as rosas falam

jornalismo, cultura e olhar crítico

Juliana Rosas

Jornalista e cinéfila. Fotógrafa nas horas vagas. Amante das artes nas horas cheias.

Gooble-gobble, gooble-gobble: apenas um de nós

De quermesses a freak shows, da monga a Tod Browning, freaks da vida ao cinema.


Esta semana me diverti comparecendo a uma quermesse local onde a principal atração era a “Monga”, conhecida como “mulher macaco”. O que posso dizer é que foi muito engraçado. Mais pela reação das pessoas que pela atração em si. Nesta, aliás, eu me contorcia, ficava em ponta de pé dentro de uma salinha insalubre para ver a famosa criatura.

A atração deve ter algumas variações em diferentes parques do país, mas creio que a essência é a mesma. O engraçado era ver as pessoas pulando, gritando e até escapando antes da hora pela cortina da saída.

20120620014722freaksposter.jpg

O evento me fez lembrar um filme antigo, mas que assisti este ano: Freaks, de 1932, dirigido por Tod Browning. Assim como a maioria das atrações da Monga são em quermesses (com alguém vestindo uma roupa bem gasta de gorila e uma mulher boazuda, porém já cansada de requebrar uma 50 vezes por noite...) Freaks também se passa num circo decadente, onde 90% das apresentações é feita por artistas com alguma deficiência física. Muitos com uma deficiência bizarra, por isso mesmo chamados de “freaks” - que como substantivo ou adjetivo, em inglês, possui uma penca de significados (anomalia, aberração, monstruosidade, aleijão, monstro, aborto, esquisito, estrambótico, excêntrico, esdrúxulo, grotesco, singular) - todos se referindo à estranheza.

freaks3.jpg

Esse filme nada politicamente correto (que provavelmente não seria feito hoje, pelo seu conteúdo e por exibir em seu elenco majoritariamente deficientes físicos e mentais), quer ter uma dose de ética, ao mostrar que até os freaks tem sua código de lei. Eles podem aceitar alguém alheio, porém, mexeu com um mexeu com todos! “We accept her! We accept her! One of us! One of us! Gooble-gobble, gooble-gobble!”. A cena da festa de casamento e “aceitação” da personagem Cleopatra foi homenageada em filme relativamente recente, “Os sonhadores”, (Bernardo Bertolucci, 2003).

The Dreamers.avi_snapshot_00.36.40_[2012.03.09_23.49.26].jpg

Até a Monga nasceu de um freak show que tem por trás uma história real. A mexicana Julia Pastrana, nascida em 1834, sofria de hipertricose, doença que deixa o corpo coberto de pelos. Segundo relatos e pelo cartaz da apresentação da época, tinha feições simiescas: orelhas grandes, lábios protuberantes, mandíbulas largas. Juntando essa aparência, jogo de espelhos e a exploração de seu marido, criou-se o show de horror. Julia foi descoberta pelo comerciante Theodor Lent (que depois se casaria com ela) e passou a ser exibida em freak shows - caravanas de mulheres barbadas, pessoas deformadas e coisas estranhas que viajavam por Europa e Estados Unidos até a primeira metade do século XX.

Julia-Pastrana.png

John Merrick, conhecido por “O homem elefante” teve história parecida. O mesmo também teve adaptação cinematográfica, com John Hurt e Anthony Hopkins no elenco. O filme de David Lynch é, no entanto, uma versão mais dramática da vida desse homem.

O que todas as obras mostram, além do sofrimento dos “freaks” e a exploração destes pelos “normais” é em parte a inversão de valores. Os “normais” são mais aberrantes que as criaturas exploradas. E que se estes fazem coisas estapafúrdias, é para se protegerem da maldade dos mesmos. Possuem sentimentos de revolta e raiva, assim como qualquer “normal”.

freaks6.jpg

Eis a tradução livre do prólogo esclarecedor (de 2 minutos, em tela, que consta nos extras do DVD) que deveria ter sido exibido nos cinemas na ocasião da projeção do filme.

"Antes de procedermos à exibição desta atração altamente incomum, umas poucas palavras deveriam ser ditas sobre seu surpreendente conteúdo. Acredite ou não, estranho como possa parecer, em tempos antigos, qualquer coisa que se desviasse do normal era considerado um presságio de má sorte ou uma representação do mal. Deuses do infortúnio e da adversidade foram invariavelmente representados na forma de monstruosidades e relatos de injustiça e dificuldades foram atribuídos a muitos tiranos incapacitados e deformados da Europa e da Ásia.

A História, a Religião, o Folclore e a Literatura transbordam de contos de pessoas com má formação que alteraram o rumo do mundo. Golias, Caliban, Frankenstein, Gloucester, Tom Thumb e Kaiser Wilhelm são apenas alguns, cuja fama é conhecida no mundo inteiro.

O acidente de um nascimento anormal era considerado uma desgraça e crianças com má formação eram deixadas abandonadas para morrer. Se, por acaso, algum destes seres sobrevivesse, era sempre visto com desconfiança. A sociedade os temia por causa de sua deformidade, e a família era atribulada pelo resto dos seus dias, envergonhada da maldição abatida sobre ela. Ocasionalmente, um destes infelizes era levado às cortes para ser zombado ou ridicularizado para a diversão dos nobres. Outros eram deixados a perdurar numa vida de mendicância, furto ou fome.

O amor pela beleza é um anseio profundamente arraigado que remonta ao início da civilização. A aversão com a qual nós vemos as pessoas anormais, os mal formados e os mutilados é o resultado de um longo condicionamento que tivemos dos nossos antepassados. A maioria dos seres com anomalias são dotados de pensamentos e sentimentos normais. Sua sina é sofrida.

Eles são forçados a ter uma vida ainda mais antinatural. Portanto, construíram entre si um código de ética para protegê-los dos aguilhões das pessoas normais. Suas leis são firmemente incorporadas e a dor de um é a dor de todos; a alegria de um é a alegria de todos. A história que será mostrada é baseada no efeito deste código sobre suas vidas.

Uma história como esta nunca mais será filmada, pois a ciência moderna e a teratologia têm rapidamente eliminado do mundo tais gafes da natureza. Com humildade pelas tantas injustiças feitas a estas pessoas, (eles não tem poder para controlar sua sorte) nós apresentamos a mais surpreendente história de horror do anormal e do indesejado".

Parece mesmo que, de perto, ninguém é normal.


Juliana Rosas

Jornalista e cinéfila. Fotógrafa nas horas vagas. Amante das artes nas horas cheias..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/cinema// @destaque, @obvious //Juliana Rosas