as rosas falam

jornalismo, cultura e olhar crítico

Juliana Rosas

Jornalista e cinéfila. Fotógrafa nas horas vagas. Amante das artes nas horas cheias.

YSL: bel amour, belle mode

A moda passa. Estilo é para sempre. Tendências se foram. O estilo YSL ficou. Yves se foi, o amor que deixou e a beleza que criou, permaneceram.


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A recém lançada película francesa Yves Saint Laurent (2014), dirigia pelo parisiense Jalil Lespert é uma cinebiografia bem produzida que conta a história de um dos mais importantes estilistas do mundo contemporâneo. Ao contrário do fraco “Coco antes de Chanel” (Coco avant Chanel, França, 2009), que quis retratar a trajetória de Coco antes de virar a famosa estilista da Maison Chanel, o filme Yves Saint Laurent começa a história de Yves Henri Donat Mathieu-Saint Laurent já como respeitado e talentoso assistente de Chistian Dior, assumindo a Maison Dior com apenas 21 anos, com a morte do famoso estilista.

A estreia de Yves na Dior é respeitada mas não tão bem vista como se esperava. “Eles esperavam demais e eu só podia desapontá-los”, como lembra o personagem, belíssimamente interpretado pelo ator francês Pierre Niney. No filme, Niney parece a reencarnação do Saint Laurent, em aparência e trejeitos: bonito, sexy, porém recatado. Saint Laurent era tímido, mas tinha um charme peculiar. No filme, exala sexualidade.

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Ainda sobre o ator, na obra, Niney lembra tanto o jovem Laurent e fez um trabalho tão incrível que deixou Pierre Bergé atordoado. Segundo o diretor, quando Bergé encontrou Niney, lhe disse: “Você é um ladrão, você roubou Yves Saint Laurent. Não sei como você fez isso, mas você é Yves Saint Laurent!”. Pierre Bergé foi companheiro e parceiro de Yves por 50 anos. Os dois começaram um romance, que se desfez alguns anos depois, porém, a amizade e a parceria empresarial durou até a morte de Saint Laurent. Bergé certa vez declarou: “O divórcio era inevitável, mas o amor nunca cessou”.

Como o filme percorre longos 50 anos, aproximadamente, desde o início da carreira de Yves até sua morte, algumas passagens deixam dúvidas ou não são bem explicadas. Como quando Yves se encontra num hospital psiquiátrico, tendo sido diagnosticado como maníaco-depressivo. Na realidade, o episódio acontece após sua convocação para servir na guerra da Argélia. A família Saint-Laurent era de Orã, Argélia, à época, possessão francesa que veio a entrar numa guerra pela independência. Yves era um homem muito sensível, gentil, afável. Era o queridinho da mamãe, tendo recebido educação seminarista. Ele não suporta a pressão do exército nem o bullying homofóbico. A Maison Dior aproveita a ocasião para lhe demitir, uma vez que as vendas não iam muito bem. A partir disso, Yves, Pierre e sua equipe lutam para angariar capital para abrir a YSL, que se tornaria uma das maiores marcas de moda do mundo.

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O filme é bonito, não só pela beleza da moda. Tem bela fotografia, cores alegríssimas, especialmente nas passagens pela colorida Marrakesh. Também é bonito como é apresentado o amor e parceria de Yves e Pierre. Apesar de mostrar o que parece clichê em relações homoafetivas: a tolerância de experiências românticas e sexuais fora da relação a dois, é enfocado que eles eram leais à sua parceria e companheirismo. Num desses affairs onde Yves mais se envolve, ele declara a Pierre: “Acho ele bonito. Elegante. Eu o amo. Mas o homem de minha vida é você”.

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Outro clichê parece ser a de que todo gênio necessita de uma âncora racional e assim era Bergé para Laurent. Porém, isso não é mero clichê cinematográfico, é a representação da realidade. Pierre jurou sempre proteger Yves e assim o fez. Yves era frágil. Não só queria como precisava dessa proteção. Dos outros, do mundo cruel, das finanças e também dele mesmo. Pierre o apoiou e protegeu até o fim. Ao saber do diagnóstico de tumor cerebral de Yves, em decisão conjunta com o médico, não contou ao seu parceiro. Achou que ele não suportaria saber da morte iminente. Essa parte não está no filme, nem fica clara a doença de Saint Laurent.

O que encerra o filme é a beleza de sua obra, de sua moda e a representação da força e beleza femininas que explodiam em suas criações. Diz-se que Saint Laurent entendeu a mulher moderna antes e melhor do que todo mundo. As peças usadas no filme são originais. O diretor teve a sorte de ter o apoio de Pierre Bergé, que lhe abriu as portas dos arquivos da fundação Pierre Bergé-Yves Saint Laurent. A coleção que encerra o filme é a que foi inspirada no balé russo, uma das mais fortes da história da moda, criada, paradoxalmente, num momento onde Yves estava bastante debilitado. Bergé não acompanhou as filmagens. Foi somente à gravação deste desfile em questão, convidado pelo diretor. Mas ao ver a película pronta, segundo Jalil Lespert, ficou tão desnorteado e tão emotivo que para o diretor, foi mais que uma aprovação, foi um encontro.

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Finalmente, um filme sobre moda focado nos personagens, sem se prender a frivolidades e centrando nos dramas humanos, porém, sem estereotipá-los. Um filme à altura do mito e do homem YSL.


Juliana Rosas

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