as rosas falam

jornalismo, cultura e olhar crítico

Juliana Rosas

Jornalista e cinéfila. Fotógrafa nas horas vagas. Amante das artes nas horas cheias.

A decolagem do Fênix

Quando achamos que há prêmios suficientes de cinema no mundo, eis que surge mais um. Este, porém, vem com a missão de reconhecer e celebrar o trabalho daqueles que se dedicam ao cinema na América Latina e Península Ibérica. O Premio Iberoamaricano de Cine Fénix foi uma lufada de ar fresco com caras, cores, sons, cenas e palavras que nos representam.


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Assisti à primeira edição do Premio Iberoamaricano de Cine Fénix, que aconteceu no México no último dia 31 de outubro. Logo de cara, vemos uma diferença com outros prêmios consagrados do gênero. Por a premiação ter acontecido na Ciudad de México, vimos atores, mexicanos ou não, fazendo referência aos 43 jovens desaparecidos em Iguala, estado de Guerreiro, nos dias 26 e 27 de setembro últimos, em fatos violentos que deixaram um saldo de seis mortos, 25 feridos e 43 estudantes de Ayotzinapa desaparecidos.

Pesquisando sobre o fato, o que encontrei foi que o acontecido do último dia 26 de setembro foi considerado um dos maiores massacres da história recente do México, quando estudantes da Escola Normal Rural de Ayotzinapa foram atacados por agentes municipais de Iguala e homens “encapuzados” pertencentes a grupos criminosos vinculados às autoridades estatais.

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O fato foi abordado já com a primeira dupla de atores a anunciar um prêmio. Antes dos indicados, leram os nomes dos 43 desaparecidos e a cada nome, ouvíamos gritos da platéia. Gritos não identificados, mas de protesto, provavelmente. Ao longo da premiação, atores com uma mancha vermelha nas mãos, simbolizando uma “ferida aberta” no país (México) subiram ao palco e mencionaram o fato. Também foram ditas frases como “Vivo os levaram e vivo os queremos” e “Todos somos 43” entre outras que se transformaram em símbolos dos protestos.

Além disso, houve alusões e discursos sobre os danos da migração e os males por que passam os imigrantes, especialmente ao final da premiação, sendo o filme Jaula de Oro o ganhador de melhor película, que trata justamente deste tema. O prêmio final foi seguido de cantores, cantoras, atores, atrizes e músicos cantando juntos, começando com a canção “Latinoamérica”, do grupo portoriquenho Calle 13.

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Além de falas e discursos políticos, protestos e outras coisas que o Oscar americano, por exemplo, jamais exibiria (muito pelo contrário, os proibiria), o que tivemos foi um prêmio com cara própria, músicas próprias e valorização daquilo que desejam promover. Claro que alguns clichês típicos de premiações cinematográficas estavam lá e provavelmente permanecerão. Também se nota um pouco de dificuldade nessa integração iberoamericana que desejam promover.

Tivemos belas surpresas, com atrizes brasileiras apresentando e ganhando prêmios e falando em português. Também estavam lá a atriz portuguesa Maria de Medeiros e alguns espanhóis. Creio que o nosso português e especialmente o português lusitano não foram compreensíveis para a maioria dos hispanos. Mas quem sabe essa tensão seja boa de ser representada, afinal, a Ibero-América (em português brasileiro) foi composta considerando, além da geografia, afinidades histórica, cultural e linguística. Porém, nós hispanos e especialmente brasileiros, sempre teremos nossas peculiaridades. Em tempo: a Ibero-América é uma região geográfica que compreende os três países da Península Ibérica (Portugal, Espanha e Andorra) e os da América Latina hispanófona e lusófona.

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A boa surpresa para os brasileiros foi Leandra Leal como ganhadora do prêmio de atuação feminina por O Lobo atrás da Porta (Brasil, 2013), única concorrente em língua não hispânica na categoria. A também nossa Alice Braga fez par com o mexicano Gael Garcia Bernal, com quem atuou na película El Ardor (ARG/MEX/BR/FR/EUA,2014), em apresentação de prêmio. O filme pernambucano Tatuagem (Brasil 2013), de Hilton Lacerda, ganhou o prêmio de melhor figurino, pelo trabalho da figurinista Chris Garrido. Outra boa presença brasileira ficou a cargo do crítico de cinema José Carlos Avellar, que ganhou o “Prêmio Fénix ao Trabalho Crítico”.

Uma boa surpresa para mim, se me permitem, foi o amor da minha vida (!) Viggo Mortensen subir ao palco para receber o prêmio de atuação masculina pelo filme Jauja (ARG/DIN/FR/FR/MEX/EUA/ALE/BR/HOL,2014), dirigido pelo argentino Lisandro Alonso. Para quem não sabe, esse ator (primordialmente conhecido pela trilogia O Senhor dos Anéis) viveu alguns anos na Argentina e fala um perfeito “castellano”. Além disso, tem cidadania dinamarquesa e em seu discurso mencionou o fato, lembrando que tinha um sonho em atuar na língua ou país de seu pai e que jamais pensara que seria num filme falado em espanhol. Jauja conta uma história de uma viagem de pai e filha da Dinamarca para um deserto desconhecido que existe em um reino para além dos limites da civilização.

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Durante a cerimônia, acho que houve apenas uma referência ao nome da premiação, feita brevemente por um premiado, creio, lembrando as feridas e as lutas do povo latino e também as lutas de quem faz cinema. Fênix é um pássaro da mitologia grega que, quando morria, entrava em autocombustão e, passado algum tempo, renascia das próprias cinzas. Suas lágrimas têm propriedades para curar qualquer tipo de doença ou ferida.

O Prêmio ibero-americano de cinema Fênix é organizado por Cinema23 e reúne a comunidade cinematográfica da Ibero-América para prestigiar aquelas pessoas que, com o seu trabalho criativo, contribuem para o cinema da região. Cinema23 é uma associação para a promoção e difusão do cinema feito na América Latina, Espanha e Portugal. Uma bela premiação. E está apenas começando. Vida longa ao Premio Fénix.

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Fotos retiradas do sítio oficial: premiosfenix.com


Juliana Rosas

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