as rosas falam

jornalismo, cultura e olhar crítico

Juliana Rosas

Jornalista e cinéfila. Fotógrafa nas horas vagas. Amante das artes nas horas cheias.

Hoje eu quero pensar singelo

O filme brasileiro “Hoje eu quero voltar sozinho” (2014) trata de temas considerados socialmente delicados, mas os aborda com delicadeza. Na minha singela opinião, esse é seu maior trunfo e triunfo.


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Eu havia gostado bastante do curta-metragem “Eu não quero voltar sozinho” (2010), portanto, fiquei com vontade de ver o novo longa, mas entrei no cinema sem saber nada previamente. Considerei que seria a continuação daquela história. No entanto, “Hoje eu quero” trata da mesma história, dessa vez mais desenvolvida para o formato longa-metragem, com os mesmos personagens e atores, que obviamente cresceram um pouco. Mas a história ainda se passa no colégio, com alunos do ensino médio (aparentemente), contando anseios, aprendizagens e tudo mais que se passa na vida de um adolescente.

Para quem não sabe, o curta girava em torno de Leonardo, Giovana e Gabriel, três adolescentes colegiais. Leonardo é cego, Giovana é sua melhor amiga e Gabriel é novato no colégio que faz essa dupla se tornar um trio. Giovana tem uma queda por Leo (e no longa terá por Gabriel), e este vai se apaixonar por Gabriel. Gabriel ouve a declaração do amigo quando este pensa estar falando com Giovana. Gabriel parece gostar do que ouve e corresponder ao sentimento, dando um beijo surpresa em Leo. E assim acaba o curta.

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O longa também tem como foco os personagens dentro da escola (mas também fora dela) e dessa vez outros colegas de sala têm maior participação no enredo. Se formos analisar friamente, poderíamos dizer que a história traz pelos menos dois temas tabus: deficiência e homoafetividade. E tudo isso na adolescência! Mas o filme é tão singelo e aborda tudo com tanta naturalidade que não é isso que se sobressai. É muito interessante como o diretor conseguiu abordar a descoberta da sexualidade, a deficiência visual e as relações pessoais dessa fase sem cair no lugar-comum. Ambos, curta e longa, foram escritos e dirigidos por Daniel Ribeiro, que sabiamente conduziu um filme de adolescente singelo, delicado e sem clichês gritantes.

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O mais interessante de tudo é que pelas observações de dentro e de fora do cinema, as emoções são parecidas e a recepção tem sido de aprovação. Amigos - gays e heteros - adoraram, a moça do meu lado (acompanhada do namorado) estava chorando, gays choraram, casais héteros aprovaram, um casal de idosos gostou, um velhinho que saiu de bengala elogiou e ainda saiu comentando com o casal de semelhante idade, porém, desconhecidos.

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Para mim, a arte não deve ser definida, não deve ter um sentido definitivo. Não é obrigada a ter uma intenção pedagógica, social ou panfletária. Mas pode ter e não há problema nisso. Artistas podem querer fazê-lo e manifestar suas posições por meio da arte. Contudo, arte pode ser tudo isso sem imposição. Pode-se contar uma história singela como a de “Hoje eu quero voltar sozinho” e no final apenas descrevê-la como um filme de adolescente. E é isso que o filme é. Não importa “como” são, “o que” são os personagens ou que estereótipos carregam. No fim das contas, eles são gente. Com açúcar e com afeto, gente como a gente.


Juliana Rosas

Jornalista e cinéfila. Fotógrafa nas horas vagas. Amante das artes nas horas cheias..
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