ligar o carro).

ando cansada das coisas fáceis, das presas inúteis, das bebidas, do aplauso parcial. desse o fogo infame, dessa inveja ridica. os sensíveis também endurecem. respostas que se acercam e que nem perguntei vão se amontoando, cheias de barulho, cheias de razão - cheias de si - e carregam meu corpo refém. existe trivial mais triste do que o que assiste o mal e não grita?


arxvis

artista plástica e transpirante poeta.
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