as rosas falam

jornalismo, cultura e olhar crítico

Juliana Rosas

Jornalista e cinéfila. Fotógrafa nas horas vagas. Amante das artes nas horas cheias.

A solidão da literatura prima

Nem sempre iremos gostar das adaptações literárias para o cinema. Nem por isso, podemos detratar qualquer um dos trabalhos e deixar de reconhecer seus méritos. Para mim, ler/ver essas duas obras foi mais que uma apreciação estética ou intelectual. Foi uma experiência ao mesmo tempo doce, amarga reflexiva e divertida. O que nos faz ver uma obra como única. E prima. Nem que seja apenas para nós mesmos.


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Li “A solidão dos números primos” não faz muito. Nem lembro como fiquei sabendo do livro. O título chama a atenção. Como boa jornalista, não entendo nada de números ou matemática, mas fico fascinada por esse universo que foge a minha compreensão. Felizmente, consegui o livro numa biblioteca e o devorei em algumas lidas. Só não li mais rapidamente pela impossibilidade das obrigações. Pouco depois, fiquei sabendo do filme. Fiquei curiosa, mas aguardei.

Algumas coisas me fascinaram no romance. Ele tem um mistério que prende, tem passagens de tempo que ora confundem, ora aguçam a curiosidade. E o fato piorou quando vi que o autor era jovem. E mais jovem ainda quando escreveu o livro. Da minha idade! Eu só pensava que eu não possuo um talento desses. Infelizmente.

No avançar da leitura e mais ao fim dela, vi que a minha paixão era maior pela leitura em si do que pela obra. Era pelo prazer de ler literatura. Era uma mudança no andar da carruagem. Após longos períodos lendo quase que exclusivamente apenas jornalismo e fazendo leituras técnicas (não ficção), ler romances veio como uma lufada de ar fresco.

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Tanto que, assim como senti uma diferença ao iniciar o livro, foi difícil voltar às leituras obrigatórias. Eu me lastimei algumas vezes, anteriormente, pela falta de tempo em ler ficção. Porém, toda vez que tentava começar, não conseguia. Aquela leitura me parecia esquisita. Ou quiçá eu não tivesse encontrado o livro certo na hora certa. Faltava o timing correto. Dizem que são os livros que nos escolhem e não o contrário, não é mesmo?

Depois dessa leitura atraente, li outra ficção, também por acaso. E também dinâmica. Não que eu tenha lido super rapidamente ou pulei páginas. Mas fiquei tão empolgada com aquele livro que me chamou a atenção pelo título (mais uma vez) e uma intrigante narrativa (de novo!) e que achei por acaso na estante de um amigo, que o li em um único dia! Quase sem pausas. Mais sobre isso depois, quem sabe.

Voltando à solidão dos números primos, eis que depois de algum tempo, finalmente, assisto ao filme. As passagens do livro não estavam tão vivas na minha mente como outrora. Mas achei que isso não fosse problema. Pensei até que talvez fosse melhor, me ajudaria a evitar a comparação. No entanto, à medida que o filme se desenrolava, me vinha à mente a história literária e muitas vezes a comparação era inevitável. Mas como eu adoro cinema, (talvez mais do que literatura) sempre achei um saco aquele tipo de gente que fica reclamando que a adaptação não foi fiel ao livro e blábláblá – aquela ladainha de sempre. Minha opinião sempre foi: o filme não é uma cópia filmada do livro! É outra obra! É impossível contrapor o livro para a tela! Quão difícil é entender isso? E olha que “A solidão...” nem é um livro extenso.

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Porém, claro, há boas e más adaptações. Independentemente de quão fidedignas elas decidiram ser. Minha leitura é que o filme “A solidão dos números primos” quis ser fidedigno, mas como não dá para colocar tudo na tela, algumas explicações ficaram faltando, deixando alguns buracos na história, o que não deixa o filme redondinho. Tampouco, se conseguiu criar uma história diferente e igualmente interessante, não obstante a apropriada escolha de atores e dignas atuações.

De todo modo, são histórias que valem a pena conhecer. Paolo Giordano (autor do livro) criou uma história de pessoas danificadas, seja pelo tempo, por experiências ou por pessoas próximas. Estragos que permaneceram ao longo do tempo. Deixaram feridas e cicatrizes no corpo e na mente.

Mattia é um gênio da matemática que vem a estudar os números primos. Infelizmente, a única passagem desse assunto no filme é pequena, superficial e irrelevante. Em tempo: números primos são os números naturais que têm apenas dois divisores diferentes: o 1 e ele mesmo. Exemplos: 2 tem apenas os divisores 1 e 2, portanto 2 é um número primo. 19 tem apenas os divisores 1 e 19, portanto 19 é um número primo.

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Ao longo do livro, ficamos imaginando quem seriam os números primos da história. Mattia e sua irmã gêmea? Unidos pelo sangue e separados pela mente? Mattia e Alice? Unidos por comungarem de tragédias em suas vidas e famílias, pelos sofrimentos transmitidos a seus corpos, mas que por um motivo que não conseguem compreender, estão sempre separados. Assim como um número natural sempre separa seu primo gêmeo.

“A solidão dos números primos” – livro e filme – também parecem ter algo que os separa. Nenhum é uma obra prima, mas valem a pena ser conhecidos. Para mim, foi uma prima experiência.

Fonte das imagens: 1;2;3;4.


Juliana Rosas

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