as rosas falam

jornalismo, cultura e olhar crítico

Juliana Rosas

Jornalista e cinéfila. Fotógrafa nas horas vagas. Amante das artes nas horas cheias.

O cinema nunca acreditou na inocência das crianças


Tendo recentemente assistido ao filme “Em um mundo melhor” (Hævnen/Dinamarca/2010), recordei-me de outra produção escandinava, “Deixa ela entrar” (Lat Den Rätte Komma In/Suécia/2008). Há duas semelhanças principais entre as obras: são de países nórdicos vizinhos (Dinamarca e Suécia) e retratam o bullying entre pré-adolescentes – assunto entremeado a seus respectivos enredos.

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Voltei a lembrar desse tema que já esteve tão em moda e ainda gera polêmica. Depois de ver “Deixa ela entrar” fiquei espantada com o aspecto do bullying, especialmente em um país dito civilizado. “Em um mundo melhor” me trouxe o mesmo questionamento. Ouvi, de pessoas diferentes, tanto à época como agora, coisas do tipo: “adolescentes são assim mesmo” ou “são assim em qualquer lugar”. As obras, à parte essas supracitadas semelhanças, são bem distintas. Aqui, falarei apenas sobre o aspecto em comum que me chamou atenção.

Algumas das afirmações sobre o bullying é que este sempre existiu. Apenas reapareceu com nova roupagem – o cyberbullying, por exemplo – e com esta recente e estrangeira denominação. Certa vez, em uma palestra de um professor universitário, este comentou que “demos esse estrangeirismo para tal prática, que nada mais é do que a violência escolar”. Sim, pois apesar de o substantivo bully em inglês se referir a alguém que importuna, usamos bullying nessa conjunção específica de brigas, cerceamentos e ameaças dentro do ambiente de ensino. Práticas semelhantes em ambientes distintos, como no trabalho, por exemplo, as chamamos de assédio moral, sexual, ou o que convier.

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“Deixa ela entrar”, lançado no Brasil em 2009, ficou bem conhecido, à época, por se tratar, também, de um filme sobre vampiros. E a onda vampiresca, advinda da ‘Saga Crepúsculo’, estava em voga. Claro que “Deixa ela entrar”, justamente por ser sueco, não é o besteirol escancarado, nem a vampiraria tradicional que estamos acostumados a ver. É um filme mais decente, bem feito e com enredo mais bem construído. Há pré-adolescentes como protagonistas e retrata com sinceridade atos de violência escolar de um aluno vítima de bullying – tudo isso na civilizada Suécia.

Conheci um sueco numa das últimas viagens que fiz e ele me recomendou esse filme. Após assisti-lo, fiquei espantada com o aspecto do bullying. Eu tinha ouvido falar apenas que era um filme sobre vampiros. Fui, então, conversar com meu amigo nórdico. Perguntei-lhe se o bullying era de fato comum na Suécia, dada a conhecida civilidade escandinava. Ele disse que sim, era muito comum. Espantei-me ainda mais com o ‘muito’. Insisti no assunto, “mas como assim, se conhecemos os suecos como civilizados, etc, etc...?”. Peter me respondeu: “Sim os suecos são civilizados, são conhecidos por serem pacíficos e não gostam de se envolver em brigas. Mas crianças são crianças.” De fato.

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Crianças são crianças e crianças podem ser más. Este é um fato que muitos adultos tendem a não querer reconhecer. “Não é fácil para a sociedade aceitar a maldade infantil, mas ela existe”, diz Fábio Barbirato, chefe da Psiquiatria Infantil da Santa Casa de Misericórdia, no Rio de Janeiro. Ele explica que a criança ou adolescente que tem essa patologia pode se transformar, na vida adulta, em alguém com a personalidade antissocial.

“Um obstáculo para o tratamento de crianças com sinais de transtorno de conduta é o próprio tabu da maldade infantil. O senso comum afirma que as crianças são inocentes – uma crença que resulta da evolução histórica da família. As escolas, porém, desmentem isso: elas costumam ser o palco diário das maldades das crianças com transtorno de conduta. A psiquiatra carioca Ana Beatriz Barbosa Silva, autora do best-seller ‘Mentes Perigosas’, diz que crianças e adolescentes com esse distúrbio costumam estar por trás dos casos mais graves de bullying”, diz um trecho da reportagem da Tribuna de Ituverava de 16/04/2010.

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Em 2009, na novela ‘Viver a Vida’, escrita por Manoel Carlos, havia uma criança má na trama. No decorrer dos capítulos, à medida que aumentava a maldade da personagem mirim, o Ministério Público do Rio de Janeiro começou a acompanhar de perto Rafaela (personagem) e suas atitudes desagradaram à Justiça. Tanto que o autor do folhetim chegou a ser notificado. No documento, um pedido para que ele tenha “cuidado ao elaborar a personalidade de personagens cujos atores são menores de idade”. O Ministério Público considerou a personagem pouco adequada: criança, aparentemente, não pode ser vilã.

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Que o digam os personagens de “Em um mundo melhor”, ganhador do Oscar 2010 de melhor filme estrangeiro e cujo título original (Hævnen) pode ser traduzido como ‘vingança’. Embora a vingança permeie as ações de vários personagens, (em especial o das crianças) os adultos (sobretudo os professores) que não sabem lidar com o bullying e mau comportamento desses jovens, querem transferir para os pais e outros adultos a responsabilidade e justificativa das mazelas dos adolescentes.

No cinema, é longa a lista de crianças agressoras, possuídas, endemoniadas, psicóticas, bullies ou simplesmente más. A tevê e a sociedade tradicional ainda querem acreditar na candura infantil. O cinema nunca acreditou na inocência das crianças.


Juliana Rosas

Jornalista e cinéfila. Fotógrafa nas horas vagas. Amante das artes nas horas cheias..
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