as rosas falam

jornalismo, cultura e olhar crítico

Juliana Rosas

Jornalista e cinéfila. Fotógrafa nas horas vagas. Amante das artes nas horas cheias.

Somos o que criticamos: justiça ou vendeta?

Criticamos os outros e não fazemos autocríticas. Requisitamos para nós, mas não damos a presunção da inocência. O réu é culpado até que se prove o contrário. Pois todos são culpáveis e nós estamos certos. E nossa ética é correta demais para a autocrítica.


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Estava pensando em como fazer esse texto ser “obvious worthy”, pois a princípio ele foi pensado mais como um desabafo. Porém, um desabafo inspirado em posts da Obvious, não só meus, mas de outros colegas loungers. E depois, percebi que estava querendo dar respostas para tais textos, assuntos que eu própria, coincidentemente, havia escrito, há não tanto tempo.

Pois bem, primeiramente, vi esse texto sobre “A caça”. Havia escrito sobre o filme aqui, inspirada também por outro texto da Obvious sobre a mesma película. Pouco depois, vi esse texto sobre Woody Allen, cineasta que admiro e que, ano passado, bem antes do prêmio do Golden Globe 2014 pelo conjunto da obra, teve aqui minha singela homenagem.

Qualquer coisa que se diga sobre Woody Allen será polêmica. Sempre o foi e mais especialmente hoje me dia. Há quem o ame ou odeie. Há quem venere e quem deteste seus filmes. Eu adoro sua arte, eu simpatizo com sua pessoa. Isso posto, vamos a outras considerações.

Primeiramente, nem percebi, depois fiz as conexões entre os posts, as críticas, os fatos, os filmes. Uma colega lounger postou sobre o cineasta e os relacionamentos. No mesmo dia, creio, aparece a carta aberta da filha adotiva de Mia Farrow (ex-namorada de Allen), dizendo que Woody a havia molestado quando ela era criança. Desde que Woody Allen recebeu o prêmio do Golden Globe (a propósito, anunciado por sua amiga até hoje e outra de suas célebres ex-namoradas, a “Annie Hall” Diane Keaton) Mia Farrow e seu filho biológico com Allen, Ronan, têm escrito detrações por cima de detrações com relação ao diretor. Calúnias estas que perduram há quase duas décadas porque Mia Farrow nunca se conformou, como disse aqui Ruy Castro, com o fato de outra de sua filha adotiva, Soon-Yi, ter se casado com Allen.

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Para quem quiser, há inúmeros textos para melhor esclarecer os fatos. Só irei destacar alguns: Soon-Yi não era menor de idade quando começou seu relacionamento com Allen. Woody foi inocentado da acusação de ter molestado Dylan, a filha de Mia, hoje com 28 anos que alega ter sido violentada aos sete. Testes, à época, provaram que não houve contato sexual na menina, babás depuseram em favor de Woody, a polícia chegou à conclusão que Dylan foi altamente influenciada por Mia, que desde então, busca uma vingança incontrolada.

O que isso tem a ver com “A caça”? Em meu texto, o foco recai sobre como a sociedade, em tão pouco tempo histórico, colocou a infância e as crianças em um pedestal de inocência, acreditando que estas são sempre puras e verdadeiras. Criança não mente, criança não faz maldade. A sociedade tenta acreditar nisso. O cinema rejeita a ideia. Outros posts focaram na histeria coletiva que um fato não comprovado pode causar, quão frágeis são nossos laços humanos e como podemos destruir uns aos outros.

Já expus minha simpatia por Allen. Mas vou dizer mais. Meu lado feminista tem uma profunda antipatia (que quase beira o preconceito) por relacionamentos entre homens mais velhos e mulheres mais novas. Não tolero pedófilos, tenho asco a estupradores. Porém, minha antipatia não corroeu minha razão. Allen casou com Soon-Yi, permanecem casados há 16 anos, têm duas filhas adotivas. Essa esposa confiaria em um homem a ponto de com ele casar e construir família se ele fosse um pedófilo violador? Em troca de quê? Vocês sabem quem é Soon-Yi afora sua ligação com Allen? Por acaso ela fez fama com isso? Escreveu livros? Virou modelo, atriz? Não.

Outro exemplo. Roman Polanski. Acusado de estupro por ter tido uma relação com uma garota de 13 anos. Essa menina, hoje uma mulher por volta de 50 anos, com marido e filhos, se resolveu sobre o caso. Perdoou Polanski, admitiu que ele não foi violento e que aquela não foi sua primeira relação sexual. Roman hoje também é um homem casado com filhos. Nem assim, a justiça largou do seu pé. Parece que a justiça quer mais vingança que a própria vítima. Aprovo homens de 40 anos tendo relações com adolescentes? Não. Mas justiça, em termos legais, não se trata de vingança.

Para terminar, um último exemplo que eu gostaria de trazer à tona. Outro caso de pessoa famosa que teve parte de sua carreira e paz destruídas ao nunca ter-lhe sido dado o “benefício da dúvida”: Michael Jackson. Tampouco não vou repetir sua história. Os fatos estão disponíveis. Só vou lembrar-lhes o seguinte: em 1993, foi acusado de abuso infantil, mas a investigação foi arquivada devido à falta de provas e Jackson não foi a tribunal. O caso foi resolvido fora da corte e Jackson pagou a quantia, à época, de cerca de 20 milhões de dólares à família do menino que o acusou. A inocência de Michael só foi provada após sua morte, quando esse garoto afirmou ter mentido por ordem do pai. Este mesmo pai cometeu suicídio em 2009, quatro meses após a morte de Michael Jackson. Sobre as acusações de abuso contra outro garoto, em 2003. Desta vez, foi a julgamento. Foi inocentado.

Em “A caça”, o personagem Lucas é inocentado judicialmente. Depois de muito sofrer com as consequências da histeria coletiva, restabelece as conexões com seu melhor amigo. A sociedade, no entanto, não só não tem o benefício da dúvida antes da sentença. Já tem o julgamento final. E mesmo passado muito tempo, alguém que não tem nada a ver com a família da garotinha, estará sempre à espreita.

Como lembrou o documentarista Robert B. Weide nesse longo texto, cheio de detalhes sobre fatos e de leitura válida, após os tuítes de Mia e Ronan, ele viu nos comentários da internet que, majoritariamente, as pessoas queriam a cabeça de Allen. No mínimo, que ele apodrecesse na cadeia. Mal ouviram falar em Dylan, a filha adotiva, e já nela acreditaram. E esqueceram – ou nunca lembraram – das milhões de mulheres mutiladas, espancadas, humilhadas diariamente, que, mesmo com mais motivos, não têm voz, não podem escrever cartas abertas, não são ouvidas.

Queremos acreditar na justiça mas também fazê-la com as próprias mãos. Queremos dar a presunção da inocência, mas culpamos até que se prove o contrário. Somos piores do que o que criticamos.

Imagens: 1;2.


Juliana Rosas

Jornalista e cinéfila. Fotógrafa nas horas vagas. Amante das artes nas horas cheias..
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