as rosas falam

jornalismo, cultura e olhar crítico

Juliana Rosas

Jornalista e cinéfila. Fotógrafa nas horas vagas. Amante das artes nas horas cheias.

E continua não acreditando...

“A caça” apresenta atuações brilhantes, roteiro e direção impecáveis. E toca num assunto interessante a se discutir: a inocência infantil. Por que ainda acreditamos na ingenuidade das crianças?


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Nunca chorei tanto ao assistir a um filme. Chorei alto. Chorei gritando. Chorei soluçando. Ao final, meus olhos estavam tão vermelhos e o rosto tão inchado que fiquei assustada. Por que aquilo? Por que uma reação tão forte? Será que foi um expurgo? Precisava chorar aquilo e o filme foi um meio de escape?

Achei estranho, pois estava bem. Contente e tranquila. Mas ao ver tanta injustiça à minha frente e continuar a assistir impotente, não resisti. As lágrimas foram a válvula. Para quem acompanhou até agora sem entender nada, achando que surtei, explico que essa foi minha reação assistindo ao filme “A caça” (Jagten, 2012, Dinamarca).

O título se refere a uma chamada de outro texto meu que também postei aqui na Obvious: “O cinema nunca acreditou na inocência das crianças”. Nele, minhas referências cinematográficas principais são dois filmes que tinha visto proximamente, à época: “Deixa ela entrar” e “Em um mundo melhor”. Após esse meu mais recente choro descontrolado, notei outra coincidência: “A caça” é outro filme nórdico.

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Foi aí que fui buscar na memória as razões emocionais para a tal reação. Falei nesse mesmo texto que conheci um sueco na minha primeira viagem à Europa. Além da conversa sobre o bullying, tivemos outras. Sempre que surgia um assunto relativo às terras escandinavas, eu comentava. Certa vez, comentei estar vendo uma coletânea de filmes do sueco Ingmar Bergman. E que também era uma grande fã do dinamarquês Lars von Trier. Ele me alertou: “Cuidado com os filmes de Bergman ou Von Trier. Eles são bastante depressivos e podem tirar-lhe a alegria da vida”, ou algo assim.

Mas foi exatamente como me senti. Ou como me sinto ao ver filmes nórdicos. Quase todos, pelo menos. Não que sejam ruins. Pelo contrário, são ótimos. Tão bons que penetram fundo na alma. E às vezes tão fundo a ponto de querermos cortar os pulsos. Ainda bem que as estórias chegam ao fim. E ainda bem que moramos no Brasil. Do contrário, quiçá alcançar uma lâmina fosse inevitável.

Enfim, acho que sobre o filme, eu não tenho muito a acrescentar além do muito que já foi dito, como neste outro interessante post da Obvious falando do poder da histeria coletiva. Só retomarei ao principal ponto do meu texto anterior sobre o tema, quando afirmo “No cinema, é longa a lista de crianças agressoras, possuídas, endemoniadas, psicóticas, bullies ou simplesmente más. A tevê e a sociedade tradicional ainda querem acreditar na candura infantil. O cinema nunca acreditou na inocência das crianças.”

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Em “A caça”, um amigo de Lucas – personagem principal, interpretado pelo excelente ator Mads Mikkelsen – a certa hora afirma: “As crianças inventam muito. Detalhes que não existem. Não sei se é a imaginação, se falam como seus amigos ou seus pais. Sempre partimos do princípio que as crianças não mentem. Infelizmente, elas mentem muito.

Custa-me a compreender como o princípio da candura e inocência infantil alastrou-se tanto em tão pouco tempo. Estou aqui escrevendo um texto e manifestando minha opinião sobre um assunto e determinado ponto de vista, obviamente. Não deveria ter que me justificar, mas aqui vai: não odeio crianças. Já falei diversas vezes que se tivesse filhas e alguém as violentasse, minha vontade seria fazer justiça com as próprias mãos. Acho a pedofilia e qualquer modo de abuso sexual, com qualquer um, algo abominável. Porém, estou aqui tentando fazer uma trajetória histórica, falar sobre justiça e tentar afastar o lado pessoal.

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A infância é uma “descoberta” recente. Até o século XIX, a criança era considerada um pequeno adulto. Reis poderiam ascender ao trono mesmo aos cinco anos. Veja o exemplo do Dom Pedro II, no Brasil. Ok, ele tinha um tutor. Mas, mesmo assim, foi coroado. Acreditava-se que as crianças eram adultos num corpo pequeno. Não lhe eram poupados trabalhos corporais ou conversas de adultos. Essa construção da infância como uma fase “especial” é recente.

Mesmo recente, arraigou-se tanto, que nos sentimos transtornados em ver a inocência devastada. Pensem bem: os direitos feministas, étnicos e homoafetivos também são uma conquista recente e nem por isso foram absorvidos pela maioria das sociedades. Apesar das lutas e direitos, o preconceito ainda é enorme. Por que a candura infantil foi reificada e o respeito às mulheres não? Ou aos negros? Ou aos homossexuais?

No filme, mesmo provando sua inocência, Lucas sofre perseguição e desconfiança. Mas na mentira de Klara, a criança, nunca se pensou em desconfiar. É politicamente incorreto não gostar de crianças. Mas bater em mulheres ou ser racista, é muitas vezes aceitável. E a homofobia é incentivada em alguns segmentos. Por que elegemos alguns valores e outros não? Em vésperas de Natal, quando muitos comemoram o nascimento de uma criança em especial, muitos poderão ficar mais impressionados com reflexões desse tipo. Que atire a primeira pedra quem já julgou sem refletir.


Juliana Rosas

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