Ao ver recentemente a notícia de que Before Midnight (ainda sem titulo oficial em português), de Richard Linklater, tinha acabado de ser secretamente filmado, tal fato me fez pensar várias coisas. Como muitos devem conhecer, este filme seria a continuação de Before Sunset (Antes do Pôr-do-sol, 2004) que, por sua vez, retomou a história de Jesse e Celine, contada pela primeira vez em Before Sunrise (Antes do Amanhecer, 1995).

Uma das coisas que pensei foi sobre rever estes dois filmes. E a partir disso, me suscitou vários sentimentos e pensamentos outros. Eu tinha muito medo de rever filmes. Principalmente os que amei. Principalmente os que, de alguma maneira, me marcaram. Eu tinha medo de perder aquele sentimento agradável que tinha para com a obra, de perder as gostosas sensações da primeira vez. “Antes do Amanhecer” me marcou. Marcou tanto que, ao visitar a cidade de Viena, meus passeios foram inspirados no passeio do casal. Queria encontrar o Cemitério dos Anônimos por causa deles, queria visitar a Roda Gigante pelo que tinha visto...

Revi o filme alguns anos depois. Não lembro se foi pela ocasião do lançamento de “Antes do Pôr- do-sol”, nove anos após o primeiro. Não me causou más sensações, pelo que lembre, mas foi diferente. Eu não era a adolescente que assistiu “Antes do Amanhecer” pela primeira vez. Que achou tudo lindo, que achou ótimo e desesperador ao mesmo tempo, o final ser aberto. Já devia ter a idade dos personagens do primeiro filme (uma jovem adulta) e era uma visão diferente.
Agora paira a dúvida e a vontade de rever “Antes do Pôr-do-sol”. Minha idade já está mais próxima a dos personagens, há mais experiência, então creio que a visão será outra. Quiçá me identificarei com as dificuldades de relacionamento adulto, com as neuroses de Celine, em estar mais velha, com as feridas deixadas pelo tempo...

Como bem andam dizendo alguns sites que divulgaram a primeira imagem da nova película, hoje em dia, é uma raridade qualquer cineasta realizar um filme sem ser notado. Especialmente este, de Linklater. Não se sabe muito sobre o enredo, além de que se passa na Grécia. Não sabemos se o trio – formado pelo diretor e atores principais (Ethan Hawke e Julie Delpy, também roteiristas) – resolveu fazer mais um filme de final aberto ou resolveu “fechar” a história de Jesse e Celine. Pois geralmente é o que se vê nessa onda de trilogia, não?
Aguardo e verei este filme, como qualquer outro fã que se emocionou com essas histórias, com os encontros e desencontros do casal. Mas confesso que fiquei um pouco receosa, justamente por essa história de trilogia. Uma época virou moda. E de vez em quando, esta ressurge. Mas vou tentar pensar nesse filme como uma boa história, que, se não foi planejada anteriormente, tinha um motivo para assim o ser.

Vou pensar numa trilogia de qualidade como a Millenium, de Stieg Larsson. Suas versões cinematográficas, assisti-lhes todas. A original, em sueco. Porém, me recusei a assistir à versão americana. Nesse caso, prefiro guardar a versão original. A que só tem graça falada em sueco, com atores suecos e com a excelente Noomi Rapace. Sim, nesse caso, vou tentar ao máximo, guardar a sensação inicial. Nessa circunstância, não me entra o mercantilismo americano de querer ganhar em cima de remakes provenientes de outros países.
Comentários
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Rodrigo Della Santina
Acredito que Linklater, Hawke e Delpy não se preocupem com o mercado cinematográfico, por assim dizer, no que concerne à produção da sequência "Before...". Pelo que li tempos atrás, eles têm interesse na história, nas personagens; autores criando sua obra, lapidando-a, melhorando-a, se podem. Sim: gostei (e gosto) também dos filmes anteriores; sim: estou mais velho, com experiências outras, mas para mim assistir a esses filmes, incluindo o terceiro, é (será) relembrar sensações do tempo quando eu era mais jovem, "guardando a sensação inicial" e sentindo-a novamente, como um rememorar, como reler um livro muito querido. Sim: entendo: é "uma visão diferente", em ambos os casos. Mas, sei lá: acho que vale a pena capturar sensações (inda que não idênticas [nem poderia ser; e talvez não deva: talvez deva ser diferente mesmo, como o segundo encontro das personagens, a propósito, para ser interessante, importante, satisfatório]), essas sensações que a memória nos dá e nos afaga a alma, como um carinho materno: ainda vivo.
Parabéns pelo artigo!
Abraço.
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