as rosas falam

jornalismo, cultura e olhar crítico

Juliana Rosas

Jornalista e cinéfila. Fotógrafa nas horas vagas. Amante das artes nas horas cheias.

Mídia, femicídio e a dominação masculina

A leitura de notícias e assuntos como gênero, violência e poder sob o ponto de vista da dominação masculina e com uma pitada de Bourdieu.


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A cidade está em choque. O Estado se prontifica a agir. O femicídio (neologismo para indicar o homicídio de mulheres como crime de gênero) ganhou a mídia. Na mesma semana que me pediram uma reportagem sobre uma casa abrigo para mulheres vítimas de violência, várias foram encontradas mortas. O caso que mais chamou a atenção foi o de uma professora - estrangulada pelo namorado que não aceitava o fim da relação. Parece mentira. Mas isso ainda acontece.

Parte deste artigo provém também de outro que havia escrito ano passado, na época do caso do político francês e ex-ministro da Economia da França, Dominique Strauss-Kahn, acusado de estupro. O processo estava no início. Desde a primeira versão do artigo, muito aconteceu. Desde os desdobramentos do caso Strauss-Kahn, (que até então negava o crime) à morte do ex-ditador líbio Muamar Kadafi.

Havia assistido a uma reportagem televisiva em que uma matéria sobre violência doméstica procedia uma sobre a reviravolta no caso do ex-diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn. Não sou nem um pouco fã do status quo que representa o noticioso global Jornal Nacional. Porém, aquela edição me surpreendeu.

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Strauss-Kahn havia sido detido em 14 de maio de 2011, em Nova York, EUA, sob acusação de agressão sexual a uma camareira em um hotel local. Submetido à prisão domiciliar e estrita vigilância, foi posto em liberdade cerca de duas semanas depois, após declaração da justiça estadunidense de que a acusadora havia “mentido deliberadamente” ao tribunal, pondo em risco sua credibilidade.

O tom da notícia, que registrava fortes acusações à camareira, deixava margem agora para uma mudança da opinião pública. A (a princípio) frágil, camareira, mulher, em situação desigual, não poderia estar mentindo e era, de fato, uma vítima. Era a opinião dominante até então. Mas com as acusações de que seus depoimentos eram contraditórios, que ela havia ligado para um traficante logo após o suposto crime e de descobrirmos que ela é uma imigrante nos EUA, tende-se a mudar de pensamento.

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Os sexistas ou desconfiados de plantão deveriam estar pensando que a camareira deveria de fato ser uma aproveitadora mentirosa. Para minha surpresa, uma reportagem sobre violência doméstica veio logo em seguida. E desta vez, não deixava margem para a defesa do machismo (pelo menos não em uma mente sadia). Até o apresentador William Bonner começou a cabeça da matéria num tom denunciador contra a violência: “Hoje, no Estado de São Paulo, quase acabou em tragédia uma história de violência silenciosa. Um caso daqueles em que a mulher agredida reluta em pedir ajuda ou não denuncia o agressor.” A matéria mostrava uma mulher que tinha sido espancada brutalmente e mantida presa em sua casa pelo ex-marido, tendo quase sido morta e enfim salva pela ação de policiais.

O agressor não admitia a separação e já a tinha violentado anteriormente. Ela havia prestado queixa, mas resolveu não seguir com o processo. A reportagem atentava para o fato de que as mulheres não deveriam fazer isso, que esse tipo de atitude empodera o agressor e fragiliza a vítima, abrindo margem para novas agressões, como foi o caso mostrado. Hoje, felizmente, com as mudanças na Lei Maria da Penha, o Ministério Público pode entrar com a ação penal, em casos de violência doméstica, mesmo que a mulher decida voltar atrás na acusação contra seu companheiro.

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Nós, pessoas comuns, podemos não perceber, mas fazendo um esforço não é difícil notar as evidências da dominação masculina no mundo. Até nas menores coisas, mesmo nas sutilezas. São séculos de dominação que ainda persistem e que, infelizmente, não desaparecerão de uma hora para a outra. No entanto, devemos prestar atenção para que não deixemos nossos anseios primitivos falarem antes de saber a verdade. O cotidiano privado e também o midiático está cheio de crimes de gênero e atrocidades que ainda se cometem contra as mulheres.

À época ainda vivo, o ditador líbio Muamar Kadafi estava sendo acusado pelo Tribunal Penal Internacional por usar o estupro como arma de guerra. A possibilidade dos militares terem recebido medicamentos como Viagra para aumentar a libido durante o combate, como parte de uma política oficial de estupros, está sendo investigada. O procurador do Tribunal, Luis Moreno-Ocampo, à época declarou: “Tivemos dúvidas no início, mas agora estamos mais convencidos de que Kadafi decidiu castigar mulheres mediante estupros”.

Esse fato, entre tantos outros de violência, castigos, crimes, etc., contra as mulheres é execrável. Por que não nos inflamos a ouvir tal notícia? Por que não temos o mesmo desejo de justiça? Por que não ouvimos tais casos serem levados a tribunais, como no caso Strauss-Kahn?

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Segundo o sociólogo francês Pierre Bourdieu, que inclusive é autor de um livro chamado “A dominação masculina”, tal dominação se mantém não só pela preservação de mecanismos sociais, mas pela absorção involuntária, por parte das mulheres, de um discurso conciliador. Os pensamentos do sociólogo são sofisticados. Claro que esse essas ações são recobertas pelo fino véu do cotidiano, por discursos escamoteados, por ações dúbias. Em casos como a falta de respeito às mulheres em alguns países do Oriente Médio, é simplesmente uma incivilidade de países ainda sem democracia, ou seja, que não respeitam seus habitantes como indivíduos, como iguais e muitas vezes nem como seres humanos. Não conseguiram a laicidade do Estado e mascaram práticas horrendas sob uma má interpretação da religião. Utilizam-se do discurso religioso para manipular as massas e justificar seu poder.

Pouco após as contestações de Strauss-Kahn, testes forenses haviam confirmado o encontro sexual entre o ex-diretor do FMI e a autora da acusação. Antes favorito nas pesquisas presidenciais francesas de 2012, Strauss-Kahn continuou respondendo por sete acusações baseadas em tentativa de estupro e violência sexual, passíveis de até 74 anos de prisão.

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Em maio de 2012, Strauss-Kahn abriu um processo contra a camareira que o acusou de agressão sexual. Um ano depois da explosão do escândalo, o ex-aspirante à candidatura presidencial pelo Partido Socialista francês acusou Nafissatou Diallo (a camareira) de “difamação” e entrou com ação pedindo US$ 1 milhão (R$ 1,99 milhão). A equipe de defesa de Strauss-Kahn conseguiu arquivar o caso penal, mas Diallo iniciou um processo civil, que teve prosseguimento depois que o juiz negou a imunidade diplomática ao ex-diretor do FMI.

Não é só esta moça que causa dor de cabeça ao político francês. Outras acusações vieram à tona (por parte de outras mulheres) e Strauss-Kahn foi envolvido em um caso de uma rede de prostituição na França, apesar de ter insistido que não sabia que as mulheres com as quais se envolveu em orgias eram prostitutas.

Eu ainda falaria muito sobre a mente vil de Strauss-Kahn, que deve achar que pode satisfazer seus desejos como quiser, com quem quiser e não admite que mulher nenhuma possa destruir sua reputação. Ele é o mais puro exemplo de machismo dominante revelado por Bourdieu. Ainda bem que a árvore francesa não produziu apenas frutos funestos.


Juliana Rosas

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