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o incrível homem manequim, ou: o poder criativo do tédio

dizem que crianças inteligentes sempre se entediam, mesmo na presença de seus iguais. acho isso uma falha línguo-socio-cultural: o tédio é, na verdade, o berço de muitas criações inusitadas.


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o tédio nos põe em um estado de intensa introspecçāo, pelo qual vagamos tranquilamente como que em torno de um shopping center, considerando possibilidades pouco comuns de análise e divertimento.

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mas se nos pusermos verdadeiramente em movimento - e sem mesmo nos darmos conta desse processo criativo - desenvolvemos um discurso onde muito mais é dito do que à primeira vista parece ser o caso.

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considere, por exemplo, o homem dessas imagens: enquanto esperava sua mulher fazer compras de roupas e acessórios, e assim cansado de esperar, passou a documentar sua própria 'busca' por um 'si mesmo' na forma de manequins, os quais ele imitou.

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a profissão do canadense Steve Venegas, o 'manequim' das fotos, é de especialista em mídias. sua explicação para essa série de auto-retratos é bem simples: "Eu queria experimentar roupas e ter minha foto tirada, porque é engraçado vestir-se como um boneco." ele é o criador do Gap Mannequin Project.

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o que Steve claramente não percebeu - ou não se preocupou em considerar - foi sua apropriação de um discurso artístico-performático, muito usado no modernismo e no pós-modernismo. muitos artistas contemporâneos fazem exatamente isso, e não como uma 'brincadeira' pra espantar o enfado, mas como uma crítica muito séria aos mecanismos de nossa 'civilização'.

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agora, meditemos por um instante nessa palavra - civilização. somos quase todos criaturas desse conceito social. vou excluir aqui as tribos nativas, os aborígenes do planeta, porque estes vivem segundo outros códigos que os dito 'civis'. seus códigos são tribais, com estruturas sociais totalmente diferente das nossas - nós, os 'civilizados'.

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códigos de vestimenta, por exemplo, são um dos mais importantes na nossa sociedade. definem grupos, status, imaginação (até certo momento), definem a economia, o tipo de governo, a construção da máquina propagandista, definem uma época, um lugar, definem a escolha de participar da sociedade normativa - ou não.

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eu, por exemplo, comprei aos 17 anos um long-play de Bob Dylan chamado 'DESIRE' (desejo). a capa desse LP mostra um retrato do mestre exibindo exuberante uma séria de roupas e acessórios - camisa, colete, casaco, chapéu, cachecol - que falam explicitamente da contra-cultura, muito forte nos anos 60 e 70.

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na minha - então e ainda - condição de marginal social voluntária e convicta, acabei comprando imediatamente o mesmo tipo de chapéu que o mestre usava. em 1977 passei a andar pelas ruas de São Paulo usando um chapéu de feltro marrom e um lenço amarrado no pescoço. eu e o meu chapéu - só eu e o mestre! pelo menos na minha imaginação de adolescente: as pessoas que me olhavam como se eu fosse uma desajustada pelas ruas, não tinham a menor idéia da pobreza de suas próprias existências..

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agora sei, obviamente, que a indústria musical não passa também de uma enorme máquina propagandista para várias outras indústrias - entre elas, a de roupas e acessórios. a função dessas indústrias (que na verdade construíram todas as estruturas da nossa 'civilização') é nos dar a idéia de que temos 'idéias': de que podemos fazer escolhas, de que somos indivíduos únicos nessas escolhas - cada um de nós!

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mas para nos tornarmos 'indivíduos únicos' devemos comprar coisas, nos encher de DESIRES, pensar que nos alimentamos enquanto o que de fato fazemos é servir de alimento à uma indústria mãe monstruosa, chamada consumismo. então vamos às grandes lojas de departamento para comprar roupas e acessórios que nos fazem - supostamente - sentir especiais. como milhares de outras pessoas no planeta, todos vestindo o mesmo uniforme.

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até o fim da primeira guerra mundial, o conceito de consumismo não existia. as pessoas compravam coisas porque as necessitavam, e o desejo comum - o bom senso - era de que essas coisas durassem por anos: qualidade comparava-se à durabilidade de um produto. esses produtos - quaisquer que sejam - eram construídos com esse mesmo intuito.

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agora não mais, infelizmente. hoje em dia, objetos de desejo são construídos não para durar, mas para demonstração de status. parece que o consumidor acabou por aceitar o triste fato de que essa civilização industrial necessita de sua constante 'lubrificação', na forma de novas compras, sempre o mais novo objeto de desejo - o novíssimo! - o que já se esgotou antes de chegar às lojas. mesmo sem necessidade, compramos. comprar transformou-se num vício social, e nossa 'civilização' tornou-se um junk num beco qualquer, em constante estado de fome e desejo, e constantemente sendo 'injetado' com nosso próprio sangue.

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para um melhor entendimento de como chegamos a esse ponto, e se você, meu leitor, ainda tiver sangue e curiosidade, veja esse documentário histórico magnífico de outro grande mestre da atualidade, Adam Curtis. Chama-se 'The Century of the Self' (o século do si-mesmo), e nos conta como se iniciou a máquina propagandista que destruiu a qualidade em favor da quantidade, e isso usando o discurso do indivíduo - o eu único cheio de desejos únicos.


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