as rosas falam

jornalismo, cultura e olhar crítico

Juliana Rosas

Jornalista e cinéfila. Fotógrafa nas horas vagas. Amante das artes nas horas cheias.

Lars von Trier e sua melancolia


Assisti ao filme “Melancolia” (Melancholia, 2011) de Lars Von Trier este ano, em uma sessão especial sobre cinema de arte. No mesmo dia, pouco antes, assisti a outro filme não menos perturbador: o espanhol “Balada do Amor e do Ódio” (Balada Triste de Trompeta, 2010), de Alex de la Iglesia. Segue minha impressão. Quiçá desnorteada, por isso mesmo, opinião.

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Falemos de Lars von Trier e seu/sua Melancolia. Sim, Melancolia não é só o planeta gigante que vai se chocar com a terra, é também (e principalmente) a melancolia interna, misturada a uma depressão não tratada do diretor dinamarquês. Ao sair da sessão, conversando com os amigos, minhas primeiras palavras sobre a obra, numa tentativa de assimilação após o apocalíptico fim, foram “Von Trier é um deprimido diagnosticado. Mas em vez de tomar antidepressivos, ele faz filmes”. O torpor era grande. Afinal, foram duas sessões de filmes bastante inquietantes quase que seguidamente. Porém, acho que a análise não é exagerada e possui fundamentos. O próprio Lars von Trier já se declarou um ser deprimido. E alguns anos atrás, passou um longo tempo sem fazer filmes, alegando estar sofrendo de forte depressão. Não sei precisar se o cineasta recorreu a algum tratamento psiquiátrico ou terapêutico. Mas sua depressão é declaradamente grave. E se de fato ele se tratou, o tratamento não atingiu sua arte cinematográfica.

Desde que vi “Os Idiotas” (Idioterne, 1998) comecei a admirar a obra de Von Trier. Não sabia praticamente nada da sua vida, além de que era dinamarquês e foi um dos fundadores do Manifesto Dogma 95 - movimento que também aprecio. Porém, à medida que seus filmes ganhavam notoriedade, também se falava de seu comportamento dentro e fora do set: de que era um chato, depressivo ou excêntrico. Estes eram o foco. Eu pelo menos nunca vi, em nenhuma entrevista ou reportagem, algo mais sobre sua vida pessoal. Espantou-me saber, numa breve pesquisa, que ele é casado e pai de quatro filhos (de dois casamentos).

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Suas atitudes e declarações bombásticas já ganham atenção suficiente. Muito antes de ser expulso do Festival de Cannes em 2011, sendo declarado persona non grata e ter sido chamado de nazista, Von Trier, anos atrás, se autodeclarou um “punheteiro, masturbador que não deveria estar vivo”. Quer manchete melhor? Para esclarecer, o que o fez ser declarado nazista foi sua irônica declaração de que “entendia Hitler”. O tom jocoso não combinou com o momento. Especialmente na Europa, não se tolera piadas envolvendo nazistas, judeus, Hitler e holocausto. É mais que politicamente incorreto. É algo simplesmente não tolerado, seja porque ninguém acha graça ou por não ter permissão para achar graça no provavelmente assunto mais delicado da história europeia.

Voltando a Lars Von Trier e seu Melancolia, o que quero dizer, no fim das contas, é que ambos têm problemas: criador e criatura. E digo isso ainda sendo uma admiradora de sua cinematografia e reconhecer pontos fabulosos nesta obra, especialmente a fotografia: vislumbrante. Dos problemas do diretor já falamos, então posso dizer agora que o mais recente filme de Von Trier é mais do mesmo. É Von Trier total, porém, não com o mesmo viço.

Vi recentemente, o último filme de outro diretor consagrado: “Inquietos” (Restless, 2011), de Gus Van Sant. Uma das críticas e frases definidoras do filme era: “Gus Vant Sant não se repete”. De fato. Se não soubesse de quem era a direção, meus palpites com certeza não incluiriam este cineasta.

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Já Melancolia de Von Trier me pareceu uma remodelação do roteiro de “Anticristo” (Antichrist, 2009) com outra história. O mesmo começo épico, com música clássica e estrondosa, imagens arrebatadoras, câmera lenta. Depois vêm as partes um, dois e conclusão. Entre elas, personagens perturbados, cenas perturbadoras, diálogos idem.

Muitos poderão dizer “ah, são dois filmes completamente distintos”. Sim, as estórias são bem distintas. Sua condução não. O modelo de roteiro é o mesmo, fotografia parecida, ritmo similar, condução idem. Para nos lembrar ainda mais de Anticristo, está lá Charlotte Gainsbourg, como a irmã de Justine, a noiva deprimida. Anteriormente, Charlotte foi a mãe deprimida em Anticristo.

Talvez alguns digam que Woody Allen faz também sempre o mesmo filme, com o mesmo modelo, mesmo roteiro, mesmos personagens, até a famosa mesma fonte dos créditos. Porém, Woody Allen não é pretensioso. Ele é modesto e suas obras não pretendem ser épicas. Muitos se tornaram clássicos por serem despretensiosamente e não planejadamente ótimos filmes.

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Von Trier já foi despretensioso. Hoje, ele se declara “o melhor cineasta do mundo” (em entrevista coletiva após receber críticas de Anticristo). Como já disse, ele foi um dos criadores do movimento Dogma, que entre outras características, estavam não usar cenários ou trilha sonora, usar apenas câmara de ombro, etc. Algumas dessas características continuam. Porém, com nova roupagem, falado em inglês e com atores consagrados em Hollywood.

Von Trier é bom. Muito bom. Mas depressão cansa. M(m)elancolia também.


Juliana Rosas

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