as rosas falam

jornalismo, cultura e olhar crítico

Juliana Rosas

Jornalista e cinéfila. Fotógrafa nas horas vagas. Amante das artes nas horas cheias.

Revelando os documentários

O último documentário de Wim Wenders vem recebendo boas críticas e prêmios desde seu lançamento. Mas há uma produção brasileira anterior que revela mais do próprio artista e do trabalho do mais conhecido fotógrafo do país.


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Vi recentemente, no Canal Brasil, o documentário Revelando Sebastião Salgado (2012), da diretora Betse de Paula. Para quem desejar assistir, o canal deverá reprisá-lo outras vezes. Trata-se de uma produção anterior a “O sal da terra” (The Salt of the Earth, 2014), mas que ressurge com a ascensão e maior fama da produção dirigida pelo cineasta alemão Wim Wenders e pelo filho do fotógrafo, Juliano Ribeiro Salgado, numa co-produção Brasil, França, Itália.

Não vi O Sal da Terra ainda. Não estreou por minhas bandas. Mas além de assistir a Revelando Sebastião Salgado, muito recentemente estive na exposição Genesis, novo projeto do fotógrafo. De fato, este último revela o artista. Traz entrevistas não só com ele, mas imagens deste em sua casa, na França, com sua família, esposa, filhos, neto, amigos. Além de trazer fatos das viagens que resultaram em Genesis e histórias por trás das fotografias. Apesar de Salgado sempre ter transparecido ser uma pessoa bastante discreta, este aparece muito cândido, sincero e à vontade nas entrevistas. Porém, o feito não foi tarefa fácil.

Revelando traz esclarecimentos para fatos pouco conhecidos do fotógrafo brasileiro, como o registro do atentado contra o presidente norte-americano Ronald Reagan, em 1981. A diretora disse que não foi fácil fazer Sebastião Salgado falar sobre o assunto, pois ele não queria a alcunha de “fotógrafo do atentado”.

Mas Betse de Paula, talvez justamente por sua família ser amiga de longa data de Salgado, fez com que o renomado fotógrafo abrisse as portas de sua casa e contasse abertamente diversas histórias. Além do seu trabalho, também de sua mudança para Paris durante a ditadura brasileira e alguns causos de família, como o banho de “abre caminhos” que sua mãe lhe deu quando pequeno. Salgado conta do arrependimento posterior da mãe. “Aí abriu caminhos demais e Tiãozinho nunca mais voltou pra casa”, revela, rindo.

Salgado também fala de seu filho mais novo, Rodrigo, que tem Síndrome de Down, e como a condição do filho mudou relações de proximidade na família. Juliano fala pouco. Na maior entrevista, fala que só veio perceber a grandiosidade do trabalho do pai havia pouco tempo. Antes, ele o via como um “Indiana Jones”, sempre viajando, sempre em locais desconhecidos, inóspitos, que ninguém ia. E sempre se refere ao pai como “Sebastião” ou “Tião”.

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Nenhum problema. Até esta semana eu ver esta entrevista de Juliano onde ele revela que por um tempo a relação com o pai não foi boa e assim estava no começo da filmagem de O Sal da Terra. O filho não dá maiores explicações dessa má relação. Nem se melhorou. Mas continua chamando o próprio pai pelo primeiro nome e nunca “pai”. Pode ser apenas um costume, pode não querer dizer nada. Mas aqui no Brasil, se os pais te chamam pelo nome (e não pelo apelido carinhoso ou diminutivo) é porque algo você aprontou! E eu bem sei que quando brigo com meus pais também chamo-os por seus nomes próprios.

Bem, no fim das contas, isso não interessa. Coloquei aqui porque de certa forma me chamou atenção. Salgado parece um herói nacional. Desbravou Brasil e mundo, é um grande artista com uma bela família. Mas até na mais perfeita das famílias pode haver divergências.

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Não se sabe como está agora, mas parece que tudo se resolveu. Pelo menos, para a finalização de O Sal da Terra. Nessa mesma entrevista, a repórter refere-se como um “inferno” o ano de edição do documentário. A cada edição, Wim Wenders nunca estava satisfeito com o resultado. Passavam-se mais três meses de trabalho e ele ainda odiava o que via. “Wim Wenders acabou fazendo nesse filme uma coisa que eu não podia fazer. Sebastião e eu tínhamos uma relação que não era tão boa quando começamos a fazer essa filmagem e foi Wim quem fez umas entrevistas super importantes, que nos motivaram fazer esse filme”, revelou Juliano Ribeiro.

O co-diretor confidenciou mais sobre os bastidores: “Esse processo de filmar Sebastião foi bem complicado. Ele nunca se acostumou com a câmera. Ficava até meio com raiva de mim em certos momentos”. E sobre a edição: “A gente começou a editar esse filme sem muito saber como ia ser. Começou assim, eu ia trabalhar um pouco e em dois meses, mostrava o resultado pro Wim. E Wim que é tão calmo, ponderado, simpático, começava a gritar na sala de edição, odiava aquilo. Ele saia pra editar, voltava, eu achava fraco. E foi passando de mão em mão até o momento que a gente viu, depois de um ano dessa brincadeira, que não tava dando certo. Nesse momento, entendemos que de repente existia outro método, que era de se aceitar um ao outro, sentar juntos na sala de edição e de começar a fazer um filme que seria nosso filme. E, por incrível que pareça, foi esse método que deu certo”, confessou Juliano.

Parece que O Sal da Terra se foca no trabalho de Salgado, suas viagens, seus métodos em campo e seu depoimento, conectando tudo isso. Revelando traz o fotógrafo em casa, falando de sua trajetória, o começo nem sempre fácil, a mudança do uso de filme para digital nas fotos e como não consegue editar em tela de computador. Precisa do papel. Revelando Sebastião Salgado participou de alguns festivais de cinema no Brasil, mas por falta de verba não foi aos cinemas e foi lançado direto em DVD. No seu documentário, Betse esbarrou em imagens que não podia usar por já estarem reservadas ao documentário de Wenders e Juliano. Não sabemos se pela qualidade ou fama de Wim Wenders, O Sal da Terra vem angariando prestígio. Ganhou o César, prêmio francês, de melhor documentário e era um dos favoritos na disputa do Oscar.

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Não levou. Mas não importa. Salgado é uma pessoa extraordinária. E como diz Wenders, as pessoas são o sal da terra.


Juliana Rosas

Jornalista e cinéfila. Fotógrafa nas horas vagas. Amante das artes nas horas cheias..
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