as rosas falam

jornalismo, cultura e olhar crítico

Juliana Rosas

Jornalista e cinéfila. Fotógrafa nas horas vagas. Amante das artes nas horas cheias.

Elysium e sobre como seremos sempre demasiado humanos

Após ver Elysium, não pude deixar de lembrar-me do mito fascista, do filme Avatar e de outras ficções científicas com um pé na fraqueza humana e no desejo pelo herói salvador.


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Pelo menos uma coisa prevaleceu na minha cabeça após assistir a Elysium (2013): o mito do herói salvador permanece ou então não temos mais criatividade nem em ficção científica. Pensei a mesma coisa após ver Avatar (2009), anos atrás. Não é que não tenha gostado dos filmes, são bons para entretenimento e de quebra ainda te fazem pensar um pouco, apesar da distração dos efeitos especiais. E apesar de toda a quebra de recordes, todos os milhões e toda surpresa do filme de James Cameron, Elysium tem algo que aquele não tem: Wagner Moura! O nosso grande ator brasileiro contemporâneo salva a obra em muitos aspectos e é a alma cômica do filme sem cair no charlatanismo ou piadas estúpidas que os blockbusters adoram inserir em cenas de ação ou desastre.

Essas duas películas têm esse aspecto em comum: são ficções científicas passadas em um futuro longínquo, onde a humanidade está muito avançada em termos de tecnologia, mas não consegue lidar com seus sentimentos mais sórdidos. Em uma entrevista no documentário “Made in Hollywood” (2011) – muito bom, por sinal – vi este comentário que me chamou muito a atenção: “Avatar tem um excelente roteiro, se você gosta do mito fascista”. E Elysium segue o mesmo princípio. Estamos no ano 2154, a Terra é retratada como à beira do inabitável, com uma ciência tão avançada como o desejo de separação dos ricos. Agora, não construímos mais condomínios fechados de luxo, elaboramos uma gigantesca estação espacial que mais lembra um mini planeta ou uma espécie de satélite habitável. Bonito, limpo e perfeito, que enfeita a visão dos terráqueos ao mesmo tempo em que pasma e provoca inalcançáveis aspirações de lá viver nos habitantes do que restou da Terra: isso é Elysium. A propósito, não recordava disso, mas pesquisando, vi que o enredo de Avatar também se passa no ano de 2154. Coincidência?

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Pois bem, Elysium também carrega esse quê de mito fascista, quiçá de modo ainda mais exasperado. Max (Matt Damon) é um trabalhador “terrestre” (terráqueo?!) de origem simples que após sofrer um acidente radioativo na fábrica onde trabalha, sua única chance de sobreviver é chegar até Elysium, a estação. Lá, toda residência possui um aparelho doméstico tão comum quanto a atual geladeira. O que a tal máquina faz? Cura todas as doenças. Até o câncer. Coisa básica. Pois bem, o mito fascista tem, em sua ideologia, os mitos do renascimento, da decadência, da juventude, do poder nacional, da grandeza e do progresso, entre outras características.

Tais traços são vistos aqui e ali no filme e não apenas no personagem Max. A decadência, por exemplo, está em toda a classe abastada que decidiu até orbitar a Terra para se manter longe dos pobres. Bem como o mito do renascimento, pois a sobrevivência e tratamento de doenças graves estão a um clique de distância. Mas no percurso para conseguir sobreviver, Max se transforma no herói salvador, que ajudará não só a si, mas aos pobres terráqueos necessitados, incluindo a filhinha da personagem de Alice Braga.

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Mais uma vez, lembramos que este simples “eletrodoméstico” só está disponível para os habitantes de Elysium. Lugar, a propósito, mais difícil de invadir que a segurança de condomínios luxuosos. Há tentativas? Claro! E agora, o crime organizado não possui apenas as melhores armas de uso exclusivo do exército. Eles dirigem naves espaciais! E para amenizar uma ameaça dessas, o chefe da quadrilha é o sempre brilhante Wagner Moura, cujos maneirismos que deixam seu personagem mais carismático – como a maneira de falar e o uso da bengala – foram pensados pelo próprio.

E como toda boa ficção científica galáctica, há guerras espaciais para criar a ação. É com essas naves espaciais piratas que a presumida escória da Terra tenta invadir Elysium. Nem sempre com sucesso, claro, pois qualquer tentativa de aproximação é tratada com tolerância zero pela “xerife” Delacourt (a sempre competente Jodie Foster). Aliás, a ralé terrestre é retratada majoritariamente como latinos, negros e brancos pobres, onde a língua espanhola parece ser tão comum quanto o inglês nos EUA. E o contraste fica por conta do francês comumente falado na órbita dos ricos.

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Falando em mito fascista, este último termo é derivado da palavra em latim fasces, um feixe de varas amarradas em volta de um machado, que foi um símbolo do poder usado pelo Império Romano, associado ao poder e à autoridade. Modernamente, foi incorporado pelo regime fascista na Itália, uma vez que os “fasces” sugeriam “a força pela união”. E como não se lembrar desses feixes após ver Max transformado num quase robô? Para o historiador britânico Laurence Rees, autor de “O carisma de Hitler”, o desejo da humanidade pelo “herói salvador” não mudou desde o líder nazista. Bem, eu ousaria em dizer que esse desejo é bem mais antigo que Hitler. E mais antigo até que o mito cristão. Por isso, é impossível não perguntar que por mais “avançados” que estejamos, ainda seremos sempre míseros, frágeis, meros e mesquinhos humanos? Usando outro “mito”: seremos sempre humanos, demasiado humanos.


Juliana Rosas

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