arxvis

dentro do momento

arxvis

artista plástica
e transpirante poeta

represe por nós, pescadores

"a mesma pessoa que matou juraci matou dona freda": perdi a novela mas não perdi a vida.


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sou a guardiã das imagens familiares esquecidas. não é um peso que carrego, é um prazer que cometo. a cada nova foto assimilada me transformo em mais gente, num sumo concentrado de muitos, que uso todos os segundos pra me reinventar. é nessa essência histórica que eu cresço e nunca envelheço. apesar do drama, é claro - e obscuro, na verdade.

os olhos são manchas, os rostos são manchas, mas as vidas são mais que manchas - são material fluido e ar, pensamentos e memórias. uma tia morreu de repente, aos 18 anos de idade, de alguma doença terrível e misteriosa. sua existência na fazenda, e sua morte em duas frases. tenho seus retratos 3x4, vários: com 12, com 14, 16, 18 anos. fim.

são tantas horas da aurora e tudo vai bem. a poesia no colo da mãe, a inocência da boca amanhecida, o homem dentro da mulher dentro da mulher, o acaso do feliz para sempre, a crença escondida na cômoda, a novela sem fim. paixão sexo inocência traição. o amor para além das mentiras, para além de quando a chuva parar de molhar, para além de alguém dentro de alguém.

na penumbra da varanda, aquela mancha cinza móvel sou eu. quando o tema da novela começa, eu paro e ouço. cantarolo junto - ainda posso - nunca mais me esqueço. a tv em preto e branco mente as cores, mente estórias em geral. tanta moral acontece que nem se percebe a morte por asfixia. na repetição familiar, a novela é uma sequência de imagens de todos, uma mancha de sangue no melodrama da memória.


arxvis

artista plástica e transpirante poeta.
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