as rosas falam

jornalismo, cultura e olhar crítico

Juliana Rosas

Jornalista e cinéfila. Fotógrafa nas horas vagas. Amante das artes nas horas cheias.

Sobre leões, cordeiros, campos, batalhas, ciência, política, jornalismo e vocações

O enredo do filme “Leões e Cordeiros” e sua trama que inspira reflexões weberianas, políticas, bélicas e de diferentes campos.


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Eu tenho um professor de ciência política. Ele é bom, muito bom. No entanto, ser chato faz parte do seu marketing pessoal. Mas isso não é ruim. Com relação a nossos trabalhos, ele está ali para deixar nossa crise ainda mais aguda e não apaziguá-la. Bem, já isso é ruim... Mas, trabalhando o corpo ou a mente, “no pain, no gain”.

E como não poderia deixar de ser, lembrei do prezado professor ao, dia desses, assistir ao filme “Leões e Cordeiros” (Lions for Lambs, 2007), dirigido pelo “actor turned director” Robert Redford. Não poderia deixar de ser porque o personagem de Redford é um professor universitário de Ciências Políticas exigente para com os alunos e com um olhar clínico para identificar alguns tesouros brutos. Estudantes que lhe dão esperança. Esperança em que? Em alguém que fuja do mainstream, do status quo, do establishment de alguém que só queira passivamente usufruir do “american way of life”.

E “Leões e Cordeiros” se desenrola no entremeado entre as histórias dos últimos alunos a alimentar a esperança do professor Stephen Malley, sua atual esperança (outro estudante) e a entrevista da jornalista interpretada pela sempre competente Meryl Streep com o senador conservador republicano interpretado pelo igualmente conservador ator Tom Cruise. Este, apesar de aparentemente o papel lhe servir como uma luva, é o pior do filme. Diegética e extra-diegeticamente.

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Durante o tempo da entrevista, que percorre todo o filme, há cenas usando tomadas clássicas do cinema, com a câmera em posição superior ou inferior ao indivíduo. Lembrou-me as primeiras explicações sobre cinema e enquadramentos de câmera utilizando o clássico dos clássicos, “Cidadão Kane” (Citizen Kane, 1941), e como Orson Welles usava aqueles exagerados enquadramentos para aumentar ou diminuir, elevar ou subjugar, enaltecer ou obscurecer um personagem.

Não sei se isso foi intencional do diretor, afinal o personagem de Cruise é mais poderoso que o da jornalista de Streep, mas as tomadas em que a câmera diminui a jornalista em relação ao senador são patéticas. Fiquei pensando se não é minha aversão à interpretação de Tom Cruise que me causou essa inquietação. Mas cheguei à conclusão que não. E também custo a acreditar que foi algum desleixo de direção do sempre competente Redford. Mas se isso foi uma escolha consentida, não foi a das melhores. Justamente pelo tom crítico e talvez até denuncista do filme. Não só o enredo tem esse caráter, como também o seu diretor. O filme e o diretor, pela voz do seu personagem claramente afirmam: “O problema está com as pessoas que começaram isso (a guerra americana contra o ‘terror’). O problema está conosco. Com todos nós, que não fazemos nada”.

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E para fechar as coincidências entre ficção e realidade, eis que no nosso grupo de estudos, o autor da semana é Max Weber, a obra é “Ciência e política - duas vocações” e o convidado é o exigente professor! Não o Redford, infelizmente. E do que trata o autor alemão? Ciência, pesquisa, professores e tudo que rodeia esse mundo. E política, políticos e vários aspectos desse campo. Ambos também representados em “Leões e Cordeiros”. E o que mais diz o sociólogo para nos surpreender?

Weber mostra pontos de encontro e divergência entre o cientista e o político. Para ele, ambos os agentes procuram estas profissões visando não trabalhar, vivendo assim às custas do contribuinte por intermédio do Estado. O cientista não deve interferir na esfera política, pois um dia seu partido pode perder a eleição para um partido rival e com isso ele perder suas regalias nas pesquisas, para o Estado. Já o político não deve perder seu tempo com algo que dá muito pouco dinheiro como a pesquisa científica.

Esquentando esse embate, entra Todd Hayes (Andrew Garfield), último aluno que o professor Malley decide apostar suas fichas de esperança. Uma hora, ele pergunta: “E quanto ao senhor? É aquela história, those who can’t do teach. Ser professor é o máximo que pode fazer?” No Brasil, há um ditado (piada?) semelhante: quem sabe faz, quem não sabe ensina. Para que serviria a ciência, então? Para que estudos? Para que questionar? Para que querer entender a fundo a realidade?

E na outra ponta, quem temos? O político de carteirinha, o Sr. Tom Cruise, senador Jasper Irving. Weber afirma que há dois modos pelos quais alguém pode fazer da política a sua vocação: viver para a política - faz dela a sua vida, num sentido interior, desfruta a posse do poder que exerce pela consciência de que sua vida tem sentido a serviço de uma causa; ou viver da política: quem luta para fazer dela uma fonte de renda permanente. Tomar uma posição, ser apaixonado, é o elemento do líder político, aqui, claro, representado pelo republicano almofadinha, melhor da classe, que sempre trabalhou no setor da inteligência e nunca precisou se ferir no campo de batalha. Ainda segundo Max Weber, desde a época do Estado constitucional, desde que a democracia se estabeleceu, o demagogo tem sido o líder político típico do Ocidente. O publicista político, e acima de tudo o jornalista, é hoje o representante mais importante da espécie demagógica.

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Só esclarecendo: demagogia – conjunto de processos políticos hábeis tendentes a captar e utilizar, com objetivos menos lícitos, a excitação e as paixões populares. Quem o senador procura para “vender” a guerra como lícita à população? A jornalista, claro. Porém, essa jornalista não é uma mocinha inexperiente. Ela pressente a demagogia inflamada e não quer fazer parte do processo sujo. Isso renderia uma bela análise: o campo jornalístico entrando em cena no embate político e científico. “Weber considera humana e comovente quando uma pessoa tem consciência da responsabilidade pelas consequências de sua conduta e realmente sente essa responsabilidade no coração e na alma”. Creio que esse trecho sobre a obra cairia como uma luva para a inquietação da nossa Meryl jornalista.

No fim da batalha, que campo ganha? Científico, político, jornalístico? Quem é o lobo mau e quem são os pobres cordeirinhos? Eles existem? Um filme curto, simples, direto, com mais perguntas que respostas. E que meteu o dedo na ferida americana, fazendo até que esta obra cinematográfica à época do lançamento fosse razoavelmente ignorada.

Fonte das imagens: 1; 2;3;4.


Juliana Rosas

Jornalista e cinéfila. Fotógrafa nas horas vagas. Amante das artes nas horas cheias..
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