as rosas falam

jornalismo, cultura e olhar crítico

Juliana Rosas

Jornalista e cinéfila. Fotógrafa nas horas vagas. Amante das artes nas horas cheias.

Para Woody, com amor

Um dos cineastas mais profícuos da atualidade, Woody Allen fez 77 anos no último dia 1º de dezembro. Fazendo um filme por ano, ele nem sempre agrada à crítica. Há uma minoria considerável que só o vê como protagonista de um escândalo. Mas para seus fãs, ele sempre será um gênio. Para os apreciadores do bom cinema, ele será sempre um autor de grandes sacadas.


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Assisti para Roma com amor dia desses. Sim, sou fã de Woody Allen, mas, à época, preferi fugir das contaminações de muitas críticas e opiniões sobre o filme. Não gosto de ser contaminada pela opinião alheia antes de assistir a qualquer filme, seja ele qual for, seja que opinião for. No caso de “Para Roma, com amor” (To Rome with Love, 2012), muito do que tinha visto e ouvido era negativo.

Já no caso de “Meia-noite em Paris” (Midnight in Paris, 2011), foi ao contrário. Só ouvia coisas boas sobre o filme, quão fantástico era, que eu não poderia perder. Quando finalmente o vi, fiquei desapontada. Não com o filme em si, mas pela contaminação prévia que tive, o que impediu de me surpreender como deveria. Será esse um complexo de Sheldon (The Big Bang Theory)? Que não pode ouvir que ele vai ‘pirar’ com determinado gibi? Meu caso não é para tanto. Mas é que, mesmo sem querer, acabamos nos deparando com a opinião alheia. As pessoas se empolgam quando gostam de um filme e dizem os motivos; e o mesmo quando não gostam. E quando queremos apenas que a arte nos deixe levar, isso acaba atrapalhando...

E não que eu viva correndo atrás de críticas porque não me contenho. Não, não. Às vezes, infelizmente, é inevitável, ao vermos somente uma manchete em jornal ou revista, postagens de alguém nas redes sociais, etc.

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Mas vamos a Woody, afinal, há pouco foi seu aniversário. E vamos ao filme. Eu adorei “Para Roma, com amor”. Alguns, principalmente os que não gostaram, podem dizer que sou suspeita para falar. Mas gostei mesmo. Sim, sou fã. E este é mais um filme típico Woody. Mas como não gostar disso?

E sabe por que é bom? (E eu já disse isso antes) Woody Allen não é pretensioso. Ele faz o filme que sabe fazer, tem um público cativo e embora possa nem sempre surpreender, sempre cativa, como o perdão da repetição.

É bom também porque o filme é o que resume o título: um filme para Roma, como o amor de seu diretor à cidade. Roma é um personagem. Sim, está inserida nas histórias, ela aparece tanto quanto eles, enfeita-se tanto quanto eles e mostra suas várias caras, facetas e histórias.

E o que falar da ambiência? Apenas com aquela fotografia divina, com aquela trilha sonora alegre e envolvente, já começamos a “volare”, alçando vôos, viajando por aquelas ruazinhas que guardam a história do mundo.

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E sim, algumas histórias são loucas demais para ser verdade, os diálogos idem, bem como o personagem “semi-fantasma” de Alec Baldwin. Além das já manjadas histórias entremeadas ou paralelas. Mas mesmo elas, ademais de engraçadas, são também inteligentes. Ou têm por trás a mensagem de Woody Allen, mesmo sem ser evidente, pois o diretor não é rancoroso nem se leva a sério. Por exemplo, a perseguição ao personagem de Roberto Benigni é uma clara crítica ao mundo das celebridades, como essas são vazias e mais ainda, como a própria mídia retroalimenta esse vício, com as pautas mais banais.

Embora já tenha tido sua porção de fama, perseguição e crítica pela imprensa em geral, atualmente, Allen já não é tão perseguido, já que leva um estilo de vida discreto. Mas já deixou claro outras vezes que não entende certas birras. Sim, seu casamento atual já lhe rendeu severos julgamentos. Mas ele mesmo já disse sobre a atual esposa, Soon-Yi: “Quando nos casamos, as pessoas pensavam que eu havia casado com alguém que me idolatrava, mas não é o caso. Quando a conheci, ela não tinha visto 90% dos meus filmes. Hoje em dia, ela ainda não viu 60% do que eu produzi”.

Seu casamento pode não ser o mais ortodoxo do mundo, há uma considerável diferença de idade, mas estão juntos há bastante tempo, constituíram família e união estáveis, por que todavia perturbação? “Qual foi o escândalo? Eu me apaixonei por essa garota, me casei com ela. Nós somos casados há quase 15 anos. Não houve escândalo, mas as pessoas se referem a ele o tempo todo como um escândalo e eu meio que gosto disso, de certa maneira, pois quando eu morrer eu gostaria de dizer que tive um verdadeiro escândalo suculento em minha vida”, disse em 2011.

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Apesar de ter dito em entrevistas que muitas vezes detesta seus filmes, Woody não pensa em parar. E como se nota ultimamente, seu ritmo é quase frenético para os padrões cinematográficos. Afinal, quem mais faz seguidamente, há anos, um filme por ano? Ao mesmo, ele já disse que filmar é apenas uma de suas atividades. Entre seguir para uma sessão de jazz para tocar seu clarinete ou refazer uma cena, ele escolhe o primeiro. Como não amar um diretor assim? E como não amar, ainda mais, tiradas do tipo:

“Não quero atingir a imortalidade com meu trabalho, mas sim não morrendo.”

“Se Deus existe, por que Ele não me dá um sinal de Sua existência? Como por exemplo, abrir uma bela conta em meu nome num banco suíço?”

“Por favor, não atirem em mim. Tenho uma tolerância muito baixa à morte.” Em “Cassino Royale” (1967).

“A comida desse lugar é péssima. É, e as porções são tão pequenas.” Em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977)

“Estou tratando de um caso muito interessante: dois pares de gêmeos siameses com personalidade dupla. Para cada consulta, ganho o equivalente a oito”. Em Zelig (1983)

Fonte das imagens: 1, 2, 3, 4.


Juliana Rosas

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