as rosas falam

jornalismo, cultura e olhar crítico

Juliana Rosas

Jornalista e cinéfila. Fotógrafa nas horas vagas. Amante das artes nas horas cheias.

Locke: o indivíduo locked in

Gostei muito do trailer do filme Locke (idem, 2013) e decidi vê-lo. Não sabia mais nada além do filme, nada tinha lido. E o trailer não revela muita coisa. Deixa um suspense no ar. Foi também por isso que decidi assistir. De fato surpreendeente, um thrilling dramático. E bem difícil resenhar, hein? Vou tentar não contar nada da história, ou de fato vai estragar muita coisa pra quem decidir assistir.


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Então vou relatar apenas o que o filme me fez pensar além dele. Características que devem ter sido pensadas também por quem o escreveu, especialmente depois que soube que o roteirista escreveu os brilhantes roteiros de “Coisas Belas e Sujas” (Dirty Pretty Things, 2002) e “Senhores do Crime” (Eastern Promises, 2007). Desta vez, em Locke, Steven Knight assina roteiro e direção.

O que o filme Locke o seu principal personagem, Ivan Locke lembram primeiramente é, quase obviamente, John Locke. Filósofo britânico do século XVII, tido como um dos mais importantes pensadores da doutrina liberal, considerado o principal representante do empirismo britânico e um dos principais teóricos do contrato social. Hoje mais frequentemente ligado a assuntos econômicos e à ideia de livre mercado, o liberalismo nasceu, no entanto, como uma visão do mundo fundada sobre ideais que pretendem ser os da liberdade e da igualdade.

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Quando Ludwig von Mises (1881-1973) escreve seu livro “Liberalismo – segundo a tradição clássica”, o termo ‘liberalismo’ ainda mantinha, na Europa, o significado que se ligava à filosofia da liberdade. Porém, o termo ‘liberal’ usado por ele significa o movimento político e intelectual que na moderna civilização se anunciava como promotor da economia de livre mercado, da limitada ação governamental e também da liberdade individual.

Tirando desses conceitos algumas características principais, vemos Ivan Locke usufruindo de sua liberdade para tomar decisões que não vão agradar a muitos. Nem a seu trabalho, nem a sua família, nem à sociedade em geral. Sua decisão é individual, individualista e para alguns, egoísta. No entanto, apesar de seguir com sua decisão pessoal, não esqueceu as implicações mercantis que seu trabalho envolve.

Segunda coisa que Locke e Ivan nos fazem pensar: “lock” (fechar, obstruir, ou também fechadura), ou “locked” (travado, bloqueado). Preso em uma determinada situação, que em breve tornar-se-ão um emaranhado destas, bloqueado por algumas ações alheias e tentando achar soluções para as ocorrências que vão surgindo. Não só preso numa situação, por hora, ele está preso em seu próprio carro. E dentro desse cubículo, acompanhamos suas decisões e desenrolares. Assim está Ivan Locke. Como se numa sala trancafiada experimentando várias chaves que destranquem a maldita fechadura. Ele escolheu uma chave. Tomou uma decisão.

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Recentemente vi um vídeo do professor Michael Sandel num curso de filosofia em Harvard sobre o utilitarismo e ideias de Jeremy Bentham. O utilitarismo tem sua máxima reduzida por um dos alunos: “You gotta do what you gotta do”, significando, que temos que fazer o necessário em determinada situação para que ela seja a melhor para nós. E o que é melhor para nós pode não o ser necessariamente para o próximo imediatamente afetado. Assim pensou Ivan Locke: “Tenho que fazer o que acho que é certo”. Claro que esse seu certo é ajudado – ou talvez prejudicado – pela necessidade de não seguir as mesmas ações do pai, pelas suas próprias lembranças de juventude, por problemas mal resolvidos, por crer que ele deve “limpar” o nome da família.

Assim é I. Locke, com traços de J. Locke e Bentham. Todos britânicos, a propósito. Assim como o diretor, assim como o ator e personagem principal, assim como parte da produção. Como nos diz o trailer, uma majestosa atuação de Tom Hardy, um filme engenhosamente executado, único. Mais não digo. Perde a graça. Locked it.


Juliana Rosas

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