as rosas falam

jornalismo, cultura e olhar crítico

Juliana Rosas

Jornalista e cinéfila. Fotógrafa nas horas vagas. Amante das artes nas horas cheias.

O lado lobby da vida

O lado lobista das premiações de cinema, ganhadores duvidosos e o poder por trás da máquina.


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Oscar é lobby. Cresci ouvindo isso. Já repeti muito isso. Então não sei por que ainda me surpreendo com essas indicações bizarras do Oscar. Também não sei por que ainda comento os ganhadores ridículos. Aliás, não sei nem porque estou dando crédito a esse tipo de premiação.

Alguns atores, mais avessos à ufania que essas premiações se tornaram, também ojerizam esse tipo de competição artística. “É como dizer que amarelo é mais bonito que verde”, já ouvi. Mas, no fim das contas, a maioria gosta. E muitos, de fato, acham amarelo mais bonito que verde. E não importa se não podem comparar. Se alguns chefões de estúdio decidiram achar que amarelo é mais bonito, ah, cherry, assim o será.

Por quê? Por que essas premiações ainda movem o mundo. Porque movimentam dinheiro. E dinheiro move o mundo. E porque desde que mundo é mundo, ser humano adora competir. Mas ainda há um ser que aprecia isto ainda mais: o americano. Competir, apenas, não. Americano gosta de ganhar. E lá, perdedor (loser) é um palavrão ofensivo.

E como aconteceu com coca-cola, hambúrguer e batata frita, eles importaram também as competições e o discurso que ganhar é bom e perder é deprimente. Kate Winslet, atriz inglesa, finalmente ganha seu Oscar em 2009 e diz: “Desculpe-me, Meryl (Streep), mas você vai ter que engolir essa”. E na entrevista coletiva, acrescenta: “Já estive aqui e perdi e devo dizer: ganhar é bem melhor”.

Muitos se emocionam, choram, agradecem pai, mãe, filho, cachorro, gato, periquito, papagaio. Mas a maioria está feliz mesmo porque ganhou. Sai vibrando, com o Oscar em punho, levanta-o como um troféu, dá gritinhos e se diz o rei do mundo.

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O que me levou a escrever isso hoje? Porque acabo de ver “O lado bom da vida” (Silver Linings Playbook, 2012) e fiquei imaginando porque um filme como este chega a ser indicado e até ganha prêmios como o Oscar. Não que minha antipatia ao Oscar me faça desapreciar boas obras. Vi, por exemplo, “A hora mais escura” e achei um filme muito bom, com uma firme atuação da belíssima Jessica Chastain - indicada ao Oscar de melhor atriz, a propósito. E adivinhem para quem ela “perdeu”? Jennifer Lawrence, de “O lado bom da vida”. Pena. É por isso que estou indignada? Não. Embora acredite que outros papeis exigiram bem mais de outras atrizes nomeadas do que a performance de Lawrence.

Aí vem nosso título. Ao fim do filme, estava me perguntando como “O lado bom da vida” ganha tantas indicações da que está longe de ser a melhor premiação do cinema mas é, certamente, a mais poderosa. Ao ver os créditos finais, percebi. Produção: Harvey Weinstein e Bob Weinstein. E lembrei-me do Oscar 2012. Em que outra situação um filme francês, dirigido por um francês, estrelado por franceses, mudo e em preto e branco seria a sensação do ano se não tivesse a assinatura dos poderosos produtores?

Lobby, por definição do dicionário Aurélio: S. m. 1. Grupo de pessoas ou organização que tem como atividade profissional buscar influenciar, aberta ou veladamente, decisões do poder público, esp. no legislativo, em favor de determinados interesses privados; 2. A atividade de tal grupo ou organização.

Os irmãos Weinstein estão influenciando o poder público? Modificando leis? Não. Mas podemos dizer que influenciam o poder de atenção do público e mexem pauzinhos nas leis e negócios do cinema. Sabe como os americanos se referem à indústria do entretenimento? Business. Simplesmente. E “business is business, baby”. E como no último ganhador francês, nem precisa de tradução.


Juliana Rosas

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