as rosas falam

jornalismo, cultura e olhar crítico

Juliana Rosas

Jornalista e cinéfila. Fotógrafa nas horas vagas. Amante das artes nas horas cheias.

Arte ou peripécia?


“Não existe arte infantil, assim como não existe engenharia infantil. O artista tem um propósito, uma angústia que a criança não tem”, disse certa vez o crítico de arte Fábio Magalhães. “Não há nenhum dever na arte porque a arte é livre” – frase de Wassily Kandinsky, artista russo (1866-1944).

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Duas opiniões. Ambas sendo aplicadas a Aelita Andre. Esta semana, com a notícia da mais nova exposição de Aelita, uma menina de apenas cinco anos, sendo considerada uma revelação das artes plásticas, veio à tona, mais uma vez, a discussão se existe arte infantil e se essa garota não seria a próxima Marla Olmstead – que pintou seu primeiro quadro com menos de 2 anos de idade numa tela dada pelo pai - ele mesmo um pintor amador. Depois, se descobriu que ela pintava os quadros com orientações do progenitor.

Coincidentemente, os pais de Aelita também são artistas. E para evitar as comparações, o pai dela tratou logo de publicar os vídeos da filha “criando”. Na reportagem do televisivo Fantástico (http://tinyurl.com/85trqgf), no último domingo, tudo que eu vi foi uma criança inocente, brincante e até bobinha tagarelando e correndo pra lá e pra cá. Sem querer (ou provavelmente não saber) falar absolutamente nada da sua mais nova exposição, ou mais simplesmente da sua “arte”.

Eu não creio que outros artistas ou artistas adultos também saibam falar, discorrer ou explicar sua arte. Porém, mesmo vendo os vídeos, não vemos nenhum impulso artístico, nenhuma “necessidade” de criação. Ela começou a “criar” - como gosta de dizer o pai - como quem brinca com qualquer outro brinquedo. Brinquedos estes colocados pelo pai. Por quê? Porque ele próprio é um artista. Ou gostaria de sê-lo. Se tivessem oferecido barbies, bonecas, carrinhos, Aelita provavelmente brincaria com eles.

Mais tarde, quem sabe, poderia vir a necessidade ou a ânsia de pintar. Então, só aí, poderíamos chamá-la de artista. Pelo que entendi, Aelita não pede mais tintas, não pede certas cores, certos objetos, purpurinas, máscaras, estrelas, ou qualquer outro material que ela tenha porventura utilizado. Eu duvido que ela tenha chegado para o pai e tenha dito “quero pintar a Via Láctea e quero um microscópio de brinquedo porque desejo misturar os dois num mesmo quadro”. E eu duvido que Aelita entenda o que é a Via Láctea. Ou como se trabalha com um microscópio. Ela trabalha com o que tem ao alcance das mãos. E quem escolhe tais objetos? O pai. Quem os disponibiliza? O pai. Quem os compra? O pai. Quem é o adulto? O pai.

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Outra coisa. Quem será que nomeia os quadros de Aelita? Eu duvido que ela tenha dado voluntariamente nome a todos eles. E mais, assistindo aos vídeos que o pai posta, não vemos a produção, criação ou trabalho completo da criança. Nem a vemos produzindo todas as obras, os vídeos são todos editados.

O assunto pode ir longe. Grandes pinturas que hoje admiramos foram encomendadas, feitas por meros princípios mercadológicos, religiosos, decorativos ou para satisfazer o ego de algum monarca. Motivos aparentemente menos nobres, menos “artísticos”. Valem menos por causa disso? No caso de Marla Olmstead, a suspeita e depois comprovada fraude fez com que o preço das obras de despencasse e a fila de espera caísse para zero. Os quadros da criança valem menos se ela contou com a ajuda do pai? Admiramos a arte ou o artista? Admiramos um quadro pela sua beleza, pelo que significa, pelo que nos inspira ou pelo artista que o produziu?

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Então uma criança não pode criar? Sim. Podemos chamá-la de artista? A resposta, para mim, são outros quinhentos... Tudo que sei é que neste mundo de hoje e de sempre, deve-se sempre desconfiar de tudo. Na atualidade capitalista, onde imagem e dinheiro é tudo, então...


Juliana Rosas

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