as rosas falam

jornalismo, cultura e olhar crítico

Juliana Rosas

Jornalista e cinéfila. Fotógrafa nas horas vagas. Amante das artes nas horas cheias.

Argo f*#$ yourself!

Reflexões. Segredos. Relações perigosas. O que assistir a 'Argo' e 'Room 237' em sequência me revelou.


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Num desses maravilhosos dias de sinal aberto de canal de filmes, assisti, sem planejar, quase que na sequência, dois filmes que me fizeram refletir sobre coincidências e acontecimentos outros. Vi primeiramente Argo (2012), que à época do seu lançamento foi muito aclamado e indicado a prêmios. Não tinha visto, pois confesso meu preconceito com Ben Affleck. Ele já desapontou muito, especialmente como ator. E como diretor, eu não estava tampouco convencida.

Mas, me enganei. O filme é bom e ele não está mal como ator. Quiçá porque o personagem não exige muito e faz o tipo introvertido. Na direção, o roteiro ajuda, bem como a produção que conta com, para minha surpresa, George Clooney. Surpresa porque não sabia mesmo, porém, Clooney tem seu lado politicamente engajado e de luta por direitos humanos. Seu pai é um jornalista conhecido e ele já trabalhou em filmes com essa temática, que inclui crítica à imprensa e a certas ações de seu país, como “Tudo pelo poder” (The Ides of March, 2011); “Syriana - A indústria do petróleo” (Syriana, 2005); “Boa noite e boa sorte” (Good night, and good luck, 2005).

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Pouco depois, assisti ao documentário “O Labirinto de Kubrick” (Room 237, 2012), que trata sobre teorias (da conspiração ou não) envolvendo um dos seus mais icônicos filmes, "O Iluminado" (The Shining, 1980). Uma das mais famosas teorias (e uma das quais já tinha ouvido falar) é a de que o filme faz referência à missão espacial americana à Lua. O documentário traz outros detalhes, como a de que certas informações do filme seriam deixas de Kubrick sobre sua culpa em ter aceitado a missão secreta do governo e ter produzido o vídeo com as imagens dos astronautas supostamente na Lua. Quem dá o depoimento faz questão de frisar que isso não quer dizer que os homens não chegaram ao satélite, mas que as imagens foram encenadas. E depois de ele ter divulgado sua teoria, teve provas de que estava sendo observado e que “alguém” não estava gostando de suas suposições.

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Pois bem, de volta a “Argo”. O filme é baseado na história real do agente Tony Mendez, que tem a missão de resgatar seis diplomatas americanos durante a crise de reféns no Irã, em 1980. Para tal, a solução mais plausível que encontram é encenar uma falsa produção de um falso filme em que os diplomatas fazem parte da equipe e assim, tirá-los daquele país sem suspeitas.

Para isso o agente, ainda em solo americano, conta com a ajuda de produtores cinematográficos e cineastas de Hollywood. Se você não viu o filme, não sabe da história e não quer spoilers, pode parar por aqui. No fim das contas, os diplomatas são resgatados, o fato ganha excelente repercussão e ao retornar, Tony recebe uma das mais altas honrarias do Estado, entregue em cerimônia secreta pelo presidente americano à época, Jimmy Carter. Mendez não pôde revelar sua honraria até 1997, quando o presidente Bill Clinton divulga os documentos secretos da operação.

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Agora juntando os dois filmes e me lembrando de outro ainda: “Mera coincidência” (Wag the dog, 1997), outra produção que conta as relações perigosas entre Hollywood, mídia e governo e todas as encenações feitas críveis para enganar a população e chegar ao objetivo pretendido, seja este objetivo uma eleição, guerra, diplomacia ou o que estiver na agenda.

Antes para mim uma bobagem, a teoria de que Kubrick, um brilhante cineasta, tivesse sido procurado pelo governo para encenar a chegada do homem à Lua, depois ter se arrependido e tentado externar isso em uma produção própria, agora não parece tanto exagero. Tenho algumas dúvidas, mas pode ser bem plausível. E o que mais me intriga é que comprovadamente, sabemos muito pouco. O que mais está por aí? Há quanto tempo ignoramos fatos? Há quanto tempo somos feitos de bobos?

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“Argo fuck yourself” é uma expressão usada algumas vezes durante o filme, misturando o título junto com a revolta do personagem de Alan Arkin. Pela imensa ignorância que temos de fatos do mundo, pela raiva que isso nos causa, pela revolta com certos atos de governo, só nos resta querer bradar também “Arrrrrrgggghhhhhh! F**k yourselves!”


Juliana Rosas

Jornalista e cinéfila. Fotógrafa nas horas vagas. Amante das artes nas horas cheias..
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