as rosas falam

jornalismo, cultura e olhar crítico

Juliana Rosas

Jornalista e cinéfila. Fotógrafa nas horas vagas. Amante das artes nas horas cheias.

Lembranças...

Entre mudanças, memórias, lembranças, lixo, objetos, Alice e Stephen.


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Quando eu era criança, lembro de um fato que me deixou muito chateada. Tinha uma boneca Emília enoooorme! Na época, da minha altura ou maior. Foi feita a mão pela minha avó paterna, que costurava e tricotava muito bem. Quando de uma das minhas crises de garganta, lembro desta boneca toda desajeitada e suja dentro de um saco de lixo prestes a ser jogada fora. Na época, nem lembro se reclamei. Apenas lembro-me de estar debilitada pela doença.

Até hoje recordo o fato e dia desses falei pra minha mãe. Ela não se lembrava. Muito menos o quase trauma que havia me causado. E mesmo hoje, tentamos encontrar uma boneca parecida em lojas ou feiras de artesanato. Ainda não achamos.

Outra ocasião que me chateei com minha mãe foi quando, há alguns anos, ela tinha jogado várias coisas minha fora. Eles estavam no “quarto da bagunça” ou algo assim, canto que quase toda casa de classe média acaba tendo, em substituição ao porão ou sótão de casas grandes de outros países. As “coisas” jogadas fora, em sua maioria eram livros e atividades escolares de quando eu era criança. Chateei-me por ela ter feito a “limpeza” sem me consultar e por achar que aquilo era somente lixo ou “coisas velhas” dignas de serem jogadas fora.

Queria guardar de recordação, além de ter uma ideia romântica e juvenil de que um dia eu pudesse mostrar minhas produções infantis a meus próprios filhos. Não será dessa vez. Conto isso porque estou temporariamente de volta à casa, depois de um período em outra cidade e como toda mudança, tendo que fazer ajustes, encontrar espaços, jogar coisas fora, manter outras...

Devo ser uma das poucas pessoas que mesmo após anos de formada ainda guarda coisas da graduação. Ou guardava. Depois de muito olhar e guardar de novo, resolvi fazer certa “limpeza”. É um processo não só físico – faxina e mudança cansam, e muito! – mas também mental e espiritual. São lembranças à tona, coisas que se esqueceu, outras que lembrava, mas de uma maneira diferente. Recadinhos idiotas de ex, recados de ex idiotas, anotações de aula, jornalzinho de fofocas da turma.

No entanto, aqui não irei soltar uma frase tipo, “ah, os velhos tempos...”. Não estou saudosa. Queria coisas ontem, desejos coisas para hoje e amanhã, porém, estou bem neste momento.

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A inspiração para essas linhas, além da faxina e mudança, claro, veio após há pouco ver o filme “Para sempre Alice” (Still Alice, 2014). O trailer apresenta um filme quase alegre, positivo. Mas um amigo já havia advertido que este é um filme para assistir de maneira preparada, que não é “pra cima” e não exatamente esperançoso. É a vida. E nem sempre ela é bela. Com isso, lembrei de outro filme “oscarizado” de 2014, “A teoria de tudo” (The Theory of Everything, 2014) e de uma entrevista do ator Eddie Redmayne no programa de Ellen Degeneres. Ele relatava seu encontro com Stephen Hawking e sua atual maior dificuldade em se comunicar, uma vez que demora mais para registrar as palavras no computador. Um comentário da apresentadora foi mais ou menos assim: “pois é, nós somos mais que isso (corpo) e tudo de nós está aqui (apontando para a cabeça)”.

Não demorou para que eu fizesse a relação entre os dois personagens, coincidentemente tendo seus atores premiados com o Oscar. Se tudo que somos está na nossa mente, o que pensar de Alice, que continua com seu corpo intacto e sua mente esvaindo-se do que já foi um dia? Como a personagem mesmo diz, ela já foi definida por seu intelecto e em pouco tempo não se lembrará de sua vida, seus filhos e nem de sua própria existência. E Hawking continua com sua mente brilhante e um corpo a se dissipar com a doença.

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Impossível não ficar mal por alguns instantes. Difícil não refletir sobre. Mas é para isso que serve a arte. E é essa reflexão que nos faz humanos. Após refletir e entristecer-me por um momento, tenho a sorte de perceber que por hora tenho essas lembranças. Elas vieram à tona por meio de objetos e sem eles, agora abro espaço para outros objetos e mais lembranças. Sem eles, voltarei a lembrar dessa época? Decidi limpar algo do passado para abrir espaço para lembranças futuras. É o certo? Certo ou não, está feito. E é a vida. Vida que segue.

Fonte das imagens, respectivamente: 1, 2, 3.


Juliana Rosas

Jornalista e cinéfila. Fotógrafa nas horas vagas. Amante das artes nas horas cheias..
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